Tributo a Joseph Sousa (1926-2009) – no centenário do seu nascimento Por Duarte Barcelos Mendonça

by | May 27, 2026 | Notícias das comunidades

 

Um amigo nunca se esquece. E muito mais um amigo com A grande. Falo de Joseph Sousa, o fundador do Museum of Madeiran Heritage. Se fosse vivo teria feito ontem, 25 de Maio, 100 anos. Eu não poderia deixar passar em data em claro. E por isso decidi escrever duas linhas em honra da sua memória, de modo a assinalar essa data importante.

Joseph Sousa, filho de pais oriundos da freguesia de Gaula, no concelho de Santa Cruz, na Ilha da Madeira, nasceu em Central Falls, RI, a 25 de Maio de 1926. Conforme ele me confidenciou um dia, conheceu a rapariga que veio a ser a sua esposa, Dolores Vogado, numa barraca duma festa do Dia Madeirense. Quis o destino que fossem indicados para ficarem ambos nesse mesmo espaço a vender diversos produtos e ele, tendo-lhe achado piada, amarrou com uma fita a sua cesta do almoço à dela. E desde esse dia que os seus corações ficaram unidos, pois veio a desposá-la, tiveram vários filhos e foram uma família feliz.

Joseph Sousa era mais conhecido pelo epíteto de The Artist, pois tendo começado a trabalhar em publicidade, descobriu o seu amor pelas coisas madeirenses quando pintou, a partir dum postal, um grande mural com o panorama funchalense para uma edição da festa do Santíssimo Sacramento, mural esse que hoje se encontra no salão de festas do Club Sport Madeirense, Inc.

Essa pintura mudou a sua vida. Até então, segundo ele me disse, não ligava muito às suas raízes madeirenses, tal como muitos jovens luso-americanos do seu tempo. Mas os rasgados elogios que recebeu por esse trabalho fizeram com que ele começasse a ser acolhido pelos old timers, como ele dizia, do Club Madeirense S. S. Sacramento, Inc. E foi ficando, e foi fazendo mais trabalhos, incluindo os painéis representando o Bailinho da Madeira, para decorarem o fundo do palco principal do Madeira Field. 

Mas uma vez picado pelo bichinho das suas raízes madeirenses, ele nunca mais parou. E um dia teve a ideia de edificar um museu para preservar a memória da comunidade madeirense de New Bedford. E lutou por esse sonho. Arduamente. A princípio, os demais elementos da direcção do Club não concordavam com isso, mas ele impôs a sua voz e a sua vontade. Segundo me confidenciou, quando ele falava sobre a criação do museu, elevando a voz, as paredes do salão do Club tremiam. Por fim os membros dessa organização concordaram com a ideia e deitaram mãos à obra. E assim nasceu o Museum of Madeiran Heritage, que foi inaugurado em 1999 e, até hoje, é o único museu madeirense existente na diáspora.

A vida é feita de encontros, muitos dos quais inesperados. Após ter concluído a minha licenciatura, na Universidade da Madeira, em meados do ano 2000, tive a sorte de ser seleccionado para passar um mês na Brown University como Visiting Student, tendo então ficado na casa do meu amigo Leonel Teixeira, em Pawtucket. Um dia ele teve de ir a New Bedford encontrar-se com uma pessoa da família que tinha voltado da Califórnia e levou-me com ele. Do programa desse dia constou uma visita ao museu. E foi nesse dia que conheci o Joseph Sousa, que me fez uma visita guiada ao mesmo. E quando me mostrava todos os artefactos lá guardados, os seus olhos brilhavam. De orgulho, de felicidade, por ter conseguido reunir tanto material, muito do qual doado por diversas famílias, em memória dos seus antepassados, que ficaram assim imortalizados naquele espaço. O seu carácter afável cativou-me logo desde o primeiro momento em que o conheci.

Dois anos volvidos voltei a New Bedford, não como mero visitante como antes, mas para fazer trabalho de campo junto da nossa comunidade, para recolher dados para a minha tese de mestrado, e fui, inclusivamente, pela primeira vez, à Festa do Santíssimo Sacramento. E em 2003 voltei de novo à América para completar a minha pesquisa antes de publicar o livro da minha tese. E nessa altura o Joseph Sousa convidou-me para ficar na casa dele em North Dartmouth. 

Recordo com muita saudade esse mês em que convivi com ele a sua esposa Dolores. Quando lhe falava de algum assunto sobre a história da nossa comunidade, ele perguntava-me: “Queres ver material sobre isso?” E então levantava-se e ia buscar um dossier cheio de fotografias, documentos, registos, etc., e dizia-me: “Podes copiar e usar o que quiseres.” E isso aconteceu uma e outra vez. Vezes sem fim. Para um investigador, ouvir isso foi como música para os meus ouvidos. 

Tendo já pesquisado, no ano anterior, toda a colecção do antigo Diário de Notícias de New Bedford e até do Portuguese Times, eu já possuía um vasto conhecimento sobre a história da comunidade madeirense. E por inúmeras vezes dei por mim a discutir com ele, tu cá tu lá, eventos que tinham ocorrido 20, 30 ou até 50 ou mais antes. Um dia, no meio duma dessas conversas animadas, a minha saudosa amiga Dolores ouviu-nos e disse-me: “Duarte, tu vives no passado. Tens de viver no presente…”, e nunca mais esqueci essa observação.

Até conviver com ele durante esse mês memorável eu nunca tinha visto alguém que tivesse uma paixão tão profunda sobre a Madeira e sobre as coisas madeirenses. E foi através dessa sua paixão, que eu pude constatar in loco, na sua casa, que eu também comecei a apreciar e valorizar as tradições madeirenses, que até então me passavam ao lado.

Uma das suas frases que eu recordo sempre, com saudade, era a seguinte: “De cada vez que eu vou à Madeira eu regresso a casa dez anos mais novo.” E os seus olhos brilhavam intensamente quando dizia isso. Fruto do amor pela ilha dos seus pais começou a pintar belíssimas aguarelas sobre temas madeirenses, pinturas essas que eram o seu maior enlevo. E um dia, na sua última vinda à Madeira, eu ajudei a organizar, em Santa Cruz, uma exposição das suas aguarelas. Ele estava radiante nesse dia, orgulhoso por poder mostrar o seu trabalho na terra dos seus pais.

Joseph Sousa faleceu a 4 de Dezembro de 2009, aos 83 anos, mas o seu legado continua bem vivo, através do seu e nosso museu, que é orgulho da comunidade madeirense de New Bedford.

Não se consegue esquecer um amigo assim, e enquanto eu vivo for, hei-de honrar sempre a sua memória e estar sempre grato por tudo quanto ele me ajudou, há mais de 20 anos. 

De modo a perpetuar a sua memória tenho a ideia de editar um livro de homenagem. Já falei com a sua família e espero que tudo corra pelo melhor nesse sentido. Porque ele merece. E para que os vindouros saibam que ele existiu e a importância que ele teve no seio da nossa comunidade na Cidade Baleeira.

 

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