É tempo de nos sentarmos à mesa: A participação política nas comunidades da Califórnia

 

 

Nada me chateia mais do que ouvir um político

dizer que não devemos criar alarme social.

A sociedade tem de estar alarmada,

que é a sua forma de estar viva.

José Saramago

 

As comunidades de origem portuguesa no estado da Califórnia têm uma longa história. Aqui estamos desde os meados do século dezanove. Os primeiros portugueses a pisarem solo californiano chegaram antes deste colossal estado pertencer aos Estados Unidos. Quem foi criado nos Açores, mesmo antes da globalização, do mundo da tecnologia, das aproximações com as redes sociais, sempre esteve ligado à Califórnia. As histórias de um parente me terras do Eldorado fizeram parte do nosso imaginário. As Califórnias perdidas de abundância, no célebre poema do poeta Pedro da Silveira, é indicativo da nossa ligação a este estado à beira do Pacífico plan­tado. E desde que cá chegámos, temos, indubi­tavel­mente, deixado as nossas pegadas, particularmente nos mundos da agricultura e das mais variadas industrias. E também temos estado, embora com alguma timidez, no mundo da política. Mundo que muda constante­mente e que a partir de 5 e 6 de junho do ano em curso iniciou uma nova fase nas comunidades de origem portu­guesa em terras californianas.

Com a criação da California Portuguese-American Coalition (CPAC) em Março de 2016, projeto apoiado e acarinhado pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), de quem a comunidade de origem portuguesa no estado da Califórnia tem recebido variadíssimos apoios para projetos inovadores e perti­nentes para a nossa comunidade, a CPAC, para além de continuamente fazer o inventário de quem está e onde está no serviço publico da califórnia, no que con­cerne ao mundo luso-americano, acaba de realizar na cidade de Sacramento uma cimeira dedicada à nossa comunidade. Durante dois dias realizaram-se vários contactos entre luso-americanos eleitos para cargos municipais, regionais e estaduais e destes com líderes da nossa comunidade desde San Diego no sul até ao Vale de Napa no norte.  Uma cimeira para que os luso-eleitos ficassem a conhecer a realidade das relações bilaterais entre Portugal e os Estados Unidos, no con­texto europeu; para dar conhecimento de quem comos e onde estamos no serviço publico; para estabelecer uma rede de comunicação constante entre os vários luso-eleitos e aqueles que pensam um dia entrar nesse mundo e dar ferramentas e concelhos pragmáticos sobre a orga­nização de uma campanha política: os desafios e as opor­tunidades.

Thomas Jefferson dizia: quando um homem (acres­cento, ou uma mulher) assume uma função pública, deve considerar-se propriedade do público. É esse espirito de serviço publico, infelizmente abandonado em muitas esferas nos dias de hoje, que temos que cultivar e que, felizmente, ainda está presente na maioria dos luso-eleitos presentes em Sacramento. Num segmento de testemu­nhos, liderado pela dinâmica luso-descendente Angela Costa-Simões, presidente da PALCUS (Portuguese-American Leadership Council of the United States), depoimentos dados pelos luso-eleitos para diversos cargos, notou-se que há, na maioria dos presentes, um elo de ligação que vai além do egoísmo pessoal e das agendas particulares. Cada luso-eleito mostrou-se interessado na nobre missão de servir a sociedade e cada um mostrou uma grande abertura e um descomunal desejo de conhecer as suas raízes culturais.  É que todos foram unanimes em defenderem a importância da sua herança cultural e si­multaneamente admitiram que querem ir além do super­ficial e querem conhecer, com outra efervescência as ilhas dos seus antepassados e a história do seu povo. Aproximar estes luso-descendentes eleitos para cargos públicos na Califórnia das suas raízes e das nossas comunidades, e de com elas levar-nos a outros patamares no mundo do servi­ço público é o mandato que a Coligação Luso-Americana da Califórnia (CPAC) terá que assumir já. 

