Quando Lisboa se chamava Olisipo

by | May 6, 2026 | A Descoberta

 

Olisipo é o nome romano de Lisboa, e é também onde se passa o essencial de um livro recente de André Simões, professor de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. O título do livro é ‘Lusitânia: a vida dos Cássios, uma família na Lisboa Romana’, o que  anuncia aquilo que o autor nos quer mostrar: a vida numa província do Império Romano, numa cidade longe do coração imperial mas nem por isso menos romana. E que de certa forma nos faz recordar o tanto que devemos ao povo que conquistou a Península Ibérica mais ou menos há 2200 anos. 

Todos crescemos a ouvir as façanhas de Viriato, herói português muito antes de haver Portugal (e também herói para muitos espanhóis). Mas se podemos admirar a bravura dos lusitanos e outras tribos celtiberas que resistiram às legiões romanas, a verdade é que temos muito pouco desses nossos antepassados: não herdámos deles nem a língua, nem a cultura, nem a religião. Somos muito mais romanos do ponto de vista cultural. A nossa língua vem do latim, o cristianismo chegou via Roma (e depois de perseguido pelos imperadores até se tornou religião oficial), e mesmo as leis que ainda hoje nos regem são influenciadas pelo Direito Romano. É certo que em termos de arquitetura monumental sobram por cá poucos vestígios de sete séculos de presença romana, interrompida pela chegada de visigodos e suevos, mas mesmo assim temos o templo em Évora ou as ruínas de Conimbriga, perto de Condeixa-a-Velha. E um saltinho a partir de Lisboa até Mérida, capital da Extremadura Espanhola que foi igualmente capital da província romana da Lusitânia, oferece a experiência de um teatro que data do tempo do imperador Augusto.

É curioso pensar que se os romanos nos deram a língua, foram os povos ibéricos que globalizaram o legado dos romanos. Sim, o Império dominou o Norte de África e partes do Médio Oriente, mas foi com os Descobrimentos Portugueses e Espanhóis que as línguas latinas se espalharam mundo fora: na América Latina, em partes de África e até em Timor-Leste, onde o português é idioma oficial. Os franceses depois deram também o seu contributo para essa expansão mundial do velho latim já transformado por séculos de uso.

Os Cássios, como tantas outras famílias olisiponenses que viveram na época dos Cinco Bons Imperadores, talvez tenham hoje descendentes em Portugal, e também espalhados pelo mundo.

 

* Jornalista do DN. É doutorado em História e autor do livro ‘Encontros e Encontrões de Portugal no mundo’.

 

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