O ódio e o racismo na América

Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor
de sua pele, por sua origem ou ainda por sua
religião. Para odiar, as pessoas precisam
aprender, e se podem aprender a odiar, elas
podem ser ensinadas a amar.
Nelson Mandela
No sábado, 12 de agosto de 2017, um grupo de
pessoas reuniu-se na cidade universitária de Charlottsville,
estado de Virginia, a fim de protestarem
contra uma outra manifestação organizada por supremacistas
brancos, saudosistas nazis, membros da Ku
Klux Klan (KKK), ativistas da alt-right e demais
grupos da extrema-direita norte-americana. Os
contramanifestantes, na cidade de Thomas Jefferson,
ecoavam o canto: Não a Trump! Não ao KKK! Não
ao fascismo na América! Ao que alguns supremacistas
responderam: é tarde demais! (usando uma linguagem
mais colorida — too late f———!). Não diria que é
tarde demais, até porque o que estes grupos odiosos
mostraram foi uma ressuscitação do mesmo discurso
racista e xenófobo que sempre os demarcou, mas o
que é mais do que obvio é que Charlottsville mostrou
à América, e ao mundo, ainda mais uma vez, o fruto
amargo e inevitável da nossa habitual desonestidade
intelectual, aqui nos EUA, no que concerne a raças e
racismo.
Apesar de todas as lutas, todos os progressos, todos
os dissabores e todos os triunfos, esta nossa sociedade
americana, composta por uma miríade de culturas,
raças e religiões, ainda não assumiu o seu pecado
original: a escravatura. Mais, tapa-se, constantemente,
o sol com a peneira, utilizando os mais tenebrosos
eufemismos para abdicarmos de um debate sério e
honesto ao ponto de se inventarem termos tão perniciosos
como contrarracismo e todas as vidas importam,
nem que as vidas dos anglo-saxónicos americanos
estivessem em perigo. As falsas equivalências,
aliadas à falta de autoridade moral exibida pelo atual
Presidente em mais um momento de crise, exacerbem
as tensões, colocam sal na ferida nacional e alentam
as forças mais repelentes da extrema direita americana,
até agora nas margens da sociedade.
Os Estados Unidos têm sido palco para algumas
das batalhas mais importantes relacionadas com o
progresso das sociedades, particularmente no que
concerne à discriminação baseada em herança cultural,
crenças religiosas, cor da pele e orientação
sexual. Através da sua história de pouco mais de dois
séculos, o baluarte da democracia, tem tido exemplos
claros e inequívocos de progresso. Recorde-se que a
4 de novembro de 2008, o primeiro presidente afroamericano
eleito nos EUA disse perante uma imensa
multidão no Grant Park em Chicago que se ainda
havia alguém nos Estados Unidos com dúvidas sobre
se o sonho dos fundadores do país ainda estava vivo,
se havia alguém que ainda questionasse o poder da
democracia americana, tinham tido a resposta com a
sua eleição ao cargo mais alto da nação americana.
O ato histórico de 2008, cedo se tornou numa chamada
para ação pela parte dos grupos mais odiosos e
extremistas na sociedade estadunidense.
Mal o presidente Obama deu entrada na Casa
Branca, a qual como se sabe foi construída em parte
com o suor, as lágrimas e o árduo trabalho de escravos
afro-americanos, variadíssimos grupos começaram a
planificar a sua destruição, única e exclusivamente
na premissa da cor da sua pele. Recorde-se que não
foram apenas os grupos extremistas, muitos na
clandestinidade, que começaram o movimento. É que
os comentários de lideres republicanos como o atual

dirigente do Senado Mitch McConnell e ações como

a do atual inquilino da Casa Branca, Donald Trump,
que se tornou candidato à presidência americana
questionando a legitimidade da certidão de nascimento
de Barak Obama permitiram Charlottsville e a
onda de racismo e xenofobia que se vive atualmente
neste país. Basta relembrarmos que a frase utilizada
pela campanha de Donald Trump, carimbada no seu
célebre boné vermelho (a cor principal da bandeira
da confederação americana), que usava ad nauseam
em cada comício: Make America Great Again, continha
todas as nuances para mais uma vez encaminhar
elementos que têm dividido a América à ribalta nacional.
Como candidato, o atual presidente americano
dividiu o país com promessas e discursos nacionalistas,
reacendeu a chama do racismo e colocou os
elementos mais retrógrados do Partido Republicano
no centro do palco. A tragédia de Charlottsville, e o
aumento nas tensões raciais nos EUA, não é um produto
exclusivo da campanha e da presidência de
Donald Trump, porém o seu comportamento e as
suas afirmações, durante a campanha, e já na presidência,
contribuíram para este clima. Mais, o silêncio
exibido pela atual liderança do Partido Republicano
é assustador e dá a imagem de alguma cumplicidade.
É que durante o ano de 2016, com a retórica inflamatória
de Donald Trump, e o silêncio sepulcral da
liderança republicana, o número de crimes de ódio
(hate crimes) aumentou nos EUA na ordem dos 20%.
Desde janeiro deste ano essa tendência soma e segue.
Porque construiu uma campanha, e uma base política,
que acariciou e mimou os demónios da política
racial, o Presidente Trump, e os seus assessores, sabiam
muito bem que depois da tragédia de Charlottsville
as suas palavras teriam a atenção da América e do
mundo. É que todos os seus antecessores, particularmente
na era moderna, têm pregado o evangelho
americano, que como se sabe alicerça-se na liberdade,
justiça, imaginação e ambição. É mais do que sabido
que em momentos difíceis da vida americana os
Presidentes invocam valores históricos e perduráveis,
quer para atingirem objetivos, quer para sarar feridas
nacionais. Mas, como se sabe, e foi provado ainda
mais uma vez, esta não é a liturgia de Donald Trump.
É que em vez de apelar ao nosso lado angélico, à bondade
americana, o atual Presidente preferiu enaltecer
sentimentos queixosos e ressentimentos ancestrais. E
ao referir-se aos supremacistas brancos, saudosistas
nazis, membros da Ku Klux Klan (KKK), ativistas
da alt-right e demais grupos da extrema-direita norteamericana
em Charlotsville como: very fine people
(gente muito boa), legitimou o ódio, o racismo e a
xenofobia na América.
O templo do renascimento de Thomas Jefferson, a
Universidade de Virginia, foi o palco desta última
tragédia americana. Se vamos acreditar nas promessas
dos grupos da extrema direita americana, e no silêncio
do Partido Republicano, os próximos tempos trarnos-
ão ainda mais tensões na trajetória nacional, com
o anúncio de mais manifestações. E quem sabe se
com estes protestos haverá mais violência. O que é
conclusivo é que as palavras, e a hesitação, do Presidente
reanimaram estas forças retrogradas que até ao
passado, muito recente, protestavam com a cara tapada.
Foram-se as máscaras e neste momento sentem
orgulho do seu racismo, da sua xenofobia da sua suposta
superioridade. É que se vamos acreditar nas
palavras destes extremistas teremos mais distúrbios,
mais confrontos e possivelmente mais perda de vidas.
Em jogo está a alma americana.
Acredito que a vasta maioria dos cidadãos americanos
estão prontos para defenderem os verdadeiros
valores que construíram este país e que, mais uma
vez, o bom senso e o progresso, fundamentado no
sonho dos fundadores do país acabará por triunfar.
Os americanos não deixarão a utopia americana
morrer. É pena que não terão o presidente ao seu
lado.