Os novos donos disto tudo

by | Apr 29, 2026 | Crónica do Atlântico

 

Há uma nova casta dirigente que nasceu nos poderes administrativos da nossa Região e do Estado  português: são os decisores da papelada, historicamente conhecidos como os mangas de alpaca, burocratas nos dias de hoje, servem para infernizar as nossas vidas.

Vivemos no “maravilhoso” labirinto do papel e até mesmo do digital, quando a ferramenta utilizada é maltratada por quem não quer facilitar a vida dos cidadãos. Segundo a IA, a burocracia é a única religião verdadeiramente universal: tem templos (repartições), rituais (formulários) e deuses que nunca aparecem (diretores ou administradores de máquinas pesadíssimas do carimbo).

Diz-se que Deus criou o mundo em seis dias. Se tivesse passado pelo crivo da Administração Pública, ao sétimo dia ainda estaria a preencher um formulário. A plataforma do Subsídio Social de Mobilidade é a arte suprema da burrice burocrática, onde somos tratados como um número à espera que o sistema “actualize”.

O ministro que inventou aquilo devia figurar na bíblia dos monges da paciência alheia.

Antes, perdíamos tardes em filas. Agora, perdemos noites a tentar fazer uploads, corrigir erros imperceptíveis e, no final, horas e dias perdidos a favor de um Estado malandrão.

A plataforma é um pequeno exemplo da imensa paralisia da administração central, mas descemos mais abaixo e temos outros exemplos similares, nomeadamente na nossa administração regional.

O jornal Ilha Maior, do Pico, revelou na semana passada que a estrutura do cais de acostagem no Terminal Marítimo João Quaresma, na Madalena, onde estão instalados os cabeços de amarração, encontra-se em franca degradação, causando crescente preocupação entre os profissionais da empresa Atlânticoline que opera regularmente naquela infraestrutura. 

O caso foi transmitido há mais de um ano – exactamente, há mais de um ano! – à Atlânticoline e à Portos dos Açores, “com os profissionais a alertarem para potenciais riscos na operação, sobretudo em condições meteorológicas adversas”, mas até agora não há sinais de intervenção.

Lembram-se do acidente de 14 de novembro de 2014, em São Roque do Pico, em que morreu um passageiro de um barco da Transmaçor, porque houve falta de manutenção dos cabeços de amarração do porto? Toda a gente empurrou responsabilidades.

Desta vez, a denúncia deve andar a circular de secretária em secretária, nos confortáveis gabinetes dos poderes administrativos regionais, com a burocracia a pagar as responsabilidades, à espera que haja mais uma desgraça.

Entretanto, a Portos dos Açores já veio confirmar o problema e garante que está a trabalhar com vista á respectiva resolução. Um ano depois!

Pior do que esta praga do empata,, é a doença endémica do bairrismo, agora renascido por forças minoritárias, com a complacência de quem não sabe decidir.

Se uma ilha tem, a outra tem que ter. Se apenas uma pode ter, o melhor é nenhuma ter. 

E andamos nisto, a empatar investimentos e projectos estruturais, ficando para trás no comboio do desenvolvimento.

Os burocratas do sistema são como um vírus, transmitindo a doença em toda a estrutura pública, de alto a baixo.

Vamos descer ainda mais um pouco, até à administração local.

O Provedor da Santa Casa da Misericórdia da Ribeira Grande denunciou há poucos dias, no jornal Audiência, que anda há quase três anos para obter uma licença da Câmara Municipal da Ribeira Grande para juntar numa só casa três ATL’s, destinada a 120 crianças de Rabo de Peixe.

Diz Nelson Correia que, no calvário desta burocracia camarária, “são exigidos documentos às vezes que não há necessidade de exigir, só na fase final, e depois esgotam todos os prazos que são possíveis; se há 90 dias para dar um parecer, é ao 90º dia que se dá o parecer. É uma coisa incrível. E a sensibilidade da parte urbanística da Câmara, do gabinete de licenças da Câmara é uma desgraça. Não há sensibilidade, julgo que aquilo é fazer sofrer os outros”.

Resultado: o dinâmico e corajoso Provedor afirma, sem rodeios, que os serviços da autarquia precisam de “uma boa vassourada”!

É o sentimento popular quando saímos de uma repartição do Estado, do Governo Regional ou de uma autarquia.

Entrar num edifício dos Paços de Concelho, em muitos municípios por esta Região fora, é um exercício de nervosa incerteza perante uma espécie de poder divino que se instala por detrás dos balcões, muito à imagem e semelhança deste oráculo de papel selado que são as Repartições de Finanças.

O sistema, em todas as administrações, parece desenhado para implorarmos celeridade naquilo que ‘eles’ acham que a máquina está apenas vocacionada para nos manter todos iguais: aguarda na fila, espera a tua vez e se faltar algum papel volta amanhã.

E se queres vencer o sistema, desiste. 

O sistema foi desenhado para que a única saída seja a entrada de… outro processo!

 

0 Comments

Related Articles