Tragédia em Pedrógão Grande, 64 mortos


Domingo, 18 de abril, era para ser dia de soccer. Contava ver o jogo Portugal-México para a Taça das Confederações a decorrer na Rússia (em Massachusetts, a Univision transmite os jogos nos canais 740 e 1059 da TV-cabo), mas acabei por ficar o dia todo preso à reportagem da RTP Internacional sobre o pavoroso incêndio que deflagrou ao início da tarde de sábado em Pedrógão Grande, distrito de Leiria, 150 quilómetros a nordeste de Lisboa.
O fogo, que deflagrou às 13:43 de sábado numa pequena área florestal de Escalos Fundeiros, aldeia de 40 habitantes no concelho de Pedrógão Grande, e que às 18:00 o comandante dos bombeiros locais chegou a dar como controlado. Mas o pior estava para vir, o fogo tornou-se o maior de sempre em Portugal roubando a vida a 64 pessoas.
“Não é aceitável que em pleno século XXI, num país da União Europeia um incêndio florestal cause um número de vítimas tão elevado”, escreveu no editorial de 19 de junho o El Mundo, um dos mais influentes jornais de Espanha. O diário lembrou que a Polícia Judiciária apontou fenómenos climatéricos para a origem do incêndio, mas referiu igualmente que as autoridades portuguesas “mobilizaram mais de 700 efetivos” o que demonstrou ser “insuficiente para controlar, delimitar um perímetro e, finalmente, extinguir um incêndio de proporções devastadoras”. O editorialista do El Mundo denunciou a “alarmante falta de recursos do Estado português para fazer frente aos incêndios florestais” e lembrou a crise que afeta Portugal. Mas a situação económica não explica, segundo o jornal, que tenhamos chegado até ao fogo de Pedrógão Grande e lembra os antecedentes de anos anteriores: “O que mostra este terrível episódio”, conclui o periódico, “é que, no dia de hoje, Portugal não está preparado para fazer frente ao fogo”.
O Estado português investe dinheiro a proteger jogos de futebol em proveito dos clubes, mas esquece que tem é o dever de proteger a vida e os bens das pessoas e não esperar que haja desgraças como a de Pedrógão Grande para anunciar inquéritos e estudos de forma a prevenir estas situações.
O flagelo dos fogos florestais começa por ser falta de civismo. Apesar das campanhas de propaganda e das proibições, os portugueses fumadores continuam a deitar beatas para o chão. Os foguetes e as queimadas estão na origem da maioria dos fogos florestais e as pessoas não querem deixar as suas tradições. Segundo o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas, desde o início de 2017 até 15 de junho, os incêndios já consumiram 15.184 hectares em Portugal, 12 vezes mais do que no mesmo período do ano passado. Este balanço ainda não inclui os dados do último fim de semana, mas a área ardida mais do que duplicou nos últimos dias. que converteu Portugal em notícia internacional, nomeadamente nas principais redes de televisão dos Estados Unidos.
Convém lembrar que a Península Ibérica tem estado sob uma onda de calor com temperaturas superiores a 40 graus centígrados (104 graus Fahrenheit) e condições propícias à formação da trovoada seca que terá estado na origem da tragédia.
A trovoada seca (sem aguaceiros) não é só um problema português. Os Estados Unidos sofre frequentemente fogos florestais provocados por trovoadas secas, nomeadamente este ano na Califórnia e na Florida. Acontece também todos os anos na Rússia, Austrália e outros países onde um raio pode atingir uma árvore e provocar um incêndio florestal de grandes proporções quando as temperaturas são elevadas e a vegetação está seca. Terá sido o que aconteceu em Pedrógão.
Domingo de manhã, o director nacional da Polícia Judiciária anunciou que o incêndio de Pedrógão tivera origem numa trovoada seca, afastando qualquer indício de origem criminosa. A polícia encontrou uma árvore atingida por um raio próximo de Escalos Fundeiros e tudo indica ter sido nesse local que o fogo teve início. O vento forte que se fazia sentir na ocasião, com rajadas ciclónicas, e a característica do terreno coberto de floresta densa sobre colinas íngremes explicam a propagação rápida das chamas, que alastraram rapidamente aos municípios vizinhos de Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos. Pelo final do dia, havia aldeias cercadas pelo fogo e isoladas, com a situação agravada por falhas no fornecimento de energia eléctrica e nas comunicações, e vários habitantes começaram a abandonar as casas sob a ameaça das chamas.
