Diálogos necessários — encontros frutíferos

 

Um encontro de vontades e personalidades ao

serviço do interesse de Portugal e dos Estados Unidos.

Vasco Rato, Presidente da FLAD.

 

As relações entre os Estados Unidos e Portugal têm uma história que remota o começo da nação americana. Ao longo dos anos, Portugal, o nosso pequeno país plantado à beira do Atlântico, e os Estados Unidos, desde os seus primeiros 13 estados, pouco populacionais, até aos 50 atuais com cerca de 330 milhões de habitantes, e uma das classes médias mais bem-sucedidas na história do mundo, têm sido parceiros, mesmo quando os go­vernos têm tido posições dissemelhantes. Quero acre­ditar que as relações entre os nossos dois países, têm ainda uma tónica importante graças à presença das comunidades de ascendência portuguesa nos EUA. Um pouco mais de uma milhão de emigrantes portugueses e seus descendentes, contribuem para a ligação entre os nossos dois países. Basta relembrar as palavras de sim­patia e de admiração que o antigo presidente norte-americano Barack Obama teve para com as nossas comu­nidades quando visitou o nosso país há alguns anos. Esse relacionamento, tem tido momentos muito impor­tantes no trabalho que a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) tem feito ao longo da sua existência. A FLAD tem tido um papel fundamental na aproximação dos nossos dois países, através do apoio e na implementação de inúmeros projetos académicos, culturais, empresariais e políticas. Os Legislators’ Dialo­gues, é um desses projetos. Num momento em que as comunidades de origem portuguesa nos EUA ainda estão a descobrir o mundo político, este fórum vem apro­ximar os membros dos algures cognominados “laboratórios das democracias” luso-descendentes, assim como o fortalecimento do seu mundo no que concerne à atualidade do mundo português.

Nos dias 21 e 22 de abril de 2017, dezasseis legis­ladores, vindos dos estados da Califórnia, Massachusetts, Rhode Island e Connecticut convergiram na capital portuguesa para debaterem as realidades da participação política nas nossas comunidades, assim como ouvir, aprender e debater a atualidade portuguesa, nas suas mais variadas vertentes. O programa incluiu inter­venções de entidades ligadas ao ministério do mar; ao do principal partido da oposição, o PSD; do antigo em­baixador dos Estados Unidos em Portugal; do governo, através da presença do Ministro Adjunto, Eduardo Cabrita; de dois autarcas: Rui Moreira do Porto e Maria do Céu Albuquerque de Abrantes; de membros da liderança na embaixada dos EUA em Portugal, de elementos do ministério dos negócios estrangeiros; da representação do governo da Região Autónoma dos Açores, do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa e do antigo Presidente da Republica (um dos meus heróis da jovem democracia portuguesa) Jorge Sampaio.

Para além das intervenções serem de alta qualidade, há que salientar a posição bastante crítica de Pedro Passos Coelho (líder do PSD) sobre as afirmações bombásticas e irresponsáveis do Presidente norte americano sobre a Europa e a NATO, afirmando, categoricamente, que apesar das diferenças que têm existido através dos anos esta é a primeira vez que uma administração americana mostra hostilidade para com a politica da União Euro­peia, citando o novo embaixador americano na EU, que ao chegar ao seu posto, disse que iriam registar-se mudanças sísmicas nas relações transatlânticas. Perante os legisladores estaduais e o único legislador nacional nessa sessão, o congressista Jim Costa, Passos Coelho não poupou críticas ao comportamento da nova admi­nistração americana para com a Europa, dizendo que presentemente para os EUA quanto mais “blocos europeus, melhor.” Claro que todos nós sabemos que isso não é bom, nem para a Europa nem para os EUA, nem para o mundo.

O Ministro Adjunto Eduardo Cabrita, uma persona­lidade conhecidíssima no governo, e um histórico do Partido Socialista, fez um apanhado das modificações e das políticas deste governo durante o último ano, já que tinha estado nos diálogos do ano transato, apenas uns escassos depois do novo governo ter tomado posse. Portugal tem dado passos muito importantes nos últimos 18 meses e tudo indica que este governo, apelidado com o termo “geringonça”. Termo depreciativo que tentava denegrir esta nova experiência democrática em Portugal, e que é hoje um termo que o governo o aceita com honra, cumprirá, na ótica no Ministro Adjunto a legislatura de 4 anos. O Ministro foi altamente aplaudido quando anunciou a nova medida desta legislatura para dar a cidadania aos luso-descendentes cujos avós tenham sido emigrantes. Muitos dos legisladores presentes, já de terceira geração poderão usufruir desta medida.

