Remédio antigo

 

 

Homem feito de defeitos com fartura e uma ou outra qualidade à mistura, acomodei-me há coisa de ano e pique na acolhedora casa dos sessenta. Até agora, confesso-me agradado e sem grande razão de queixa. O seu conforto é formidável porque me brinda com razoável saúde e aprazível paz de espírito, tão cruciais nesta crítica fase da vida. É curta, bem sabemos, e creio todos termos amigos ou familiares partidos cedo demais desta para melhor, motivo para nos fazer ponderar a sério o que mais importa enquanto por cá. Já que, por lá, desconhecemos o que se passa.

Passei ontem um lindo serão como há muito não passava. Meu irmão, que deixou a Ilha por um mês para nos vir visitar, adora cozinhar e consola-se também em comer daquilo que comíamos noutros tempos temperado pelas dotadas mãos da nossa saudosa mãe. Deus a tenha em bom lugar, prezava-se em alimentar-nos sempre bem. Um dos pratos fortes de outrora no meio rural, sobretudo com a chegada do frio a castigar-nos os ossos, era uma boa açorda quentinha com alho, ovos, hortelã e um chicharro assado na brasa a pedir uma boa pinga para nos regalarmos todos. O nosso serão começou ontem com essa saudosa ementa ao jantar. Depois, a sobremesa constava de conversa e convívio que nos deliciaram, saborosíssimos, até às tantas. Foi um tal matar saudades. O meu problema, e talvez defeito, é não saber matá-las a sério.

Já fui acusado por gente séria de levar a vida a rir e a brincar. Disseram-me que abuso da brincadeira e eu defendo-me sempre que não. Para mim, trata-se apenas da fórmula ideal para poder prolongar por cá os meus dias preenchidos com boa disposição. Sem ela, sinto-me mal. Quando digo gozar duma saúde apreciável na casa dos sessenta, não é para me gabar porque podia muito bem queixar-me do enferrujado ombro direito que não me deixa dormir a jeito e o médico diz-me precisar ser operado; ou do dorido joelho esquerdo com chatos bicos de papagaio que me nicam diariamente o menisco e o especialista também já me aconselhou a limpar; ou até mesmo do disco avariado no extremo baixo da espinha dorsal que, volta e meia, me trinca o nervo ciático com dores feias e ameaços fortes de me querer estragar a boa disposição sem apelo nem agravo. Ai de mim se não fosse o meu espírito brincalhão.

A gente não é que se faz. Excelente conviva a quem não faltam amigos, o meu mano visitante tem outro feitio. De febra mais nervosa no seu porte pessoal, é pessoa mais séria na sua conduta social. Sendo a seriedade, neste caso, uma virtude indispensável ao comportamento solidário de quem se aventura a dar um pouco de si aos outros. Improvisada ao acaso da sapiência popular, poderia talvez rimar-se nestes toscos termos: Quem arrisca servir o povo/Se não for sério com’é dado/Enquanto esfrega um olho/Sem saber, está lixado. …Aonde quero eu chegar?

Carlinhos Cardoso chegou à nossa pitoresca freguesia com a mulher e quatro filhinhos há vinte e quatro anos atrás, depois de quinze a moirejar cá nos States. Porque sempre adorou o seu berço e por achar-se com o perfil adequado, passado algum tempo de reajuste a outros contornos e abordagem a novos contatos, candidatou-se a Presidente da Junta local. Sem espinhas, como é costume dizer-se, conseguiu o apoio dos votos necessários para desempenhar dignamente o cargo durante dois mandatos resumidos em oito anos consecutivos. Na altura, pareceu-lhe uma fase feliz dum emigrante chegar, ver e vencer na sua terra.

Nesta vida, como sabemos, vêem-se caras mas não se vêem corações – isto em polidos termos poéticos. Porque, se acaso o provérbio entra na porca arena política, sobretudo naquela área específica da politiquice mesquinha, vêem-se coisas que nos metem nojo e topam-se pessoas que nos causam vómitos. São os excessivos sorrisos cínicos, as múltiplas palmadinhas nas costas, montes de palavras fingidas, tantos abraços traiçoeiros, punhaladas à falsa fé e essas hipócritas criaturas (sem vergonha na cara nem dó no coração)… sempre capazes do pior.

Meu irmão serviu a Junta e a freguesia com todo o amor que lhe tinha. Como pago, para tratar de o pôr no olho da rua, a suja oposição lá maquinou maneira de manchar a sua reputação de homem sério, envolvendo-o de forma vil e caluniosa em venenosas suspeitas de desaparecidos dinheiros públicos. O porco processo arrastou-se pelo lodo e a coisa tornou-se feia. Felizmente, a Judiciária soube ir à raíz funda da torpe trapaça e, a seu tempo, os pontos foram corretamente repostos nos is donde haviam sido roubados. A artimanha explodiu em cheio no focinho de quem a havia urdido com tóxica malícia. Voltou-se o feitiço contra os feiticeiros ou feiticeiras que, de acusadores e acusadoras, se tornaram acusados e acusadas. Resultado final (que pouco me interessa aqui), perderam localmente as eleições seguintes e arredaram-se humilhados com o rabo entre as pernas, sem qualquer pedido da devida desculpa. O que até se compreende ‘de gente sem prestar... (como diria meu avô) …outra coisa não é de esperar’.

Claro que, nestes casos lamentáveis, há sempre danos irreversíveis. Este, naturalmente, tem muito mais que se lhe diga para completar a sua história cuja moral nos vem apenas realçar como, nesta vida e ao nosso redor, há sempre gentinha reles sem moral alguma a dar-nos esquisitas voltas ao estômago. Fazem-nos facilmente vomitar. Nesse caso, e já é remédio antigo, nada melhor do que uma boa açorda a ferver com alho bastante a pedir um chicharrinho seco e o vinho que bem nos apetecer. Meu avô, para arrefecer a fervura e não escaldar a goela, derramava o copo no prato e deliciava-se com (no seu castiço dizer) aquelas suas saborosas sopas de cavalo cansado. Era também conhecido por ser um sujeito sério.

 

Não saí a ele.