Os fogos florestais todos os anos tomam conta do país, mas nunca nenhum teve a dimensão deste que provocou 64 mortos. Foi decretado três dias de luto nacional (entre domingo e terça-feira), mas nem seria preciso oficializar o sentimento que dói na alma de milhões de portugueses. Um menino de quatro anos foi a primeira vítima identificada e teve o retrato publicado no jornal Daily Mail de Toronto, Canadá. Rodrigo Rosário estava de férias com o tio, Sidel Belchior, 37 anos, que também morreu, porque os pais, Ana Cardita Rosário e Nuno Belchior, estavam de lua-de-mel em Cabo Verde. Há pelo menos mais três crianças e alguns casais entre os 64 mortos do incêndio. Caso de Martin, de dois anos e da irmã Bianca, de quatro, que eram de Lisboa e tinham ido passar o dia ao complexo balnear da Praia das Rocas, em Castanheira de Pera.
47 pessoas perderam a vida calcinadas dentro dos carros na estrada nacional 236 quando tentavam fugir daquele inferno. Outras morreram em casas, caminhos e campos do concelho de Pedrógão Grande. Só na aldeia de Nodeirinho, que tinha 40 habitantes, perderam a vida 11 pessoas e em Sarzedas São Pedro foram seis, um grupo que tentava escapar a pé.
Em termos de feridos, o último balanço apontava para 136, entre os quais 121 civis, 13 bombeiros e um militar da GNR. Sete feridos estão em estado grave: cinco bombeiros voluntários e dois civis, um dos quais uma menina de quatro anos.
Há ainda dezenas de deslocados, estando por calcular o número de casas e viaturas destruídas. O montante dos prejuízos ainda está a ser avaliado, mas é elevado. Contudo, o vice-presidente da Comissão Europeia, Jyrki Katainen, afirmou que a União Europeia comparticipará até 95 por cento as despesas de reconstrução. A Comissão Europeia respondeu a todos os pedidos de auxílio feitos pelo Governo português, tendo sido enviados sete aviões de combate a incêndios de França, Itália e Espanha, e mais de 100 bombeiros de Espanha.
Várias organizações lançaram movimentos de solidariedade para apoiar as vítimas dos incêndios. A Fundação Gulbenkian criou um fundo com uma doação inicial de 500 mil euros. A Caritas tem disponíveis 200 mil euros para ajuda imediata. O Banco Santander Totta abriu uma conta de 500 mil euros e o Montepio de 250 mil euros. Há também muitas iniciativas individuais, o treinador de futebol André Villas Boas, que está em Xangai (China) conseguiu cem mil euros numa angariação de fundos na internet e muitas outras iniciativas solidárias irão surgir, nomeadamente nos Estados Unidos.
Mas para além das ajudas é caso para perguntar como foi possível às populações, bombeiros, forças policiais, autarcas e outros responsáveis habituados a lidar com a devastação dos incêndios florestais não pudessem prever o que aconteceu? Como foi possível que se tenham deixado aldeias sem evacuação? E por que não foi suspenso o trânsito nas estradas onde viria a morrer a maior parte das pessoas?
A natureza tem destas surpresas macabras e nenhum ministro ou comandante de bombeiros parece ter previsto o que viria a acontecer, embora sejam pagos para isso.  A Autoridade Nacional de Proteção Civil é o organismo responsável pela prevenção de acidentes graves e catástrofes, e pelo socorro das populações, mas desta vez foi ineficaz e o problema não é só de agora.
