Cara D’Anjinho

 

Foi há 61 anos no seu dia 22. Fevereiro fez o favor especial de me dar as boas vindas. Bem na gema do inverno, sem me conhecer de parte alguma, acolheu-me e agasalhou-me. Só lhe tenho a agradecer. A ilha tremia de frio quando abandonei o quentinho conforto dos meus primeiros nove meses no doce ventre da saudosa mulher que me gerou. Gemeu lágrimas de alegria à minha chegada e abraçou-me encantada por me ouvir berrar até me apetecer. Depois sorriu ao ver-me adormecer levemente com um sorrisozinho nos lábios.

Contava-me minha mãe que sempre fui um bebé sorridente. Talvez seja mesmo genético este meu velho hábito de arreganhar o dente amiúde. Quem me conhece de gingeira sabe que não troco uma boa gargalhada por nada. Fazem-me bem e eu solto-as de forma espontânea, tanto para proveito próprio como em benefício alheio. Adoro gente bem disposta.

Há quem diga que no gracejar a gosto reside o segredo simples duma vida feliz. Não discordo. Tenho-me por um tipo brincalhão. E mesmo quando abuso da brincadeira é sempre para semear mais sorrisos, prioridade que muito prezo desde que me conheço Cardoso. Já meu pai era assim. E o meu tenro neto, pelo que noto das muitas horas que agora passamos juntos, parece querer seguir as mesmas pisadas. O seu riso miudinho cativa tudo e todos à sua volta.

A quem sairá este mimoso menino assim sempre a rir, todo contente da vida? A pergunta palpita de quando em vez e as respostas repartem-se por razões cheias de afeto familiar. Todas me merecem o máximo respeito mas não me tiram da minha: o nosso torrãozinho d’açúcar sai todo ao seu avô. E não o digo por dizer. Nasci num mês de Carnaval. Na minha Ilha Lilás, a mais popular fonte de boa disposição é reco­nhecidamente carnavalesca. Fevereiro adora acolher o Entrudo terceirense a vibrar de entusiasmo contagiante com ensaios, instrumentos, cantigas, enredos e piadas salpicadas de alegria genuína a encher as noites longas de felicidade acrescida pela madrugada fora. Sorrisos sadios, por conseguinte, não faltam nos rostos divertidos das gentes provenientes dessa festeira terra que me viu nascer.

Há quem dispute o adjetivo sadio neste contexto e argumente tolamente que tanto desse salutar gargalhar no popular carnaval da Terceira também advém de muita asneira, baboseira e… bebedeira quanta queira. É um reles parecer que só me espicaça a vontade de rir. Claro que este nosso riso adulto, de matreiro e atrevidote, terá sempre muito mais que se lhe diga. Uma coisa, no entanto, jamais me cansarei de dizer ao meu neto: “Nunca te canses de rir.” Para mim, será sempre remédio santo.

Há dias, em conversa animada com pessoa amiga sobre a magia do sorriso e do seu benéfico efeito em momentos chave do nosso são viver, às tantas, a nostalgia intrometeu-se a pedir-nos um ar da sua graça. “Recordas algum mais marcante que te tenha carimbado a vida a valer?” … “Nenhum em particular me ocorre de momento. Mas, lembro-me muito bem do modo tímido como sorria na minha meninice.”

Puto acanhado e de poucas palavras, sinto agora alguma pena de não ter tido mais vezes respostas prontas na ponta da língua. Talvez porque hoje falo pelos cotovelos, dá-me saudades desses meus bons velhos tempos de menino e moço quando deixava que fossem os meus sorrisos inocentes a falarem por mim. Escapuliam-me cândidos e com toda a naturalidade ante gente danada por nem uma palavrinha lhes dar.

Tempo lindo, sem dúvida, esse em que me tinha por miúdo bonzinho, sonsinho, sem pecados – imagine-se. Só eu sei o que me inquietei no dia em que ajoelhei aos pés do castiço padre Câmara, então popular pároco das Quatro Ribeiras,  para a minha primeira confissão. Com o seu corisco sotaque “mal amanhado”, o simpático sacerdote lá foi enumerando a sua longa lista dos veniais (Não disseste palavras feias? Não pensaste em coisas ruíns? Não roubaste nada que preste? Não bateste em mais ninguém? Não brincaste co’a bichinha na areia? Não falaste mal de mim, pois não…? Ria-se...) e eu todo sério, de bico calado, ia acenando com a cabeça que não. Pecadilhos daqueles, claro que ainda não os cometia. “Nem sequer um para amostra?” Insistiu ele divertido ao ver-me encolher os ombros e torcer os olhos disfarçando um maroto sorriso próprio de quem mal sabia mentir. Jamais esquecerei o jeito engraçado com que logo me agraciou: “Saíste-me cá um cara d’anjinho.”

Tinha-a. E tenho saudades dela. Como terei sempre dificuldade em perceber porque é que o rolar do tempo aliado à experiência da vida tem de nos por mal encarados.