Saúde mental e riqueza

by | Jan 7, 2026 | Haja Saúde

 

Como a nossa apreciação do mundo muda! Quando era jovem apreciava o poder, na idade adulta comecei a apreciar o sucesso dos outros, fosse este qual fosse, e na minha idade mais madura passei a valorizar ainda mais a bondade e a caridade na humanidade. Nesse sentido, na minha distante juventude era comum ouvir que o dinheiro era a origem de todos os males, ao que contrapunha que era a FALTA de dinheiro que estava sim na origem da maior parte das desgraças. Acho agora que nenhuma dessas regras pode ser vista em absoluto. 

Um bom exemplo é o que se pode aplicar à saúde mental de gente afluente, ou seja, dos ricos. Como se vê o claro e louvável enriquecimento financeiro e educacional da nossa gente neste país de acolhimento, este assunto torna-se cada vez mais pertinente.

Contrariamente ao que muitos podem pensar, o ser rico acarreta desafios diversos, incluindo stress, ansiedade e em parte devido à estabilidade financeira, um sentido de falta de finalidade, de objectivo na vida. Os indivíduos de sucesso e riqueza tendem a manter as pressões do seu alto desempenho que podem levar ao isolamento e problemas de saúde mental, como depressão e abuso de substâncias. 

Mais ainda, os seus problemas são muitas vezes agravados pelo facto de que a sociedade, includindo técnicos de saúde, tem dificuldade em compreender que uma pessoa afluente pode também estar a sofrer de depressão grave, e ter menos empatia com o rico do que teria com o pobre, o que leva a minimizar tratamentos, ou desviar-se da terapia de efetividade comprovada. 

Essa chamada contratransferência (um termo que se aplica ao relacionamente de médico para doente) muitas vezes aparece devido ao paciente ter mais sucesso na vida, e por vezes maior grau de educação/instrução do que o próprio técnico de saúde, que acaba por se sentir inadequado para tratar de alguém assim, já que nós somos treinados principalmente a tentar ajudar quem é mais pobre ou desafortunado. Daí que seja importante que se formem médicos e enfermeiros que sejam capazes de reconhecer estes fatores e que sejam capazes de intervenções apropriadas sem distinção de classe, sucesso, ou nível de educação. A igualdade absoluta nunca será possível, mas atenção apropriada tanto ao rico como ao menos afortunado tem que ser obrigatória. Haja saúde!

 

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