Na manhã de 23 de junho de 1765, um navio subiu o rio James, na Virgínia, e ancorou frente a City Point (hoje Hopewell). Um escaler foi baixado à água e dois marinheiros remaram até ao cais, onde deixaram um menino que provavelmente teria cinco anos e voltaram ao navio, que partiu rio abaixo.
Os colonos ingleses deram com o menino sentado no cais a chorar. Não falava inglês mas eventualmente viria a contar que estava em casa a brincar com a irmã mais pequena, quando dois homens apanharam ambos. A irmã conseguiu fugir, mas ele foi levado para o navio que acabou por deixá-lo em City Point. O menino repetia o que devia ser o seu nome, Pedro Francisco e, como a fivela do cinto tinha as iniciais PF, passou a ser esse o seu nome.
O juiz Anthony Winston (1723-1783), de Buckingham County, Virgínia, que decidiu levar a criança para a fazenda de que era proprietário, onde Pedro Francisco cresceu e, aos 15 anos, já era um latagão com 1,98 metros.
Pedro Francisco cresceu ouvindo falar na independência e, no dia 23 de março de 1775, acompanhou o juíz Winston até Richmond. Winston ia assistir a uma reunião da Convenção da Virgínia na igreja de St. John, onde o seu sobrinho Patrick Henry fez o seu famoso discurso “Liberdade ou Morte”.
Francisco ficou do lado de fora da igreja, mas teve oportunidade de ouvir o apaixonado discurso de Patrick Henry (1736-1799), que terminou com a declaração: “Deem-me a liberdade ou deem-me a morte!”
Rendido ao discurso de Patrick Henry, Francisco queria alistar-se naquele dia, mas Winston convenceu-o a esperar pelos 16 anos e assim, em dezembro de 1776, o nosso gigante tornou-se soldado do 10º Regimento da Virgínia e teve o batismo de fogo na Batalha de Brandywine Creek, na Pennsylvania, a 11 de setembro de 1777 e sob comando do general George Washington, tentando deter 12.500 soldados britânicos que avançavam sobre Philadelphia.
Francisco foi atingido numa perna por um disparo de mosquete e foi levado para um hospital instalado na igreja dos Irmãos Morávios em Bethlehem, onde conheceu o famoso marquês de Lafayette, que também tinha sido ferido. Lafayette tinha 19 anos e Francisco 16 e terá nascido uma amizade entre ambos, claro a amizade possível entre um general-marquês e um pobre soldado raso.
Dois meses depois, Francisco voltou ao seu regimento para fazer parte da guarnição do Forte Mifflin, na Ilha Mud, no Delaware, que os ingleses acabariam por conquistar na Batalha de Germantown, a 4 de outubro.
Voltou a combater em junho de 1778 na Batalha de Monmouth, New Jersey, e foi novamente atingido por uma bala de mosquete na coxa direita. Depois de recuperar, em 15 de julho de 1779, Francisco ajudou a invadir o forte britânico de Stony Point, no rio Hudson, e sofreu um ferimento de baioneta de nove polegadas no abdómen, mas matou três britânicos e apanhou a bandeira inglesa que estava no mastro do forte e que entregou ao seu comandante, general Nathanael Greene (1742-1786).
A fama da bravura de Pedro Francisco começou nessa altura a correr pelas colónias, chamavam-lhe o “Gigante da Virgínia” ou “Hércules da Revolução”.
O seu alistamento terminou em 1779 e Francisco voltou para a Virgínia, onde decidiu alistar-se num novo regimento comandado pelo coronel William Mayo. Na Batalha de Camden, Carolina do Sul, dia 16 de agosto de 1780, Francisco salvou a vida a Mayo que tinha sido capturado por três ingleses, matando os seus captores.
Anos depois, Mayo presenteou Francisco com a sua pequena espada de gala e essa espada é preservada pela Virginia Historical Society em Richmond, bem como um estojo da barba oferecido pelo general Greene.
Francisco realizou depois a sua mais lendária proeza. Durante uma retirada das forças coloniais, avistou um canhão abandonado na lama e, não querendo que os ingleses se apoderassem da arma, carregou aos ombros o canhão de 150 quilos e levou-o para um vagão onde ficou a salvo.
Francisco voltou para a Virgínia e alistou-se numa unidade de cavalaria. Um dia, conversando com outros soldados, o jovem veterano reclamou que a espada que usava parecia mais um palito dos dentes e a queixa chegou ao conhecimento do general George Washington, que terá dado ordens para que uma espada especial com 1,80m de comprimento e 1,5m de lâmina fosse forjada para Francisco.
A nova espada teria sido entregue a Francisco em 13 de março de 1781, dois dias antes da batalha de Guilford Court House, Carolina do Norte, que levou à capitulação britânica e onde Francisco abateu 11 ingleses.
Francisco assistiu à rendição dos ingleses em Yorktown a 19 de outubro de 1781, marcando o fim decisivo da Guerra da Independência e regressou a casa. Durante a viagem, parou na Ward’s Tavern em Nottoway County. Estava a beber uma caneca de cerveja quando entraram nove soldados ingleses e um deles apontou a espada a Francisco e exigiu as grandes fivelas de prata que ele tinha nos sapatos. Quando o inglês se baixou para arrancar as fivelas, Francisco apoderou-se da espada dele e quase decapitou o pobre. Foi ferido a tiro, mas expulsou todos os ingleses e ficou-lhes com os cavalos.
