Entremos em 2018 com a Juventude Luso-Americana Temos de nos tornar na mudança que queremos ver.

 

Mahatma Gandhi

 

Há anos que andámos a falar sobre a juventude nas nossas comunidades de origem portuguesa em terras da Califórnia. Há anos que as instituições comunitárias, alguns dos nossos activistas culturais, alguns padres em paróquias com comunidades portuguesas, educadores, nas escolas comunitárias e nas escolas do ensino oficial americano, jornalistas e produtores de programas de rádio e de televisão em língua portuguesa, académicos e até mesmo alguns dos diplomatas que têm represenatado Portugal neste colossal estado, têm dissertado, sobre a nossa juventude, a passagem do legado cultural aos mais novos, e o papel dos jovens adultos nas nossas, cada vez mais envelhecidas comunidades de origem portuguesa, em terras do ElDorado. Mas apesar de já muito se ter dito, de algumas reflexões pertinentes que se têm feito, o debate deve continuar, a reflexão não pode terminar, até porque não existem soluções mágicas e a comunidade necessita, urgentemente, que se criem ainda mais espaços de reflexão sobre a juventude de hoje e a comunidade de amanhã. Parafraseando Ghandi: o futuro dependerá daquilo que fazemos hoje.

A comunidade de origem portuguesa no estado da Califórnia está cada vez mais americana. Esse é um facto que só os menos atentos debatem. Olhando às várias zonas onde existe gente oriunda de Portugal, ou os seus descendentes, nota-se, com a passagem de cada novo dia, uma mudança, natural, na nossa comunidade, e particularmente, na nossa juventude. Há cerca de três décadas e meia, no começo de 1980, quando a emigração dos Açores praticamente estancou para terras outrora descobertas por Cabrilho, contava-se pelos dedos de uma mão o número de jovens adultos emigrantes ou filhos de emigrantes com cursos universitários. Tínhamos alguns professores, alguns licenciados em engenharia e pouquíssimos nos campos da medicina e do direito. Eram extremamente deficitários os números de alunos que ao terminarem os estudos secundários optavam pelo ensino superior ou mesmo por um curso técnico além da secundária. Mais, nesse nada longínquo tempo, tínhamos um pouco, pela nossa comunidade, e com ênfase nas zonas rurais, um alto índice de abandono escolar. Uma percentagem ainda muitoalta dos nossos jovens, particularmente os rapazes, não terminava o ensino secundário. Infelizmente não se tinha ainda descoberto o que o filósofo grego da antiguidade Aristóteles disse algures: educação tem raízes amargas mas os seus frutos são doces.

Hoje, essa realidade mudou. Temos um pouco por todo o estado homens e mulheres, nas faixas etárias dos altos 20, 30 e baixos 40, com os mais variados cursos universitários. Há gente de origem lusa nos mais variados campos, desde o ensino à política, do direito à medicina, das ciências agrárias às letras. E nas comunidades rurais, é praticamente inexistente o abandono escolar. As famílias luso-descendentes começaram, já há alguns anos, a prezar o saber, a incentivar os filhos para o ensino superior. Já há quem não se preocupe somente com o curso superior, mas até com a universidade onde o filho ou a filha vai estudar. A nossa comunidade está repletas, e estará ainda mais daqui a meia dúzia de anos, de jovens adultos formados nas mais prestigiosas universidades da Califórnia, com cursos variados e, esperemos, com outros patamares culturais. Porque nem só de um diploma vive o homem.