Marcelo Rebelo de Sousa, atual Presidente da República Portuguesa, fez um discurso baseado no relacionamento entre os dois países, EUA e Portugal, assim como, Portugal dentro da União Europeia. Reiterou a importância da NATO para a paz mundial e relembrou que todas as forças políticas e todos os estados têm que ser respeitados. Anun­ciou ainda que o próximo ano de 2018 será o ano de Portugal nos Estados Unidos, com uma série de atividades e sobretudo com a celebração do Dia de Portugal, Camões e Comunidades Portuguesas na costa leste dos EUA, mas com viagens a vários estados e uma passagem pela costa oeste para uma visita às comunidades da Califórnia. Escusado será dizer que os legisladores presentes mostraram-se muito satisfeitos com esta notícia. Será um momento importante para congregar as comu­nidades e celebrar-se Portugal nos EUA durante todo o ano de 2018.

Para além dos palestrantes, que como se disse foram ótimos na mensagem e nos diálogos traçados entre ambos os lados do Atlântico, há que salientar a ligação que se estabelece entre estes legisladores, que apesar de não estarem muito longe, no caso dos representantes da costa leste, devido aos seus compromissos do quotidiano, poucas vezes têm oportunidades como esta em Lisboa. Uma vez que estive presente, na qualidade de presidente da direção do recém-criado Califórnia Portuguese-American Coalition (CPAC), tive a oportunidade de rever alguns que já conhecia e conhecer outros. E foram, quer para a CPAC, e confesso para mim, pessoalmente, dias muito enriquecedores.

Por ordem alfabética, recordo as conversas, a camara­dagem e a amizade estabelecida com estes legisladores luso-descendentes que devem ser um exemplo para muitos outros que se quer em posições semelhantes em mais comunidades e mais estados do mundo estadunidense. Alan Silvia, de famílias açorianas, é representante na câmara dos deputados no estado de Massachusetts. Senhor de uma oratória concisa, porém eloquente e perspicaz, tem um enorme orgulho nas suas origens portu­guesas e tem efetuado um trabalho exemplar no mundo da justiça criminal. António Cabral, emigrante da ilha do Pico, está na assembleia estadual de Massachusetts desde o ano de 1991. Com um currículo invejável como legislador, defendendo o sector da pesca de New Bedford, da pesquisa aquática e uma amalgama de medidas no campo da justiça social. Tony Cabral, como é conhecido e quem conheço desde que foi eleito, tem sido um amigo dos Açores e um defensor das nossas comunidades, particularmente no que concerne ao ensino da língua e cultura portuguesas. Daniel da Ponte, senador no estado da Rhode Island, é um jovem di­nâmico que muito tem contribuído para as ligações entre os Açores o estado de Rhode Island. Especialista em finanças, Daniel da Ponte, entre as suas inúmeras res­ponsabilidades mantém um programa de rádio sobre assuntos económicos na mais potente estação de rádio em língua portuguesa nos EUA, a WJFD. Possuidor de um espirito de humor finíssimo, inteligente e conhe­cedor das nossas vivências portuguesas em terras ameri­canas, não exagero ao dizer que qualquer pessoas gostaria de conversar e aprender com Daniel da Ponte.

David Vieira, legislador de Massachusetts, é um dos poucos republicanos eleitos num estado com uma forte componente democrática. Foi eleito pela primeira vez em 1998 como “town moderator” um dos mais novos de todo o país e o mais novo da cidade de Falmouth. É membro de organizações de origem lusa e empenhado em servir os seus constituintes, com um serviço impe­cável. Possuidor de um mestrado em administração pú­blica, David tem um profundo conhecimento do poder local e das andanças legislativas. Dylan Fernandes, foi dos mais novos dos legisladores presentes. Este jovem legislador, que trabalhou na campanha da Senadora Elizabeth Warren, é uma das vozes mais progressistas no seu estado tendo trabalho em causas tão importantes como os direitos das comunidade LGBT, a igualdade salarial para as mulheres, energia alternativa e soluções inovadoras para a proteção do ambiente. Vejo no Dylan, que é um luso-descendente de quarta geração, um futuro auspicioso na politica de Massachusetts, e quem sabe na política nacional. Com um futuro também muito promissor na politica do mesmo estado e creio que, possivelmente a nível nacional é o jovem cabo-verdiano, Evandro Carvalho. Com um doutoramento em juris­prudência da Universidade de Howard School of Law, este jovem que emigrou de Cabo verde para os EUA com 15 anos de idade, tem-se distinguido na política daquele estado, sendo membro e subdiretor de várias comissões importantes, desde que foi eleito em 2014. Conhecedor dos dossiers que afetam as comunidades que fazem parte do seu distrito eleitoral, Evandro Car­valho é nome para anotar em termos de futuro politico. Um jovem dinâmico e dedicado às causas que benefi­ciam o progresso humano.

