Os Perigos do Populismo e do Nativismo: um discurso que marcou negativamente a história americana

 

• Diniz Borges

 

Apresentar-se nuo é um ato revolucionário. 

Apresentar-se descalço é mero populismo.

John Updike, escritor americano

 

• Diniz Borges

 

De quatro em quatro anos os Estados Unidos da América celebram a tomada de posse do seu mais alto cargo político, o Presidente. É um ato solene, acontece nas escadarias do capitólio e reúne entidades gover­namentais e cidadãos comuns, que de perto e de longe fazem a peregrinação até à capital estadunidense para celebrar a democracia. É ainda um processo muito mais simbólico, quando entra um novo líder de um partido diferente do que esteve no poder nos anos antecedentes. É o que gostamos de cognominar de: a transição pacífica do poder. É ainda um momento para o novo líder tentar unir a nação, mostrar a sua eloquência e entregar ao povo americano as tonalidades gerais da sua visão para o país e para o mundo. A 20 de janeiro deste ano, Do­nald J. Trump tomou posse, tornando-se no quadra­gésimo-quinto presidente dos Estados Unidos, com um discurso que parafraseando o colunista republicano, o conservador George Will, foi “o mais tenebroso” discurso de uma tomada de posse na história da presi­dência americana. Foi um discurso sem qualquer precedente. 

Desde sempre que as alocuções feitas nas tomadas de posses, são momentos marcantes, por vezes com orató­rias brilhantes. Há frases e sonâncias destes discursos que hoje fazem parte da idiossincrasia americana. Recorde-se a célebre frase de Abraham Lincoln ao tentar curar uma nação dividida pela guerra civil: sem malícia para ninguém e com caridade para todos. Franklin Roosevelt: a única coisa que temos que ter medo é do próprio medo. John F. Kennedy: não perguntes o que o país pode fazer por ti, mas o que podes fazer pelo país. Há ainda as famosas referências de Ronald Reagan a uma nova manhã na América; Bill Clinton ao renas­ci­mento primaveril e Barack Obama com a célebre referencia à miríade de culturas que compõem este país: a nossa manta de retalhos, não é uma fraqueza, é sim a nossa riqueza. Desta feita, a frase mais famosa de Donald J. Trump foi, em sintonia com todo o timbre do dis­curso: carnificina americana. E que essa carnificina desa­parecerá se “comprarmos produtos americanos e empre­garmos cidadãos americanos.” Apesar de uma das suas principais assessoras e a diretora da sua campanha ter assegurado que o discurso seria “elegante”, na realidade a alocução apenas refletiu o carimbo que marcou a sua campanha: rancor e ressentimento. Para quem acreditava que o senhor Trump adotaria outra postura depois de ser eleito, mais presidencial e menos combativo, quer o discurso de tomada de posse, quer o comportamento em público, e no Twitter, ao longo dos primeiros dias, arruinaram essa crença.

Infelizmente, com o narcisismo que já nos habituou, o Presidente quebrou com todas tradições mais sagradas desta jovem nação. Na modernidade americana, todos os seus predecessores têm dignificado os seus ante­cessores. Barack Obama, agradeceu o serviço de George W. Bush; Bill Clinton saudou os 50 anos de serviço de George Bush e Ronald Reagan prestou uma longa homenagem ao homem que tinha acabado de derrotar, Jimmy Carter. Mais importante é que não houve uma palavra sobre os documentos, atos e ideias americanos. Nem uma única referência aos pais da nação que tanto têm servido como inspiração a todos os presidentes americanos. A palavra liberdade, um vocábulo im­portante, nem deu um ar da sua graça, nem tão pouco qualquer referência à constituição ou às eminentes palavras da declaração da independência: “todos somos criados iguais…” Todos os seus antecessores, particular­mente nos últimos 50 anos, apresentaram discursos convidando os americanos, independentemente da sua filiação partidária, para tomarem parte dos seus man­datos. Trump, infelizmente, fez um discurso direcionado para os 46% que votaram por ele, aos 60 milhões de cidadãos que lhe deram o voto, omitindo os outros 260 milhões de americanos. No passado, os presidentes tomam esta oportunidade para convidar os americanos a partilharem os ideais que os levaram à Casa Branca e a partilharem a sua abundância com os que têm menos. E todos os presidentes desde Thomas Jefferson até Barack Obama têm utilizado o momento para trans­cenderem o partidarismo político, apelando para olharmos mais ao que nos une do que ao que nos separa. Nada disto teve espaço no discurso do novo Presidente. 

Consistente com a retórica da sua campanha durante a qual os factos não eram factos, mas sim dados para serem manipulados consoante a situação, o discurso apresentou uma amalgama de incorreções. Segundo a alocução, o crime, a pobreza, a imigração e o desem­prego tinham aumentado, quando todos sabemos que têm diminuído. Ao contrário do que aludiu, a riqueza da classe média americana não foi “redistribuída pelo mundo fora”, foi sim aglomerada pelos plutocratas americanos, alguns dos quais ele escolheu para o seu governo. O seu novo decreto que: “a partir de hoje, será sempre a América primeiro, só a América primeiro”, não é assim tão novo e falhou quando foi apresentado e defendido na década de 1920. É que poucos republi­canos ou democratas, e muito menos economistas reputáveis, acreditam na retórica de que o protecionismo e o nativismo nos conduzirão a uma outra prosperidade económica.  

Ao longo de 17 minutos o novo presidente americano apresentou-nos a sua visão, um sonho americano ali­cerçado no isolamento e no egoísmo. Sem uma única intonação positiva ou referência aos homens que têm guiado este país desde o seu começo, Donald Trump, foi o mais sombrio de todos os intervenientes e não uti­lizou referências que são sagradas no mundo ameri­cano, desde a constituição, à declaração à independên­cia; desde a Bíblia a escritores, poetas, filósofos ou heróis americanos.  Charles Shumer, senador de Nova Iorque, o representante da oposição, por exemplo, leu passagens da poderosa carta do Major Sullivan Ballou para a Justiça da União durante a guerra civil e o pastor convidado por Donald Trump, o Reverendo Samuel Rodriguez, que escolheu uma leitura das Beatitudes, lembrou-nos, incluindo ao Presidente, que segundo as escrituras não são os seus “vencedores” ricos e poderosos, como ele, que têm preferência no Reino dos Céus, mas sim os po­bres, humildes e os carinhosos, aqueles que ele designa de “perdedores.”

Infelizmente para todos os cidadãos, e para o futuro da América, o Presidente Donald Trump não utilizou esta oportunidade única para apelar à união, à reconci­liação nacional, a uma trajetória que levasse a nação para um processo que pelo menos principiasse a curar as feridas da campanha nefasta e repugnante que ele dirigiu. É pena que tenha utilizado a mesma retórica irracional e xenófoba que o levou até à Casa Banca. Não foi um discurso digno da exuberância e da aureola que são intrínsecas da presidência americana.