Lendas do Futebol, Batata-doce Açoriana, Símbolos de Portugal e Avenida Portugal

by | Mar 25, 2026 | Expressamendes

 

“Clarkie” Souza e outras lendas do “soccer”

“Clarkie” Souza morreu há 14 anos, no dia 11 de março de 2012. Morreu em Dover, Pennsylvania e foi sepultado no cemitério nacional de Bourne, no Cape Cod, uma vez que era veterano. Tinha sido marujo num navio que operou no Pacífico sul durante a II Guerra Mundial.

John Souza-Benevides de seu verdadeiro nome, nasceu em Fall River a 12 de julho de 1920, filho de açorianos e ganhou a alcunha de Clarkie nos campos de futebol por ser parecido com o ator Clark Gable.

Considerado um dos maiores futebolistas americanos de sempre, foi internacional 14 vezes entre 1947 e 1954, numa época em que os jogos internacionais da seleção dos EUA eram como a Páscoa, uma vez no ano.

Os que viram jogar “Clarkie” Souza dizem que poderia ter sido profissional em qualquer parte do mundo, mas trabalhava longas horas nas fábricas de Fall River e jogava ao domingo pelo Ponta Delgada Soccer Club. Ainda assim jogou até aos 40 anos.

Fundado em 1915 por imigrantes micaelenses de Fall River, o Ponta Delgada Soccer Club instalou-se na Shove Street, em Tiverton, RI, para evitar as Blue Laws que vigoravam em Massachusetts e prejudicavam a venda do bagaço e cerveja no bar do clube.

Eram os tempos da Grande Depressão e das grandes reivindicações laborais. Mas Fall River tinha mais de uma centena de fábricas e milhares de imigrantes ingleses, irlandeses, franco-canadenses, italianos, polacos e portugueses, que trabalhavam duro e queriam divertir-se ao domingo assistindo ao seu desporto favorito, o jogo do pontapé na bola que os americanos chamam de soccer.

Além do Ponta Delgada, existiam na cidade outros quatro clubes mais ou menos profissionais: Fall River Marksmen, Fall River Rovers, Fall River Football Club e Fall River United.

O Marksmen pertencia a Sam Mark, tinha o seu próprio campo (Mark’s Stadium) e, quando o público começou a rarear, o dono mudou a equipa para New York, passando a chamar-se Yankees. Já no fim, instalou-se em New Bedford e passou a ser Whalers.

Quer se chamasse Marksmen, Yankees ou Whalers, o astro era outro lusodescendente, Adelino William (Billy) Gonsalves, nascido em 1908 em Portsmouth, RI e um dos sete filhos de um casal madeirense chegado dois anos antes aos EUA.

Billy Gonsalves começou a jogar aos 14 anos no Pionner Club, depois na equipa da Charlton Mill e no Liberal Club, mas o Lusitania de Cambridge, acenou-lhe com um contrato profissional.

Billy Gonsalves ganhou a alcunha de “Piano Legs” e foi a maior estrela do soccer no seu tempo, sendo considerado o “Babe Ruth of american soccer”.

Faleceu em 1977, com 69 anos, e figura no National Soccer Hall of Fame, em Oneonta, NY, onde também vamos encontrar “Clarkie” Souza e Ed Souza, do Ponta Delgada Soccer Club, onde Gonsalves nunca jogou, esclareça-se.

O Ponta Delgada, que deixou de existir em 2008, quando já passara a chamar-se Patriot’s Bar and Grille, teve uma das melhores equipas do país, vencendo várias vezes a U.S. Amateur Cup e a U.S. Challenge Cup.

Um dos seus craques foi o sindicalista Mariano S. Bishop (Bispo), nascido em S. Miguel, que veio a ser vice-presidente da Textile Workers Union of America e tem hoje o nome numa avenida em Fall River.

Cinco jogadores do Ponta Delgada fizeram parte da seleção dos EUA que participou nos Jogos Olímpicos de Londres, em 1948: Joe “Za Za” Ferreira, Manuel Oliveira “Youngie” Martin, Ed Souza, “Clarkie” Souza e Joseph Rego Costa, que era capitão da equipa.

“Clarkie” e Ed Souza não eram familiares embora partilhassem o apelido. “Clarkie” era de Fall River e Ed, que se chamava Eduardo Souza Neto, era de Warren, RI, onde faleceu em 1979. Ambos fizeram também parte da seleção dos EUA no Mundial de 1950, que ainda hoje deixa os ingleses em estado de choque.

Era o terceiro campeonato mundial de futebol, que então se chamava Taça Jules Rimet, em homenagem ao presidente da Federação Internacional de Futebol (FIFA) que, em 1928, teve a ideia de reunir de quatro em quatro anos seleções nacionais na disputa de um campeonato mundial, o primeiro dos quais foi no Uruguai em 1930. A seleção uruguaia sagrou-se campeã e a dos EUA, de que fazia parte Billy Gonsalves, foi terceira.

O Mundial de 1950 foi o quarto (entre 1942 e 1946, a competição foi suspensa devido à II Guerra Mundial) e teve lugar no Brasil, que perdeu 2-1 com o Uruguai na final no recém inaugurado Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, mas o jogo de que ainda hoje se fala foi o Inglaterra-EUA a 29 de junho de 1950, no Estádio Independência, em Belo Horizante.

Os ingleses eram tão favoritos que uma casa londrina de apostas ofereceu 500 para 1 às pessoas que apostassem nos americanos antes do jogo. A crença na vitória fácil era tanta que o técnico inglês deu folga aos seus principais jogadores, entre os quais Stanley Matthews. Porém, aos 39 minutos do primeiro tempo, um imigrante haitiano que lavava pratos num restaurante de New York, Joe Gaetjens, recebeu um passe de Walter Bahr e fez um dos resultados mais inesperados da história do futebol. Gaetjens faleceu novo, em 1964, aos 40 anos.

