O papel da Espiritualidade em Saúde Mental

by | Sep 24, 2025 | Haja Saúde

“O que olha para fora, sonha, o que olha para dentro, acorda”                        – Karl Jung

Este é um assunto que penso não ser de modo algum controverso, e de que felizmente a comunidade médica gradualmente tem sido encorajada a incorporar na sua prática clínica. Um artigo recente da Dra. Helen Lavretsky (UCLA) sumariza de modo muito interessante a necessidade de um novo olhar ao “Retorno da Alma”.

No que respeita a tratamentos para doenças do foro psiquiátrico, a medicação habitual apesar de claramente ajudar o sofrimento do doente, tem evidentes limitações: estes medicamentos raramente ajudam um indivíduo a sentir-se feliz ou capaz de controlar a sua vida. A psicoterapia pode ajudar, mas poucos podem cobrir os seus custos ou mesmo encontrar um terapeuta qualificado. Os tratamentos de estimulação cerebral só oferecem melhoras por um período curto, e os novos tratamentos psicadélicos, para além de controversos, não oferecem soluções práticas. Por estas e outras razões os investigadores cada vez mais propõem a inclusão do que alguns chamam o velho amigo de todos os seres humanos, a sua alma. A psiquiatria tradicional tem focado principalmente na gestão de sintomas e frequentemente negligencia as questões existenciais mais profundas que podem ter um grande impacto na saúde mental. Note o/a leitor/a que 80% da população americana endossa crenças religiosas ou espirituais e faz sentido que a psiquiatria tenha este fator em séria consideração.

A diferenca entre religião e espiritualidade é importante: a religiosidade é caracterizada por crenças específicas, práticas, doutrinas e rituais de modo bem estruturado o que nutre um forte sentido de pertencer a um determinado grupo. Desse modo, as comunidades religiosas agem como redes de apoio, o que alivia o sentido de isolamento e solidão. Por outro lado, a espiritualidade apresenta-se mais como um jornada individual focada na procura de significado e propósito. Dito isto, é também importante lembrar que espiritualidade e religião se encontram associadas na maior parte das vezes.

Muitos doentes psiquiátricos parecem agarrados a questões existenciais sobre sofrimento, mortalidade e finalidade, tal como nos estados depressivos em que o indivíduo frequentemente sente culpa, falta de esperança, e perda de fé, sendo a ocasião propícia para que a espiritualidade seja encorajada, o que pode facilitar o processo de cura. Como exemplo, o luto prolongado pode beneficiar de crenças sobre a vida após a morte, e providenciar uma aproximação da cura através de rezas ou rituais. O mesmo se poderá aplicar ao apoio psiquiátrico a doentes com doenças terminais ou com desconforto ou medo da sua própria mortalidade.

Os médicos no passado incluiam o dominio espiritual na sua reocupação com o bem-estar total dos seus doentes, tal como os outros pilares da saúde, mental, emocional, físico, ambiental e social. É tempo de voltar a esta prática.

Haja saúde!

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