A brilhante carreira académica do Professor Francisco Fagundes

 

O Professor Francisco Fagundes, catedrático de Estudos Portugueses na Universidade de Massachusetts Amherst, aposenta-se no final deste ano lectivo. Um grupo de amigos e antigos alunos esteve presente numa festa de homenagem e vários tomaram a palavra para enaltecer o brilhante trabalho desenvolvido ao longo de uma cerreira de 41 anos de investigação e ensino naquela universidade.

Natural da Agualva, Terceira. Em 1963, com a idade de 14 anos, emigrou para os EUA. A primeira parte da sua vida está magnificamente narrada na autobiografia Hard KnocksAn Azorean American Odyssey (Pro­vidence, RI: Gávea-Brown, 2000, a sua vida deu uma volta impressionante levando-o a fazer um doutora­mento na University of California Los Angeles. Foi então que iniciou a sua carreira docente na University of Massachusetts Amherst.

Autor de uma vastíssima bibliografia, dedicou-se especialmente ao estudo das obras de Miguel Torga, Vito­rino Nemésio, Jorge de Sena e Fernando Pessoa, deu também especial atenção à escrita produzida na diaspora luso-americana, tendo ele mesmo escrito alguns livros de narrativas reflectindo a sua própria experiência. Os diversos testemunhos de antigos alunos e colegas dão uma muito melhor ideia da riqueza e e diversidade da sua escrita e leccionação. Eu próprio solicitei mais de uma dúzia e meia de testemunhos de colegas de Portugal, Brasil, EUA e Canadá e todos se prontificaram imediatamente a contribuir. Esses textos serão devida­mente tornados públicos e aqui apenas deixo o meu, lido na festa, mas que incluí também no scrapbook esmeradamente preparado pela esposa, Maria Deolinda, um mimo que lhe foi oferecido de surpresa durante o evento.

Fecho então com esse escrito:

 

Não me recordo do nosso primeiro contacto, mas sei que o seu nome começou a aparecer no meu radar quando na Brown organizámos o livro das actas do pri­meiro simpósio sobre Fernando Pessoa que realizámos na Brown em 1977 e soubemos que, na UCLA, ele tinha escrito uma tese de doutoramento sobre Fernando Pessoa. Não tínhamos conhecimento disso quando orga­nizámos o programa do colóquio, mas depois fizemos questão de lhe pedir um texto para o volume coordenado pelo Prof. George Monteiro - Fernando Pessoa – The Man Who Never Was. Para mim, o Francisco passou a ser The Man Who Always Was… there when I knocked at his door. Pouco depois, seguiu para ele um convite para participar no simpósio sobre Literatura Açoriana na Brown, em 1983.

Tudo isso foi apenas o princípio de uma grande ami­zade à distância. Ele, sempre recatado e com pruridos de vir a público, a trabalhar como um danado (como se diz na sua Terceira) a escrever livro após livro, a organizar colóquios (para que sempre me convidou) e volumes colectivos (idem) e eu, de Providence, habitualmente a pensar também em integrá-lo em tudo o que fazia e que fizesse sentido incomodá-lo para cá vir ou participar. Nunca o fiz apenas por amizade; fi-lo por respeito e profundo apreço pelo teu trabalho. Nesta frase resumo toda a nossa colaboração de colegas. Todos os meus convites surgiram porque lhe reconheci e reconheço imenso valor. Period. Abstenho-me de enumerar as colaborações para que o convidei, a principal da quais terá sido para traduzir o clássico açoriano Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, que ele levou a cabo de maneira exímia. Mas foram vários projectos.

Admirei sempre a caminhada portentosa da sua vida (por isso publiquei também na editora Gávea-Brown a sua autobiografia, Hard Knocks) e, nas minhas frequentes conversas com o George Monteiro, ele foi sempre o amigo ausente trazido à colação porque partilhávamos um universo: Portugal, os Açores, a América, a L(USA)lândia. Tantas e tantas vezes ele esteve presente à nossa mesa e o George é testemunha de como foi sempre positiva essa sua presença de ausente. Como se diz no belo português da nossa terra, fazíamos-lhe ‘boas ausências’. Felizmente, alguma vezes o Francisco veio juntar-te ao vivo a nós, volta e meia com a Alice Cle­mente também) e então o que aconteceu foram verda­deiras ágapes luso-americanas que não esquecerei. Só não aconteceram mais frequentemente porque ele, em Amherst, atirava-se ao trabalho como uma besta (ex­pressão genuína das nossas ilhas) e não tinha maneira de riscar um dia da sua agenda para roubar quatro horas para viagem e mais quatro para os nossos almoços num restaurante português.

Como não quero trazer para aqui apenas a minha voz, quedar-me-ei por aqui. Oxalá que, agora aposentado, possamos encontrar-nos presencialmente mais vezes, já que, em espírito, nunca estivemos desencontrados. Muito pelo contrário. Para mim, o Francisco foi sempre parte do meu universo próximo.

Que tenhas uma longa carreira de aposentado e que consigas moderar um pouco o teu ritmo de trabalho para irmos mais frequentemente almoçar e falatar no Dinis.

Onésimo Teotónio Almeida