Os cabo-verdianos na independência dos EUA
Muitos norte-americanos desconhecerão, mas as treze colónias britânicas da América do Norte combateram o Império Britânico na Guerra da Independência dos Estados Unidos (1776-1783) com o apoio militar de nações europeias rivais da Inglaterra.
A Espanha, que abriu várias frentes de combate no golfo do México, sofreu 5.000 mortos em combate. Mercenários alemães que combaterem do lado dos britânicos sofreram 7.774 mortos. A França teve 7.000 baixas e forneceu tropas sob comando do Marquês de Lafayette e do Conde de Rochambeau, além de uma frota naval de que fazia parte o lendário USS Bonhomme Richard, sob comando do escocês John Paul Jones e com uma tripulação heterogénea de 375 homens de que faziam parte 79 americanos, 59 ingleses, 29 portugueses e 21 irlandeses.
As pequenas comunidades portuguesas nos Estados Unidos na altura da independência eram constituídas por alguns judeus sefarditas de origem portuguesa e por pescadores baleeiros açorianos e cabo-verdianos recrutados pelos navios baleeiros americanos que tinham passado a escalar as ilhas dos Açores e Cabo Verde em 1740 para se abastecerem de água e comida, e recrutarem homens conhecidos como bons caçadores de baleias.
Foi assim que os açorianos e os cabo-verdianos começaram a fixar-se em New Bedford, a maior cidade baleeira, e vilas da região do Cape Cod e das ilhas de Nantucket e Martha’s Vineyard, dando origem às primeiras comunidades portuguesas nos Estados Unidos.
Com quase três séculos de história de emigração para os Estados Unidos, os cabo-verdianos constituem uma das mais sólidas comunidades na América do Norte. Contudo, os cabo-verdianos são de identificação mais difícil por serem um povo de ascendência mista, a mistura de povos africanos (os Fula, Mandinga e Malanta trazidos do continente africano) com os colonizadores europeus, principalmente portugueses, mas também italianos, franceses e espanhóis que desde 1460 começaram a fixar-se na ilha de Santiago e deram origem à mestiçagem como traço dominante da população cabo-verdiana.
Como tal, do povo de vista étnico tornou-se difícil identificar os cabo-verdianos nos Estados Unidos, mas o primeiro português aparecido nestas paragens, era mulato e talvez fosse cabo-verdiano.
Mathias de Sousa desembarcou em 1635 do navio Ark na colónia de St. Mary, no Maryland, fazendo parte de um grupo de seis africanos e como criado contratado pelo padre Andrew White, um padre jesuíta inglês.
Os criados contratados eram, na sua maioria, jovens que vinham para a América colonial para trabalhar como mão-de-obra não qualificada durante períodos de três a sete anos, em troca de passagem e outras necessidades básicas.
Após cumprir o seu contrato de servidão, de Sousa tornou-se negociante de peles com os povos nativos locais, mais tarde pilotou o seu próprio navio e, em 1642, foi eleito para a Assembleia Geral de Maryland, sendo o primeiro homem considerado negro e de ascendência portuguesa eleito para um cargo político. Isto prova que Mathias já não era um servo, mas em 1642 os indígenas Susquehannock atacaram os colonos e deixou de haver notícia de Mathias de Sousa, podendo ter sido morto.
Na margem do rio St. Mary, no Maryland, há hoje um monumento com a seguinte inscrição:
“Mathias, o Sousa, foi o primeiro negro de Maryland. De ascendência africana e portuguesa, foi um dos nove criados contratados trazidos para Maryland por missionários jesuítas e estava a bordo do navio Ark quando a expedição de Lord Baltimore chegou ao rio St. Mary’s em 1634.”
A marinha corsária da Revolução Americana
Quando a Declaração de Independência foi escrita em 1776, as pessoas de ascendência africana constituíam aproximadamente um quinto da população dos novos Estados Unidos. A grande maioria eram escravos e desempenharam um papel importante na revolução.
Ao todo, cerca de 5.000 negros livres e escravos serviram no Exército Continental durante a Revolução. Os soldados negros estavam na sua maioria integrados em regimentos de militares brancos em funções de apoio como carreteiros, cozinheiros ou artesãos.
Mas havia também vários batalhões no Exército Continental compostos exclusivamente por soldados negros e comandados por oficiais brancos e a primeira dessas unidades foi o 1º Rhode Island Regiment fundado em 1778.
Os soldados afro-americanos serviram com bravura nas batalhas de Lexington, Fort Ticonderoga e Bunker Hill.
Ao contrário do Exército Continental, desde o início da Guerra da Independência que a Marinha recrutou negros, tanto livres como escravizados, e isto em grande parte devido à falta de marinheiros brancos experientes, enquanto que os marinheiros de cor abundavam, como era o caso dos cabo-verdianos.