Hélder Cunha, é filho de emigrantes da ilha de Santa Maria e foi eleito recentemente, em novembro de 2016 para a Câmara de Representantes de Rhode Island. O serviço publico deste jovem remota o ano de 2012 quando foi eleito para a Câmara Municipal de East Providence. Muito ligado aos direitos e à criação de oportunidades para o pequeno e médio empresário, este jovem, que como muitos dos outros aqui mencionados, fala muito bem a língua portuguesa, tem uma ligação impressionante às suas raízes culturais. Hélio Melo, que emigrou com escassos meses da Praia da Vitória para a Costa leste dos Estados Unidos tem uma longa história de serviço público, desde direções escolares, à direção da biblioteca pública de East Providence, passando pela Câmara dos Representantes de Rhode Island para a qual foi eleito em 2004. Um terceirense de gema, como se diz nos Açores, orgulhoso das suas raízes culturais e do seu serviço em prol das comunidades que serviu nas mais amplas e abrangentes capacidades.

Jesse MacLachlan, apesar do nome não indicar, tem raízes portuguesas, com ligações pelo lado materno. Eleito representante no estado de Connecticut. Pela primeira vez há 3 anos, em 2014, faz parte de comissões tão importantes como: transportes públicos, energia e tecnologia. Totalmente encantado com Portugal, que visitou pela primeira vez nestes diálogos, será, certamente, uma voz ativa na ligação que se quer entre o mundo político e as nossas comunidades, particularmente no conhecimento do Portugal de hoje. Joseph Salomon Jr. é representante estadual em Rhode Island. Também um advogado, com doutoramento em jurisprudência feito na New England Law de Boston, exerce a profissão em simultâneo com o seu serviço público. A sua descendência portuguesa provém das familiais Carreiro dos Santos da ilha de São Miguel. É extremamente dedicado às comunidades que representa e possui um contagiante jovialíssimo que só pode vir dos Açores.

Raymund Hull, representa desde 2010 o distrito número seis na assembleia estadual de Rhode Island. Um acérrimo defensor das causas ligadas à justiça social, aos direitos de vitimas de crimes de abusos sexuais e igualdades de minorias e grupos menos representados na administração pública. Há quase três décadas que dirige a importante “housing unit” na polícia da cidade de Providence. Um profundo conhecedor do poder local, da politica junto dos cidadãos e para serviço dos mesmos. Gosta-se, muito mesmo, de conversar com Raymond Hull. Rosa Rebimbas, foi a única mulher das comunidades neste certame e é legisladora estadual em Connecticut onde foi escolhida para ser estar na liderança da secção republicana daquele hemiciclo. Para além do seu serviço publico, é advogada privada há mais de 13 anos. Uma grande senhora, muito ligada à nossa comunidade naquele estado e com uma magnífica fluência na língua portuguesa. Divertida e inteligente, Rosa Rebimbas é uma voz extremamente importante no mundo da politica daquele estado e um exemplo para muitas jovens luso-descendentes que terão que olhar cada vez mais para a presença de mulheres luso-americanas no poder político.

Estiveram ainda presentes dois senadores estaduais, ambos do estado de Massachusetts. Marc Pacheco é Presidente ProTempore do Senado daquele estado. Há muitos anos no serviço público é um dos decanos, no que concerne à presença luso-americana na política daquele importante estado norte-americano. Ocupa posições de liderança em inúmeras comissões e projetos de suma importância para aquele estado. Tem sido, através dos anos, um acérrimo defensor das causas comunitárias. Ficaria horas a ouvir as suas experiências com o processo democrático. Michael Rodrigues, também senador desde 2010, antes de estar nesta câmara serviu na assembleia durante 14 anos. Ocupa posições de liderança em várias comissões deste hemiciclo e é uma voz ativa dentro da comunidade de origem portuguesa daquele estado. Profundo conhecedor de dossiers e das nossas vivências lusas, é de uma amabilidade espantosa e dono de uma capacidade de diálogo que promove o debate de ideias. Dois decanos da presença lusa no mundo politico de Massachusetts, aprende-se muito, muito mesmo, conversando com estes dois baluartes da nossa comunidade e do serviço público em terras americanas.

