Tranca de barriga

 

“Como vai a coisa por aí, meu caro Chico?” A per­gunta viajou, via email, daqui para a costa leste, onde o meu amigo mora há largos anos. Tal como eu, já leva muitos mais de vida nos States do que os curtidos em Portugal. Adaptámo-nos como calhou mas as saudades dos nossos típicos paladares doutros tempos, para quem emigra, não mingam. Levedam. São mesmo o pão nosso de cada dia, como confirma a resposta bem disposta que ele me teclou da outra costa. “Vamos andando p’rà­qui, Luciano, a pão de milho.” A expressão lavrou-me logo um largo sorriso no rosto. 

Nada hoje me aguça mais a saudade, à mesa, do que aquele saboroso pão de milho a sair do forno quentinho às sextas-feiras. Minha mãe cozinhava-o como ninguém. Cheirava que consolava e o nosso agudo apetite não lhe resis­tia. Comíamos côdea e tudo. Fosse com queijo, lapas, leite ou apenas migado numa boa sopinha caseira, caía-nos no goto às mil maravilhas. Deliciava e saciava qualquer estômago esfomeado, independemente da idade. Meu avô, por nada o trocava. Chamava-lhe a tran­ca da barriga. Achava-lhe um gosto divinal.

Mas não caia do céu o milho daquele pão. Até chegar à carroca do moleiro moído em farinha, servia-se da terra para germinar salutar ao serviço da fominha à solta pela ilha. Dava trabalho aos homens antes de atarefar as mulheres e desafiar os ratos. Matreiros, pela calada, espreitavam a sua chance e não enjeitavam o seu quinhão, mesmo que traiçoeiramente preso às ratoeiras. As gentes do campo não lhes perdoavam a ousadia. Um grão de milho, naquele tempo, era fortuna preciosa em qualquer casa de família. Com zelo e carinho, as mãos agricultoras lançavam-no ao solo à espera que a primavera o acariciasse. Depois, o verão nutria-o em lindas maçarocas que se mul­tiplicavam abundantes aos olhos do outono encantado com aqueles soberbos serrados de milho a modes de ser apanhado.

A apanha era uma festa. Começava de manhãzinha e pedia braços resolutos com vontade de ajudar a despachar serviço. Era o que faziam os vizinhos e amigos nesses dias de aperto. Ajudavam-se uns aos outros, trocando apenas suor com suor e alguma coisinha para se comer, já que o dinheiro era pouco. Por isso, dava gosto ver aquele espírito solidário compensado à hora do almoço com umas den­tadas de pão de milho acompanhando chicharrinhos fritos a pedirem vinho de cheiro e umas cantigas de improviso. Alegria não faltava à gente do meu lugar enquanto en­chiam as sebes dos carros de bois que, à tardinha, a ca­minho de casa, guinchavam a bom guinchar.

Tenho saudades desses estridentes sons de outrora. E os sons genuínos dos familiares e da vizinhança reunidos pela noite dentro à volta do milho amontoado no chão da adega para uma desfolhada das antigas? Era um serão de encher as medidas. À luz do velho Petromax e com um mata-bicho à mão, as mãos presentes atiravam-se às maçarocas (chamavamos-lhes socas, nos Biscoitos) e desfolhavam-nas consoante a necessidade pedia. As ne­cessidades imediatas requeriam as socas de milho já sem folha e, por isso, davam mais trabalho. As outras davam menos porque, para resistirem mais tempo ao ar livre do duro inverno ilhéu, queriam-se agasalhadas de folha bas­tante. Três ou quatro folhinhas bastavam para as atarem em cambadas dependuradas com arte e elegância nas vistosas burras de milho que enfeitavam os quintais rurais.

As memórias permanecem-me ricas, sobretudo nesta altura do ano. Chegava-se o Pão-por-Deus e lá ia eu com a minha saquinha de retalhos, alinhavados pelas mãos de minha mãe, para trazer os brindes com que as donas de casa prendavam a petizada daquele tempo. Tinham pouco a ver com os finos chocolatinhos, ‘can­dinhos’ ou bombons a que habituámos os nossos filhotes por cá. Muitas casas ofereciam apenas do que tinham no quintal. Uma soquinha de milho novo, para se comer cosido com sal ou assado na brasa, era uma prenda jeitosa mas pesada. Eu é que sei, então puto tenro, o que me in­quietava depois para trazer a saca às costas carrega­dinha com socas, castanhas, batatas doces e até uma abóbora-menina me deram uma vez. “Ó tia, isso é muito peso p’ra mim.”... “Leva p’ra casa, pequeno da minh’al­ma, que tua mãe vai metê-la ao lume e tu vais-te consolar a comer. Abóbora cosida é um regalo p’rá barriga.”

Para nós, fedelhos do campo, era sempre agradável constatar a generosa amabilidade de quem dava do me­lhor que tinha. A mais não era obrigado. E a gente agradecia, de mil amores, todos felizes da vida. Já quem decidia trancar a porta e fechar as janelas, privando os mais miúdos daquele mimo único de um dia por ano, sujeitava-se a ouvir a voz cristalina duma criancinha desagradada a entoar o seu desprazer:

Soca Vermelha / Soca Rajada / Tranca no cu / A quem não dá nada.

De facto, tanto as rubras como as rajadas eram socas raras mas ainda espigavam em número suficiente de nos inspirarem aquele poético consolo – podermos trancar o rabo a quem não tinha vergonha de negar à miudagem o prazer do Pão-por-Deus. Trancá-lo-ia agora da mesma maneira se, por umas magras horas, pudesse regressar meio século à minha mimosa meninice, descalço e de sa­cola na mão, mas sabendo o que sei hoje. Quem me dera, meu caro Chico.

Quem me dera.