Os marujos negros podiam ser recrutados pela Marinha Continental ou pelos navios de propriedade privada que atuavam como navios corsários atacando os navios da marinha britânica que abasteciam o Exército colonial britânico. Os navios corsários eram preferidos pois havia maiores recompensas financeiras.
Os cabo-verdianos eram marinheiros habilidosos e faziam parte da tripulação da maioria dos navios mercantes, conforme refere a Sociedade Histórica de Brewster sugerindo que alguns cabo-verdianos podem ter servido em navios corsários.
Embora os relatos das ações cabo-verdianas na Guerra da Independência possam ser escassos, a presença histórica de pessoas de ascendência cabo-verdiana está documentada.
Nos anos que se seguiram à Guerra da Independência, muitas famílias mestiças cabo-verdianas começaram a afirmar serem portuguesas. Isto tornou-se bastante comum e há quem acredite que se devia ao facto dessas famílias serem vítimas de preconceitos legais e sociais e serem consideradas portuguesas e brancas era um meio de lhes facilitar a vida.
Joaquim Peres, cabo-verdiano que terá ganho a Medalha de Honra
Joaquim Peres é possivelmente um cabo-verdiano agraciado com a Medalha de Honra, a mais alta e prestigiada condecoração militar dos Estados Unidos criada em 1861 durante a Guerra Civil pelo presidente Abraham Lincoln para reconhecer atos de bravura e risco de vida em combate.
Até hoje, a Medalha de Honra foi atribuída apenas 3.538 vezes e o primeiro afro-americano agraciado parece ter sido um tal Joachim Pease, que, segundo alguns investigadores, seria na realidade o cabo-verdiano Joaquim Peres.
Joachim Pease é descrito na Wikipédia como nascido em Fogo, Terra Nova e nos documentos de alistamento consta como nascido em Long Island em 1842. Mas os registos dos Arquivos Nacionais Militares mostram que se alistou na Marinha a 12 de janeiro de 1862, por um período de três anos, e alistou-se na cidade de New Bedford. Era baleeiro e foi descrito como tendo 20 anos de idade, 1,69 metro de altura, cabelo e olhos pretos e tez “negra”. Segundo alguns investigadores, Joaquim Peres indicou provavelmente como local de nascimento a Ilha do Fogo, em Cabo Verde e o seu nome terá soado como Joachim Pease ao marinheiro que o alistou.
A 19 de junho de 1864, ao largo da costa de Cherbourg, em França, o Kearsarge destruiu a chalupa de guerra confederada CSS Alabama. Peres foi carregador do canhão nº 2 durante este combate e demonstrou uma tal conduta que foi condecorado com a Medalha de Honra.
Mas o tal Joaquim Peres ou Joachim Pease abandonou a Marinha no final do seu alistamento, em 1865, sem ter recebido a sua Medalha de Honra. O seu destino é desconhecido, e as especulações de que possa ter voltado à sua vida de baleeiro ou tenha regressado à Ilha do Fogo em Cabo Verde permanecem sem provas.
A Medalha de Honra de Pease atribuída a Joaquim Peres ou Joachim Pease está hoje exposta no Museu Nacional da Marinha dos Estados Unidos, em Washington, DC, para ser entregue aos seus possíveis descendentes.
Cabo Verde-EUA dois séculos de relações
Descoberto em 1460 por navegadores portugueses, Cabo Verde serviu durante séculos como um importante entreposto na navegação e no tráfico negreiro e o continente americano.
Já em 1740, navios das colónias americanas escalavam portos cabo-verdianos e a imigração de cabo-verdianos para os Estados Unidos começou muito antes ainda do estabelecimento da nação norte-americana.
Com a independência, a 4 de julho de 1776 e o processo de industrialização a partir de 1865, os Estados Unidos foram-se afirmando progressivamente e o primeiro consulado dos Estados Unidos em toda a África Subsariana abriu em dezembro de 1818 na cidade da Praia e Samuel Hodges, comerciante oriundo de Massachusetts, foi nomeado o primeiro cônsul.
A maior ligação entre Cabo Verde e os Estados Unidos é presentemente a existência de meio milhão de americanos de ascendência cabo-verdiana.
As maiores comunidades cabo-verdianas estão concentradas no estado de Massachusetts, especificamente na região da Costa Sul e na região metropolitana de Boston, nomeadamente nas cidades de Rochester, New Bedford e Brockton, onde os cabo-verdianos são 16% da população.
Em Rhode Island também há numerosas comunidades cabo-verdianas, nomeadamente em Providence e Pawtucket, e nos estados de Connecticut, New Jersey e New York.





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