Pedro Francisco tornou-se agricultor e por algum tempo dono de tabernas nos condados de Cumberland e Buckingham. Apesar da idade, priorizou a educação, foi admitido na escola particular de John McGraw e, em três anos, já lia e escrevia. Tornou-se mesmo um ávido leitor e criou a sua própria biblioteca.
Casou três vezes. Em 1784, casou com Susannah Anderson e tiveram um filho e uma filha. Susannah morreu em 1790 e, em 1794, Francisco casou com Catherine Fauntleroy Brooke e tiveram quatro filhos. Catherine morreu em 1821 e, em 1823, Francisco casou pela terceira vez com Mary Grymes West, viúva de um fazendeiro da Virgínia.
A bravura de Francisco tornou-o assunto de artigos de jornal e livros, o seu heroísmo virou lenda.
Nos seus últimos anos, teve dificuldades económicas e foi-lhe atribuída uma pensão de oito dólares mensais e, de 1825 até à sua morte, serviu como sargento de armas para a Câmara dos Delegados da Virgínia, cabendo-lhe a segurança e ordem das instalações.
Em janeiro de 1831, Francisco desenvolveu doença abdominal, provavelmente apendicite, morreu em Richmond a 16 de janeiro, aos 70 anos. Foi enterrado dia 18 de janeiro com honras militares no cemitério Shockoe Hill.
Winston nunca se preocupou em saber quem era o menino que acolhera (havia mesmo quem dissesse que era filho ilegítimo do juiz), mas com Pedro Francisco convertido em herói nacional muitos procuraram saber quais seriam as suas origens. Mas a teoria lusa era geralmente aceite e, muito antes disso ter sido de algum modo confirmado, já se publicavam livros afirmando que Pedro Francisco seria português e era aceite como tal pela comunidade luso-americana.
Em 1960, John E. Manahan, professor da Universidade da Virgínia, passou sete meses em investigações nas ilhas da Graciosa, São Jorge e Terceira, nos Açores. Na igreja de Santo António da freguesia de Porto Judeu, na Terceira, Manahan descobriu um menino chamado Pedro Francisco, nascido a 9 de julho de 1760 e filho de Luíz Francisco Machado e Antónia Maria de São José.
Ao que parece, os pais de Pedro Francisco eram naturais de Portugal continental e uma família relativamente rica e nobre que se estabeleceu na Ilha Terceira distanciando-se dos inimigos pessoais ou políticos no continente.
Manahan não encontrou nenhum outro registo de casamento ou morte desse Pedro Francisco, embora existissem da irmã e de um irmão mais velho. Perante isto, Manahan teorizou que Pedro Francisco seria o menino abandonado em City Point e em Porto Judeu existe hoje uma estátua de Francisco menino.
Pedro Francisco passou a ser, na sua biografia oficial, “a portuguese born american patriot and soldier in the American Revolutionary War” e a comunidade luso-americana, que já aceitava este ilustre antepassado, ficou satisfeita com esta confirmação da sua nacionalidade.
A fama das proezas de combate de Francisco foi aos poucos dando lugar a uma série de monumentos. Na Carolina do Norte, foi inaugurada em 1904 uma coluna de granito no Guilford Court House National Military Park e que marca o local onde o herói derrubou 11 soldados britânicos.
A associação mutualista União Continental Portuguesa, de Boston, criou em 1957 um Prémio Peter Francisco atribuído a entidades que contribuem para a promoção das relações luso-americanas e o primeiro a receber a medalha foi o presidente John F. Kennedy, quando era senador.
Quatro estados – Massachusetts, Rhode Island, Virgínia e Maryland – designaram 15 de março como Dia de Pedro Francisco e em Massachusetts a iniciativa partiu do senador estadual Edmund Dinis, de New Bedford, mais tarde promotor de justiça do condado de Bristol e dono da rádio portuguesa WJFD-FM. Em 1954, Dinis decidiu propor a data da batalha de Guilford Courthouse, 15 de março, como Dia de Pedro Francisco em Massachusetts pelo facto de haver neste estado numerosa comunidade portuguesa, da qual pressupostamente Francisco faz parte.
Virgínia não podia deixar de ter também o seu dia de Pedro Francisco visto o herói ter vivido e morrido ali. Em 1973, o governador Linwood Holton assinou a proclamação declarando 15 de março como Peter Francisco Day.
Em 2013, o governador Martin O’Malley assinou a proclamação designando 15 de março como Peter Francisco Day no estado de Maryland e, mais recentemente, em Rhode Island, o governador Lincoln Chafee proclamou 15 de março como Peter Francisco Day.
Em 1975, o Serviço Postal dos Estados Unidos emitiu um selo de 18 cêntimos com a imagem de Francisco de canhão ao ombro e a seguinte legenda: “Peter Francisco, lutador extraordinário”.
Em New Bedford, Massachusetts, existe uma praça com o nome de Peter Francisco um monumento dedicado ao herói, e em Newark, New Jersey, existe também o Largo Pedro Francisco, com um obelisco dedicado a Francisco.
Pode concluir-se que os norte-americanos em geral e os luso-americanos em particular têm sabido honrar a memória de Pedro Francisco, mas é caso para perguntar: em Portugal, onde ele nasceu, quantos portugueses sabem quem foi Pedro Francisco?



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