Quando o telegrama com o resultado do jogo chegou a Londres, os britânicos pensaram de imediato que se tratava de erro e que o resultado não era 0-1 mas sim 10-1, considerando que os inventores do jogo não podiam ter perdido com os incipientes americanos. Alguns jornais publicaram a vitória de Inglaterra por 10-1, num erro comparado ao famoso título “Dewey Beats Truman” do Chicago Tribune de 3 de novembro de 1948, declarando o triunfo do republicano Thomas E. Dewey, quando na verdade o democrata Harry Truman foi reeleito presidente.

A história está contada em livro por Geoffrey Douglas (“The Game of Their Lives: The Untold Story of World Cup’s Biggest Upset”) e em filme de 2005 realizado por David Anspaugh (“The Game of Their Lives”) e onde Nelson Vargas interpreta “Clarkie” Souza.

Depois do Mundial de 1950, os americanos demorariam 40 anos para voltar a participar na fase final de um Mundial, o que só ocorreu em 1990, em Itália.

A seleção americana regressou do Brasil sem fanfarras, a maioria dos americanos nem sequer soube do triunfo sobre a Inglaterra, tanto mais que os EUA terminaram em último no seu grupo e foram eliminados.

Regressado do Brasil, “Clarkie” não voltou ao Ponta Delgada, passou a representar o New York German Hungarian e conquistou a US Amateur Cup de 1951.

Quando deixou o futebol, ficou perto de uma das filhas, Judy Souza Minkoff, em Long Island. Depois da morte da esposa, mudou-se para Dover para estar mais perto da outra filha, Marsha Carupella. Nos últimos anos, viveu num lar da terceira idade em York Township e era o maior leitor da biblioteca local.

Já foi escrito que “Clarkie” Souza foi no soccer o que Bobby Orr foi no hóquei no gelo. Terá sido o melhor futebolista norte-americano de sempre? Mesmo que não tenha sido, está com certeza entre os melhores.


Os açorianos e a batata-doce

A batata-doce, também conhecida como batata da ilha, faz parte da alimentação dos açorianos desde o séc. XVI. É originária da América do Sul, chegou aos Açores nas naus vindas dos trópicos que escalavam a ilha Terceira e há registo de que a sua cultura já era feita pelos açorianos em 1538, tendo boas condições de cultivo em todas as ilhas. O cronista Gaspar Frutuoso refere que “uma vez cozida ou assada servia de alimento à gente pobre e de guloseima à gente rica”.

Portanto, os açorianos conhecem há muito a batata-doce e não surpreende que um imigrante açoriano passe por ser o introdutor do cultivo deste tubérculo nos EUA ou pelo menos na Califórnia. Há notícia de que, em 1888, o açoriano João B. Ávila comprou 20 acres de terra perto de Merced e iniciou o cultivo da batata-doce, que depois se espalhou por outras áreas, especialmente no Vale de Sacramento e San Joaquin.

Há cem anos, João B. Ávila foi o “rei da batata-doce” e, por coincidência, o título pertence presentemente a outro açoriano, Manuel Vieira, natural da ilha do Pico.

Manuel Vieira deixou a sua ilha com 17 anos, esteve primeiro no Rio de Janeiro e chegou aos EUA em 1972, fixando-se na Califórnia. Vive perto da cidade de Livingston e produz anualmente largas toneladas de batata-doce que comercializa nos EUA, Canadá e México.

Curiosamente, a batata-doce já era cultivada pelos índios mexicanos muito antes dos europeus terem chegado ao continente americano, mas faltou-lhes a iniciativa do João Ávila ou do Manuel Vieira.


 

Símbolos de Portugal

Num estudo realizado há tempos na costa leste dos EUA e no qual era pedido aos inqueridos que identificassem o país que correspondia a 20 imagens turísticas de países de todo o mundo, 100% dos entrevistados reconheceram a Estátua da Liberdade como a imagem turística dos EUA e o canguru ficou em segundo lugar, com 98,3% das pessoas a reconhecer o saltitante marsupial como animal originário da Austrália. A parisiense Torre Eiffel ficou em terceiro lugar, enquanto o coala, outro mamífero australiano como o canguru, ficou em quarto lugar reconhecido por 91%.

A notícia não refere se no inquérito havia imagens portuguesas, mas é caso para perguntar quais serão os símbolos que os americanos conhecem melhor e relacionam com Portugal?

A Torre de Belém e o barco rabelo são candidatos, mas por enquanto o símbolo português mais conhecido dos americanos é uma garrafa de vinho e dá pelo nome de Mateus Rosé.


 

Avenida Portugal em Newark

Nos primórdios do século passado, a comunidade alemã em Newark, NJ, era influente e muitas artérias tinham nomes alemães. Veio a I Guerra Mundial (1914-18), Newark baniu os topónimos alemães e ficou renitente aos topónimos estrangeiros, nomeadamente portugueses. Hoje, a comunidade portuguesa é economicamente tão influente como eram os alemães há 90 e tal anos, mas a rua dos portugueses, Ferry Street, apenas se torna Avenida Portugal nas celebrações do 10 de Junho. A única exceção quanto a topónimos lusófonos em Newark é a Peter Francisco Square.


A terminar

Não adianta tentar explicar as preferências do público, pois, como dizia Millôr Fernandes, desde que o mundo é mundo, o pôr do sol tem mais espetadores do que o nascer do sol.

E já agora, como dizia famoso slogan dos colchões brasileiros Ortobom, as razões para uma noite mal dormida só podem ser um colchão muito mau ou uma mulher muito boa.

 

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