São esses membros da nossa comunidade que temos que cultivar, porque a nossa sobrevivência além do amanhã de manhã, dependerá deles. E serão eles que manterão, de uma forma diferente, entenda-se, este nosso legado cultural. Não tenho dúvidas que teremos a curto espaço de tempo uma comunidade dissemelhante, como não tenho dúvidas que se conseguirmos enfrentar esta realidade, reflecti-la e trabalhá-la, teremos garantida a preservação da cultura portuguesa neste estado plantado à beira do Pacífico. Citando Ortega y Gasset: Daqui que as mudanças históricas supõem o nascimento de um tipo de homem diferente em mais ou menos do que antes havia; isto é, supõem a mudança de gerações. Esse homem, e essa mulher, estão a nascer, diariamente, na nossa comunidade. Todos os anos muitos jovens aparecem, vivendo, mas infelizmente à margem da nossa comunidade. São homens e mulheres com formação académica e conscientes do seu legado cultural. E estas novas gerações mudarão a nossa comunidade. Daí que há que entende-los e respeitar as suas formas de fazer comunidade, de sentir o seu legado cultural. Sentem-no, mas manifestam-no de uma forma dissimilar do que muita gente na nossa comunidade está habituada. Como nos disse John F. Kennedy: a mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente irão com certeza perder o futuro.

Porque todo este processo é novo e há ainda muito por descobrir, dir-se-á sem qualquer desassossego que os jovens profissionais vão mudar as nossas comunidades e daí que há que dar-lhes espaço. Se a comunidade de hoje não quiser compreender a comunidade de amanhã vamos perder uma oportunidade única de darmos o passo essencial para o futuro. Os jovens profissionais das nossas comunidades não têm (e os que se formarão nos próximos anos muito menos) paciência para a nossa saudadesinha doentia e constrangedora. Aqueles que se formam em boas universidades, e felizmente que são cada vez mais, não têm tempo, nem estômago, para aceitar a nossa letargia em relação a entrarmos, definitivamente, na sociedade norte-americana, para estarmos de corpo e alma no multiculturalismo californiano. Os jovens com talentos, e uma formação académica sólida, não têm tempo, nem pachorra, para sustentarem as pequenas coisas que ainda persistimos em fazer. Os que o fazem e sentem-se satisfeitos por isso, são poucos e infelizmente fazem o mau serviço à comunidade moderna e inegrante que todos nós aspiramos. E infelizmente veem o seu legado cultural por uma lente muito limitada: a lente do pequeno grupo ao qual pertencem e julgam-no como uma elite. A cultura é vivida unicamente com olhos da cultura popular muito aconchegada ao copo e ao estereótipo.

O mundo dos jovens formados académicamente, além do título, com leituras e experiências académicas fortificantes, será o mundo da nova comunidade. Acredito que estará alicerçado, na promoção do nosso legado cultural dentro do mundo americano e não num gueto social ou físico. Como referi, são homens e mulheres formados no mundo americano, os seus estudos foram feitos dentro das universidades americanas e não à margem delas, daí que só entendem a nossa comunidade numa plataforma de igualdade com os outros grupos étnicos que constituem o multiculturalismo deste único estado, o estado da vanguarda americana. Porque como escreveu Elliot Gould: ninguém pode ser escravo de sua identidade-quando surge uma possibilidade de mudança é preciso mudar.

Daí que em boa hora a Luso-America Education Foundation promove, no seu congresso anual sobre educação e cultura, um encontro único, um debate, sério e honesto sobre a comundiade com o intuito de elaborar um plano estratégico para a nossa comunidade, que só fará sentido se for a olhar na comunidade que somos e na comunidades que seremos. Numa comunidade cujo legado cultural só poderá ser passado às novas gerações se estiver dentro do mainstream, e em pé de igualdade com as outras culturas.

Vejo, num futuro não muito longínquo, uma comunidade de origem portuguesa na Califórnia basntante dissemelhante da que hoje temos. Vejo uma comunidade de homens e mulheres formados, ligados à sua cultura por gosto e não por necessidade. Uma comunidade com estes novos profissionais que, na língua em que se sentem mais à vontade, o inglês, irão finalmente construir a ponte entre o legado cultural dos seus antecessores, pais ou avós, e o mundo californiano.

Podem dizer que isto é utopia, mas como escreveu algures Édouard Herriot: uma utopia é uma realidade em potência.