Portugal é o país com mais fogos florestais no Sul da Europa. É o que dizem os dados da União Europeia referentes a Portugal, Espanha, França, Itália e Grécia, e  relativos ao período de 1980 a 2013. No referido período, o pico das ocorrências foi em 2005, com um total de 75.382 incêndios nos cinco países e, desse número, 35.697 foram portugueses. De acordo com um relatório da Agência Europeia do Ambiente, desde 1993 que Portugal é o país do sul da Europa com o maior número anual de incêndios florestais ultrapassando a Espanha, França, Itália e Grécia, embora seja o menor destes países.  No que toca a hectares ardidos, o pico foi em 2003, com 425.726 hectares ardidos em Portugal e o total nesse ano para os cinco países foi de 742.498 hectares. Cada hectare representa sensivelmente um campo de futebol.
O estudo “Grandes Incêndios Florestais em Portugal”, da Universidade do Minho e da Universidade de Coimbra, refere que os fogos com área igual ou superior a 100 hectares começaram a vulgarizar-se a partir da década de 1980 com a redução do pastoreio e o abandono de antigas áreas agrícolas como algumas das causas. Segundo os autores do trabalho, as “mudanças no uso tradicional da terra e estilo de vida das populações implicaram o aumento de grandes áreas abandonadas de anteriores terras agrícolas”, o que levou à recuperação da vegetação e ao aumento da acumulação de combustível na floresta.  Até então, os incêndios em Portugal nunca tinham atingido os 10 mil hectares de área ardida numa só ocorrência. O primeiro destes fogos aconteceu em 1986, no concelho de Vila de Rei. No ano seguinte, outro fogo de grandes dimensões afetou os concelhos de Arganil, Oliveira do Hospital e Pampilhosa da Serra.
Os serviços de emergência foram criticados por não terem fechado a estrada 236 onde morreram 47 pessoas fugindo das chamas na noite de sábado. Segundo o Jornal de Notícias, do Porto, a prestação de socorro imediato poderá ter ficado condicionada com a destruição de várias antenas do SIRESP, um sistema rádio que serve para coordenar todas as forças e a rede de telemóvel também ficou gravemente afetada. Há muitas questões e, perante a tragédia de Pedrógão Grande, o primeiro-ministro António Costa terá decidido ordenar um inquérito e é importante que tudo seja esclarecido.
Quercus, o principal grupo de lobby ambientalista português, divulgou um comunicado denunciando os “erros de manejo florestal e decisões políticas ruins” dos governos nas últimas décadas. Quercus acusa as autoridades por autorizarem o plantio de enormes áreas de eucalipto, uma das espécies mais rentáveis, mas considerada responsável pela praga dos incêndios.
O constitucionalista Vital Moreira é um dos que assim pensa e escreveu que  “é preciso convencermo-nos de que deixámos criar uma floresta assassina”. Moreira afirma que “infelizmente em Portugal, nas últimas décadas escolhemos deixar invadir o país por eucaliptos, sem qualquer ordenamento. Enormes áreas estão ocupadas pela monocultura extensiva do eucalipto, pasto privilegiado para os fogos florestais”.
“Uma folha de eucalipto, por exemplo, pode voar mais de dois quilómetros enquanto está a arder”, explicam os especialistas. Ou seja, uma simples folha de eucalipto pode incendiar rapidamente uma vasta área e, perante esse risco, o país tem que tomar medidas para debelar o problema. Isso passa por obrigar os donos a limpar as florestas e outras medidas impopulares.
Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses (e da assembleia geral do Sporting) é de Vila Nova de Poiares, concelho de Arganil, conhece bem a praga dos fogos florestais e diz que tem faltado aos governos coragem política para resolver o problema. Os responsáveis políticos têm torneado o problema que obriga a tomar medidas impopulares que desagradam aos eleitores e podem custar-lhes votos. Mas a floresta portuguesa, que é quase toda privada, só será salva se o Estado assumir a sua defesa.
Portugal é o único país da Europa meridional cuja área florestal está a diminuir. Os pinheiros cederam lugar aos eucaliptos altamente inflamáveis e todos os anos ardem milhares de hectares. Qualquer dia, mais cedo do que se imagina, deixará de haver incêndios florestais em Portugal. Mas também já não haverá floresta.