Presentes ainda dois dos três congressistas luso-descendentes em terras do Tio Sam. Jim Costa, que conheço desde 1989 com um historial de serviço público impar no mundo luso-americano. Esteve na assembleia e no Senado da Califórnia durante 24 anos e há 13 que está no Congresso em Washington DC. Com 37 anos de serviço legislativo Jim Costa é um profundo conhecedor dos meandros dos hemiciclos americanos, quer a nível nacional, quer a nível estadual. Não há atualmente político luso-descendente com tantos anos de serviço como Jim Costa, que, simultaneamente, é um defensor das causas lusas. O congressista Costa (tal como os outros dois luso-descendentes no hemiciclo nacional) representa o vale de San Joaquim, um dos vales mais férteis do mundo e tem tido uma habilidade única de fazer coligações com outros grupos étnicos e outras culturas. Ainda gostava de ver o Congressista Costa embaixador dos EUA em Portugal. Devin Nunes, que esteve na última parte dos Legislators’ Dialogues, durante o discurso do Presidente da Republica, é um dos luso-descendentes com maior projeção na comunicação social americana, particularmente nos últimos meses. No congresso há 15 anos, Devin Nunes, pela supremacia do Partido Republicano na Câmara dos Representantes, e a sua rápida ascensão na liderança conservadora, dirige comissões extremamente poderosas e tem sido um dos congressistas mais ativos na atual liderança republicana dirigida por Paul Ryan. É, neste momento, o politico luso-americano mais conhecido. Conheço o Devin, pessoalmente, desde 2002. Ainda muito jovem, com 29 anos foi eleito para o Congresso. Nem é preciso dizer-se o importante que é termos congressistas luso-descendentes na capital do poder político americano. O congressista David Valadão, infelizmente, não pôde frequentar este certame.

Há ainda que destacar a presença do antigo embaixador dos Estados Unidos em Portugal, Robert Sherman que foi, e continua a ser, um verdadeiro amigo de Portugal. Raramente se vê na diplomacia americana alguém com a paixão de Robert Sherman. Mais, a presente Chargé de Affaires, Herro Mustafa, com quem tive o privilégio de conversar durante um dos jantares, é de um vigor incrível e com ela poder-se-á instituir uma amalgama de projetos com frutos positivos para ambos os nossos países.

Duas últimas palavras a sublinhar, o dinamismo que o presidente Vasco Rato trouxe para a FLAD, destruindo alguns tabus e construindo novas pontes. É que tal como disse na sua mensagem de boas-vindas: “a FLAD assume o papel de ponte transatlântica entre posições portuguesas e norte-americanas, na construção de pontos de vista comuns.” Os Legislators’ Dialogues, tal como outros projetos recentemente impulsionados pelo atual presidente Vasco Rato são importantes para uma FLAD ativa nas relações bilaterais entre os nossos dois países e para uma dinâmica nova e aberta que se quer dar às nossas comunidades no mundo americano. A outra palavra é congratulatória para toda a administração da FLAD, quer na presença do presidente, quer na presença dos administradores Michael Baum e Jorge Gabriel; quer ainda equipa diligente e profissional que dirigiu um fórum, na qual há a destacar o papel incansável e meritório do diretor Miguel Vaz. Se é verdade que já conheço o profissionalismo do Miguel desde o seu serviço nos Açores, no gabinete do Ministro da República, e daí não me surpreender o seu empenho e dedicação, há que salientar o seu trabalho e a sua incomparável amizade para com cada um dos participantes.

Jorge Sampaio, antigo Presidente da República, convidado para o jantar de despedida, deixou uma mensagem bem clara: “os contributos da FLAD, nos mais variadíssimos campos, para o relacionamento entre Portugal e os Estados Unidos são fundamentais.” Aliás como referiu Vasco Rato na sua mensagem de boas-vindas, a presença de figuras de destaque da sociedade politica portuguesa, é um sinal claro do “interesse despertado por estes diálogos em sentido bilateral nos dois lados do Atlântico.”

Creio que este fórum, criado para encetar um diálogo entre os legisladores luso-descendentes, e destes com as entidades governativas portuguesas, é relevante para ambas as nossas duas pátrias e, sobretudo, para o enobrecimento, de uma paixão pessoal: as nossas comunidades de origem portuguesa em terras americanas.