A festa madeirense do Santíssimo Sacramento

by | Jul 30, 2026 | Celebrações e Festivais, Eventos Comunitários, Notícias das comunidades

 

Dias 30, 31 de julho e 1, 2 de agosto, tem lugar no Madeira Field, 50 Madeira Avenue, em New Bedford, Massachusetts, a 110ª Festa do Santíssimo Sacramento promovida pelo Clube Madeirense do Santíssimo Sacramento e que capricha nos superlativos como “the Largest Portuguese Feast in the World and the largest ethnic festival in New England”.

Na Madeira, a Festa do Santíssimo Sacramento realiza-se em diversas paróquias e uma das características são os tapetes de flores nas ruas por onde passará a procissão.

Em New Bedford, a Festa do Santíssimo Sacramento, popularmente conhecida como Festa dos Madeiras, por ser promovida por madeirenses, não tem tapete de flores, mas compete para o Guinness Book of Records como o local dos Estados Unidos onde se bebe mais cerveja no mais curto espaço de tempo à volta de 600 barris.

Começou em 1915 por iniciativa de quatro madeirenses: Manuel Santana Duarte, Manuel Agrela Coutinho, Manuel Agrela e Manuel Gomes Sebastião, que decidiram criar uma festa idêntica à realizada na sua terra natal, o Estreito da Calheta. No primeiro ano, a festa foi no adro da igreja da Imaculada Conceição, que nesse tempo era na Acushnet Avenue e, segundo se conta, o grande sucesso foi um sino instalado no recinto e o pessoal pagava um tanto para dar umas badaladas.

No segundo ano, 1916, a festa já teve lugar no adro da atual igreja da Imaculada Conceição, 126 Earle Street, durou dois dias e foi animada por duas filarmónicas. Em 1917 a festa passou a realizar-se sexta, sábado e domingo e atualmente são quatro dias.

Nos primeiros tempos realizava-se também em New Bedford uma procissão do Santíssimo Sacramento nos moldes das que se fazem na Madeira, mas foi suspensa em 1932. Contudo, ainda hoje a festa começa sempre com a bênção dos festeiros na igreja da Imaculada Conceição, cuja porta é adornada com um enorme arco de verdura como nos arraiais na Madeira e as ruas circundantes também são decoradas com arcos de verdura e bandeiras brancas com a Cruz de Cristo.

Pendurar os greens é uma das tradições da festa. No domingo anterior à festa, os festeiros vão até Horseneck Beach, em Westport, cortar verduras que são utilizadas para decorar 70 arcos de metal que vão engalanar o recinto da festa e ruas circundantes.

No domingo da festa, os festeiros vão à missa na igreja da Imaculada Conceição, partilham depois um almoço de confraternização e dirigem-se para o Brooklawn Park, ponto de partida do desfile, que este ano começará às 2h00 da tarde e na qual se integram mais de 40 organizações e políticos regionais e estaduais.

Em geral, a parada leva 90 minutos a percorrer do Brooklawn Park, ao longo da Acushnet Avenue, desce na Earle Street, passa pela Igreja da Imaculada Conceição e termina no Madeira Field.

Ser marshal da parada é uma distinção para qualquer madeirense e a escolha recaiu este ano em Arthur Agrela, premiando a sua dedicação à festa, da qual foi um dos antigos presidentes.

Os políticos americanos gostam de desfilar na parada por ser presenciada por milhares de pessoas e o falecido senador Ted Kennedy deve ter sido o político que mais vezes veio à festa. Costumava botar discurso no Madeira Field no final da parada e depois regressava a casa, em Hyannis, com um presente especial: malassadas fritas propositadamente para ele por Alexandra, a mulher do seu amigo Sylvester Silvia, que foi festeiro largos anos.

Todos os anos há novidades e em 2025 trinta mulheres foram pela primeira vez festeiras, membros da comissão organizadora da festa. Durante muitos anos só podiam ser festeiros madeirenses de nascimento, mas em 1945 passaram a ser também aceites descendentes de madeirenses.

Quanto às mulheres, sempre se voluntariaram, preparando a comida ou atendendo o público nas bancas, mas não podiam integrar a comissão da festa.

O presidente da comissão da 110ª festa é Timothy Rodrigues.

Para além da dedicação dos festeiros, uma das razões da continuidade da festa foi a fundação do Clube Madeirense do Santíssimo Sacramento em 1951 e cujos estatutos foram redigidos pelo famoso Gibinha, aliás meretíssimo juiz John Baptista Nunes, presidente honorário vitalício da coletividade.

Nascido em 1905 no Caniço, Madeira, Gibinha era baixinho e marreco, o que lhe valeu a alcunha, mas isso não o impediu de formar-se em Direito em 1929 e fazer carreira na magistratura. Era juiz quando morreu em 1960, em Tucson, Arizona.

A ideia do Gibinha foi criar um clube gerido como uma empresa e a primeira medida foi a aquisição de uma velha serralharia na Hathaway Street para construção da sede do clube.

Em 1955 foram adquiridos os terrenos para o Madeira Field, que em 1957 foi dedicado à memória dos fundadores da festa com a construção de um pequeno monumento com a foto e o nome dos quatro Manéis à entrada do recinto.

Em 1979, Maria V. Quintal, uma novaiorquina que cresceu na Madeira, criou o Grupo Folclórico Madeirense do Santíssimo Sacramento, o maior grupo folclórico madeirense fora da Madeira e que tem levado o bailinho e o nome da Madeira a vários pontos dos Estados Unidos e Canadá.

Em 1999 foi inaugurado o Museum of Madeira Heritage, ideia do falecido Joseph Sousa e único na diáspora madeirense. É um prédio de estuque branco e telha vermelha na parte inferior do Madeira Field e cujo espólio inclui artesanato madeirense, nomeadamente bordados, e fotografias históricas da comunidade.

A festa começa sempre com o hastear das bandeiras americana, portuguesa e madeirense ao som de marcha militar executada pela Banda Senhor da Pedra, uma associação vizinha, um pequeno canhão dispara uma salva de homenagem aos fundadores e o Madeira Field transforma-se em local da peregrinação para cerca de 200.000 pessoas.

Ninguém morre à fome e à sede na Festa do Santíssimo Sacramento. E a primeira paragem costuma ser na réplica da típica e triangular casa de Santana, para um copo de vinho da Madeira gelado.

Deve ser o único lugar do mundo onde o vinho da Madeira é hoje vendido em barril, segundo se diz devido a acordo entre Alberto João Jardim e Joseph Fernandes, empresário que foi um dos donos do Portuguese Times.

Fernandes alegava que vinho Madeira em garrafa compra-se em qualquer loja de bebidas de New Bedford, mas ao copo só no Madeira Field e por isso são importados anualmente da Madeira 30 barris de 60 galões.

A grande atração gastronómica da festa é a carne de espeto, que pode ser grelhada pelas pessoas na churrasqueira com enormes espetos de ferro e depois comida em convívio nas mesas de piquenique.

Mas também há quem prefira ir para o Museu da Herança Madeirense e sentar-se numa das mesas montadas no pátio saboreando o tradicional bolo de mel ou uma malassada (vende-se a média de 2.000 malassadas por dia) e desfrutar os acordes de um fado cantado por artistas locais.

Este ano e como convidado de honra, a representar o governo da Região Autónoma da Madeira, teremos a dra. Rubina Leal, presidente da Assembleia Legislativa Regional da Madeira.

 

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