Um testemunho

 

 

• José Francisco Costa

 

Caríssimo Professor,

Estimado companheiro,

Maior Amigo,

 

 

Assim gostaria de referir-me a quem, de há muitos anos a esta parte, passou a ser a pessoa que respeito, estimo e a quem agradeço a amizade. E a minha primeira palavra de referência que a si destino é Professor Francisco Cota Fagundes.

Por seu intermédio foram-me abertas as portas da universidade onde lecciona. Foi com a sua perspicácia de verdadeiro intelectual que me ajudou a prosseguir num caminho que, dadas as minhas circunstâncias pessoais, não se afigurava fácil de trilhar. Como todo o professor que faz da profissão um múnus de seriedade, soube descortinar as capacidades inquisitivas deste aluno, já adulto, e orientá-lo na persecução do aprendendo a saber. Sobre a sua postura de profissional consciente, permanece em mim, bem como em muitos que o conheceram nas lides da academia, a imagem sólida e nítida de um professor que sabe ouvir os alunos. Para usar a linguagem tão querida a Jorge de Sena, o seu entusiamo contaminou-me a vontade de ir para além do que eu já sabia. E, assim, enveredei na perseguição dos loca onde os signos se escondem, para depois se revelarem à inteligência que os procura. Diria que ultrapassou a promessa que, como o descreve na sua memória autobiográfica,  Hard  Knocks – An Azorian –American Odyssey, o Francisco Fagundes fez ao Mr. Miller, conselheiro escolar que, baseado nos seus SATs de admissão ao Los Angeles Valley College, desconfiou do seu sucesso no futuro. A sua resposta foi:

The exam is what I know today, Mr. Miller, which may not be very much. But you said that I could come to this school, did you not? And that all I needed to do was demonstrate that I could profit from instruction. Do you still stand by that, sir? For if you do, I will show you that I not only can profit from instruction, but I will be one of the best students that Los Angeles Valley College has ever had. That I promise you, sir! (127).

Como disse, a minha vivência de aluno, assegura-me que o senhor levou até aos limites a sua promessa. Na verdade, o senhor foi um dos melhores professores de toda a minha vida académica.

Meu caro, neste simples discurso, a viagem está implícita. Desde que a iniciei, na vivência entusiástica das aulas e na solidão produtiva das bibliotecas, senti desde o primeiro dia, a sua presença de companheiro ao dispor. Nunca mais esquecerei os momentos que passei a discutir consigo tópicos, apêndices e notas de rodapé que iam normalmente para além do tempo regulamentar das aulas. A sua disponibilidade não se pautava por horas, dias ou fins-de-semana. Falo de uma presença activa, motivadora, pronta a intervir na correcção de desvios, mas sobretudo atenta à alegria da descoberta. A si devo a participação directa em vários projectos, como conferências, colóquios e publicações, entre as quais, a minha tese de doutoramento de cuja ‘’Apresentação’’ é o autor. 

Meu caro Amigo. Ao fechar esta sequência de registos da minha memória, que ficou longe de se esgotar, gostaria de publicamente lhe oferecer estes versos, que em tempos já lhe dediquei.  Aqui os tem, em género de palimpsesto, quando, em 1995, eu iniciava a descoberta de Jorge de Sena, comovido pelas nossas discussões na aula e leitura crítica, muita dela da sua própria lavra:

 

In forma

 

Das páginas cor de estudo

me correm para os olhos lágrimas

Da noite nascem crisálidas

que à luz dão a dor do pouco saber

 

Borboleta inserena é

a solitária companhia da insónia

 

E assim me lanças

estoque certeiro ao cérebro

(massa fraca e velha, tenaz porém)

o repto que, aceite,

me cobrirá de seniana scientia

 

Sonho, leio, interpreto

visibilia metaforseando-se:

a work

probably the

densest most complex

of Sena’s works   of

Complexo?

 

Só, gazela, coluna

de olhar em água

levado por derriços dionisíacos

de joelhos concentrado

rezando apolínea seriedade

tentarei ler nas asas velhas

o Deus do amor de saber mais

(se não mo roubarem, claro)

 

Andarei de mãos dadas com

o diabo da teimosia de cantar

( se outros não mo roubarem, é claro)

Tentarei ouvir, pianíssimo, a Voz

eco de velhice, secular, cavo, de longe, longíssimo

ou a minha voz, novelo latente

eco sumido na catedral casulo

Tentarei se

não me roubarem Deus

deuses tantos

ou o diabo da teimosia

de te ouvir    

 

                   

 Não é homenagem o que aqui me proponho. A sua humildade não o aceitaria. Nem tão pouco é despedida. A sua vida é para viver em plenitude. A partir de agora não há mais tempo que limite a sua disponibilidade. Para si e para os outros. Para a sua família, em especial, as companhias de coração - a sua mulher Maria Deolinda e o seu  filho Evan.  Estou aqui para lhe dizer que o que até agora fez e ajudou a construir merece o meu respeito, o meu obrigado.

 

Porque os olhos vêem e o coração aplaude, aqui lhe deixo, à nossa moda insular, um desejo de bom tempo, mar sereno e um

 

Arrochado abraço

 

José Francisco Costa