LusoÓamericano?

 

Costumo fazer contas à vida em cada junho que passa. A meio do ano, dá-me jeito e faz sentido. Sinto cada vez mais que tempo é dinheiro (time is money). Foge-me quase sem eu dar por isso. Tenho saudades do tempo em que o tempo não me fugia. Parecia parado, à espera que o empurasse. Puto nado e criado no sossego rural da rotina ilhoa de há muito, não era capaz de semelhante coisa. Claro que, como o resto da miudagem, também tinha uma vontade medonha de crescer para ser grande. Mas nunca tive pressa.

E ainda hoje não tenho. Cheguei depressa demais aos sessenta e um. Foi um tal somar anos à toa. Para quê? Agora apetecia-me diminuí-los e não posso. Dava todo o dinheiro que tenho para voltar aos seis. Sei que não é possível mas agrada-me recordar essa tenra idade que me viu entrar na escola primária para aprender a ler, escrever e contar. Foi igualmente a idade do meu pri­meiro emprego lá nas viçosas vinhas dos Biscoitos – carregar com malhetas de tinchão e levá-lo aos homens que dobravam as costas a levantar as parreiras do chão para que as uvas amadurecessem mais saudáveis. Tra­balho infantil remunerado com um magro escudo por dia. Há dias, no fundo duma empoeirada gaveta do sótão, fui dar com umas quantas dessas velhas moedas agora apenas com o valor sentimental de nos lembrarem quanto se estrabuchava para bem de as sentir tinir no bolso.

Delas todas, adorava a baratinha – dois escudos e meio. Em dia de toiros, ou de bodo, dava-me direito a um delicioso chupa-chupa americano. Tal coisa para me cair bem no gosto daquela era já distante. Lambia-me todo. E acabava sempre com o miolo melado na pergunta – seria a América assim tão gostosa…? Na Terceira, tínha­mos parte da resposta – a Base, que abria anualmente as suas portas ao povo da Ilha a cada 4 de Julho, o dia da Entrada Geral. Quando cresci o suficiente para lá entrar, fiquei radiante no dia em que uma baratinha quase me deu para um ‘ratedógue’ e uma cocacola. Foi namoro à primeira vista. No ano seguinte, duas baratinhas ajuda­ram-me a pagar uma hamburguer regada com uma uma Budweiser e – pronto! – a América caíu-me no goto.

O desafio de saltar para o lado de cá do Atlântico tinha os seus prós e contras. P’ró que eu então buscava na vida – com a crítica idade dos vinte a desafiar-me: “aventura-te!” – aventurei-me. A velha mãe pátria, nervosa à espera de abril florir, aconselhou-me a partir. “Vai, filho! E que tenhas boa sorte.” E lá vim em cata dela. Um vôo transatlântico de poucas horas pôs-me cara a cara com o simpático Tio Sam a fitar-me olhos nos olhos: “Queres naturalizar-te já?” A resposta requeria calma e ponderação. O coração batia-me ainda verde e vermelho nas quinas feridas da alma semiaberta à dupla nacionalidade. Não lhe via como não lhe vejo quaisquer contras. Obriga-me agora apenas a refazer as contas – 22 anos e pique lá contra quase 39 aqui – serei afinal mais lusÓamericano…? Qual das duas percentagens se sobrepõe na minha equação pessoal?

As raízes não tem preço, sabemos bem. São insu­bstituíveis. Seremos sempre donde viemos. Claro que adoro de onde vim mas também nunca me arrependi de ter vindo. A América da Califórnia ensinou-me sobre­tudo a olhar em frente, momento a momento. Moldado naquele velhinho Portugal dono dum ríquissimo passado, apraz-me valorizar o presente de mão dada ao futuro. Não podendo voltar aos seis, resta-me realistica­mente focar-me na riqueza dos sessenta e seis. É uma conta redonda que me alimenta a expetativa no que de bom ainda me resta. Rondava meu pai mais ou menos essa idade quando, depois de dúzia e meia de anos labutando nos States, decidiu regressar à Ilha para gozar a sua Reforma e abraçar o seu Portugal. Teve a sorte de levar consigo, nessa desejada ‘viagem ao contrário’, um dos filhos e metade dos netos. “Os que cá ficarem, quando quiserem, vão-me lá visitar…”, gostava de dizer, e adicionar: “…a América esfolou-me a pele mas não me há de roer os ossos.” 

Não me vejo a fazer essas contas. Adoro as minhas origens, sobretudo a nossa mimosa língua e o nosso imortal Camões, meu ídolo de sempre. Jamais deixarei de amar a terra que me viu nascer. Cada 10 de junho que passa faz-me vibrar intensamente de renovado orgu­lho pátrio. Esta pátria mãe dos meus filhos, no entanto, entrou-me igualmente na alma com o rolar do tempo. É um dilema que abraço dia a dia na ternura infinda do meu netinho de nove meses ao colo. Trocamos muitos mimos com sons que já imitam palavras em inglês, espa­nhol e português – as suas origens. Há que respeitá-las todas.

Claro que vibro agora inda mais com cada 4 de julho à minha frente. Contas feitas, motivos não me faltam à volta do churrasco em brasa no quintal. Asso o patrio­tismo luso no orgulho americano e o sabor sai-me impecável. Uma hamburguer com gosto a bifana e duas dentadas num ‘ratedógue’ pedem-me três cerve­jinhas bem geladinhas. Três Sagres, claro está. Já não bebo Budweiser. É uma ‘bia’ baratinha.