Adeus guitarrista

 

Maio bate-me normalmente à porta na altura certa. Sabe que aguardo ansioso pelo seu quentinho sol na minha alma e não hesita brindar-me com lindos dias primaveris. Fazem-me um bem danado aos ossos cada vez mais moídos e alérgicos ao frio dos invernos impie­dosos. Este foi particularmente penoso para mim. A tempestade emocional que ninguém verdadeiramente gosta de sentir na pele abalou-me o coração ao roubar-me meu pai. Gelei por dentro e por fora ainda não conse­gui sorrir como gosto ao abraçar a primavera, entre nós há já mais de um mês. Custa muito curtir a morte de quem nos germinou a vida, sobretudo sentida à distância a privar-nos dum derradeiro adeus. Começava a refazer-me dessa mágoa imensa quando este maio decidiu bater-me à porta no momento errado.

Foi na sua segunda madrugada. O sol amanheceu quen­te em céu azul mas a notícia congelou-me o ânimo ferido em dia subitamente cinzento. Veio com sabor amar­go a lágrimas carregadas de mais luto. Perdi o meu melhor amigo da geração dos meus pais. Por outras palavras, diria mesmo tratar-se da pessoa que escolheria de boa vontade para meu segundo pai, tal era a afeição e o respeito que nos unia há cerca de quarenta anos.

Aterrei em San Francisco ao findar-se a década de se­tenta. Trazia comigo na bagagem aquele irriquieto bichinho cultural da juventude. Habituado a fazer teatro na Ilha, queria ensaiá-lo também aqui e o Clube Re­creativo da Família Portuguesa de San Leandro, no coração desta populosa Área da Baía, acolheu-nos de pronto a iniciativa. Como um dos fundadores e sempre envolvido, Leonel Medeiros era então o promotor da cultura lusa naquela jovem agremiaçao tão dinâmica na vida social desta comunidade luso-californiana. Os seus serões, bailes, convívios e sobretudo as suas mui apreciadas noites de fado faziam cartaz e enchiam a sede de orgulho luso por estas paragens. Pais e filhos, as duas gerações de lá e cá, comungavam do mesmo festivo ambiente. Foi fácil, por conseguinte, encenar um garrido espetáculo que viria a correr a Califórnia de norte a sul. Fácil porque a sublime intuição artística do sr. Leonel, exímio mestre na arte de bem dedilhar a guitarra portu­guesa em maviosa harmonia com as violas dos irmãos e a voz da irmã, enchia qualquer sala de brio e aplausos à riqueza cultural que nos irmana.

Nada, cá na estranja, como o inconfundível som desse instrumento único para nos fazer vibrar de encanto pa­triótico nas nossas raízes. Leonel Medeiros herdou do pai o toque mágico da sua veia artística. Mestre Egídio Me­deiros, marceneiro de eleição, urdia primorosamente os clássicos instrumentos de corda e dominava-os depois como ninguém. Leonel falava sempre elogiosamente do seu dotado progenitor e das suas prendadas mãos de artista com vívido brilho nos olhos. Egídio Medeiros partiu cedo demais para o Além, pouco antes da família inteira embar­car para os States na sequência da histórica erupção dos Capelinhos. Faleceu, vítima de severo aneurismo, doença drasticamente herdada pelos filhos que, um a um, já lá vão.

Leonel era o último. Partiu lúcido praticamente até ao suspiro final, se bem que vergado à dor insuportável de já não poder aguentar mais a reles tortura do seu dilema médico. “Se não for operado, corre o risco eminente da veia lhe rebentar a qualquer instante, sem mais nem me­nos.” Estas palavras tensas do cirurgião especialista na matéria levaram-no, em tempos recentes, a passar críticas horas na mesa das operações com uma enorme vontade de viver. Lutou até ao seu doloroso fim por uma vida alegre e que fez tanta gente feliz. Sei-o, de fonte limpa, que esse era o seu maior consolo por cá. Daí a grande falta que faz à sua numerosa família a chorá-lo e à sua chocada legião de amigos, de perto e de longe, tristes por o verem partir saudosos dos belíssimos momentos que a todos nos proporcionou.

Uncle Leo, para alguns; Ti Leonel para outros; Mr. ou Sr. Medeiros, para tantas pessoas que marcou agradavel­mente ao longo dos seus oitenta e um anos entre nós, quer nos primeiros dezassete do Faial onde nasceu, dos seguinte seis na Terceira onde casou ou dos restantes cinquenta e oito cá na Califórnia (terra amada dos seus filhos e netos) oferecendo-lhe agora repouso eterno, o nosso amigo Leonel foi muito mais do que um artista primoroso no trato afável do seu fino instrumento. Porque era uma pessoa formidável, um conviva excecio­nal. Amável por natureza, senhor dum sorriso contagian­te, tanto a tocar como a conversar logrou conquistar ami­gos com a maior naturalidade. Não conhecia ini­migos.

Se tivesse que resumi-lo em poucas palavras, simpá­ticas sem dúvida, diria que foi um homem que me encheu largamente as medidas. Humilde na sua maneira de ser e agir, discreto e inteligente no modo como esco­lheu viver, soube abraçar sempre primeiro quem lhe era querido como abraçava diariamente a sua querida guitarra rica em acordes que jamais deixarão de soar deliciosos no íntimo de quem o admirará para sempre.

Leonel Medeiros, guitarrista consumado que poderia ter muito bem seguido o ego tentador da fama e sucesso numa lustrosa carreira profissional, optou simplesmente por investir toda a sua positiva energia na felicidade da família e no apego aos amigos do peito absolutamente rendidos ao magnífico ser humano que foi.

Meu querido amigo, de momento, melhor homena­gem não te sei prestar. Claro que poderia ampliar a cró­ni­ca com outros detalhes e mais elogios mas sei que não eras sujeito de vaidades escusadas. Prefiro, por conseguinte, desabafar apenas que lamento não ter tirado mais tempo para disfrutar a tua boa disposição nas nossas agradáveis conversas. Vão-me deixar muitas saudades. Essa é a verdade nua e crua. Vais-me fazer imensa falta. E mais não adianto.

Descansa em paz. Até um dia destes.