Com a integração da nossa comunidade no mainstream californiano, que todos desejamos e para o qual temos tra­balhado, temos também que estar conscientes dos perigos de uma integração total, ou seja: há que preservar os elementos fulcrais que nos unem como descendentes de portugueses e açorianos. Esses elementos, baseados em princípios como a solidariedade (omnipresente nos Açores através do culto ao Espírito Santo), a justiça social, a li­berdade de expressão, o encontro e a partilha de culturas. É que tal como foi amplamente debatido, a nossa presença no mundo politico deste estado, só poderá ser assegurada com a construção de coligações com outros grupos étnicos e outras culturas, muitas das quais temos muito em co­mum, particularmente a cultura dos nossos primos, os lati­no-americanos. Baseados nesses princípios que são portugueses, mas acima de tudo são universais, podemos em comunhão com a miríade de culturas que compõem este mosaico humano californiano, construir um estado ainda melhor e, definitivamente, uma comunidade mais atenta e com outra visibilidade. 

A nova Califórnia Portuguese-American Coalition não é uma organização partidária. A bandeira politica da CPAC é a bandeira da portugalidade e da açorianidade. O estandarte da CPAC é composto por luso-descendentes, vindos das várias esferas políticas, que partilham a mesma herança cultural e querem que esse património seja um elo de ligação muito mais forte do que as cores políticas que nos separam. É saudável que sejamos de partidos e ideologias diferentes. As forças politicas e o pensamento político não são, não podem ser estáticos. Como outras comunidades a nossa também tem tido a sua evolução e os seus desafios. As pessoas têm direito às suas posições partidárias, baseadas em princípios vindos da família ou até mesmo em viragens tão supérfluas como, terem uma porta de garagem nova. Uma analogia perfeita, usada há anos atrás, por um grande amigo meu residente no sul da Califórnia. O que a CPAC pretende é encorajar e apoiar a presença de filhos, netos e bisnetos(as) de emi­grantes portugueses em terras da Califórnia a pene­trarem o mundo do poder político neste colossal estado que é a Califórnia, porque tal como é dito constante­mente no mundo do serviço público americano: na política se não temos um lugar à mesa, certamente que somos a ementa. Os nossos pontos de vista são dife­rentes, tal como o são em Portugal. A pluralidade política nas comunidades de origem portuguesa na Califórnia é uma mais valia, quererá dizer que estamos em todas as esferas e isso é extremamente essencial. Porém é bom que nos lembremos que se queremos um único elo que nos ligue, independentemente da nossa cor política, esse elo é a presença de luso-descendentes no serviço publico californiano e a presença da nossa língua e cultura nos estabelecimentos do ensino público deste estado.   

Daí que é tempo de pegarmos no orgulho que todos temos na nossa herança cultural e no património que constantemente construímos em terras da Califórnia, e mais do que fato domingueiro, ou estandarte que se remove do guarda-fato para se exibir em dia de bodo ou na romaria da freguesia, transfiguremos esse regozijo em ações quotidianas no mundo do serviço publico das nossas cidades, que muito pequenas que possam ser, se forem genuínas e constantes, farão a diferença entre uma cultura que sai da redoma de vez em quando para se autoelogiar e vangloriar, mas sem repercussões na vida deste estado, ou uma cultura que é vivida e que diaria­mente faz parte do mainstream californiano. Só com um lugar à mesa, partilhando os nossos valores e compreendendo os valores dos outros, é que podemos perpetuar a presença portuguesa em terras deste estado. Acredito que a Califórnia Portuguese-American Coali­tion será uma voz importante na construção dessa co­munidade ativa no mundo politico californiano e ame­ricano, que, ao fim e ao cabo, todos aspiramos e ne­ces­sitamos.

 

Parafraseando a epígrafe: há que haver um alar­me comunitário para mostramos que estamos vivos e ativos.