Nos Açores, até as crises políticas têm um ritmo próprio: começam com ligeiro chuvisco, algumas nuvens negras e acabam em tempestade.
A extrema unção declarada por José Manuel Bolieiro, há muito esperada na sede do partido, é a réstia de esperança do PSD para voltar a ganhar eleições, porque fará, certamente, uma campanha como alternativa à própria coligação que liderou.
O discurso poderá parecer estranho, mas ainda há muitos eleitores, no PSD profundo, que acreditam que esta governação descambou porque Bolieiro esteve sempre condicionado pelos parceiros da coligação.
No fundo, tínhamos três governos.
Resta saber se o PSD ainda vai a tempo e se quer prolongar o calvário por mais dois anos.
Há que reconhecer que a coligação esteve bem no seu arranque, prometia algumas reformas e tomou medidas que ajudaram a alavancar a mobilidade e a economia.
Depois deitou-se a dormir, chamou à governação protagonistas errados, cometeu imensos disparates e deixou-se enredar em capelinhas internas que protegiam as suas clientelas.
Este segundo governo de Bolieiro nunca foi governo. Transformou-se numa jangada sem vela, com três náufragos a remar cada um para seu lado.
Perante este cenário de desatino, o que se esperava da oposição, na próxima sessão parlamentar, era a apresentação de uma moção de censura e não uma de confiança, como desafia o Chega.
Só que ninguém quer ficar com o ónus da queda e a provocação de novas eleições.
Por outro lado, ao PS interessa que esta situação de desgaste do governo se arraste, porque dá mais tempo ao seu novo líder, que ainda não encontrou o caminho certo para convencer o eleitorado.
Se Francisco César cometeu o erro de assumir o seu lugar na Assembleia da República, descurando a liderança regional, tem agora uma boa oportunidade para suspender o mandato e regressar à liderança interna a tempo inteiro, em vez dos fins de semana.
Quanto à coligação, se já estava enfraquecida e sem muita credibilidade popular, agora está esfrangalhada e com o selo de extinção a prazo.
Daqui por diante vamos ter uma governação fragilizada, cada vez mais impopular e já sem remédio de renovação.
Em vez da remodelação, Bolieiro devia ir já pensando como se vai desembaraçar desta crise depois do Verão, até porque – sabemos nós – não é crível que o novo Presidente da República aceite a demissão do governo se houver chumbo do próximo Plano e Orçamento.
Não é obrigatória a queda do governo e António José Seguro, que privilegia a estabilidade, pode-se agarrar à nova lei de enquadramento orçamental, que dá mais folga à governação por duodécimos.
Penso que caminhamos para um cenário em que Bolieiro vai ter que assumir a demissão com o argumento de que não tem condições para governar.
Não me parece que a oposição lhe faça a vontade, neste novo cenário político, porque já percebeu que terá mais benefícios eleitorais se deixar o governo arrastar-se neste desgaste autofágico.
Os falhanços desta coligação, que são muitos, vão continuar a reflectir-se na vida dos açorianos: é a desastrosa privatização da SATA, o escandaloso atraso na recuperação do HDES, a saída da Ryanair, a queda acentuada do turismo, o aumento do custo de vida, o cada vez mais difícil acesso aos cuidados de saúde com listas de espera a voltar aos tempos antigos, a falta de firmeza na vergonhosa nova versão do Subsídio Social de Mobilidade, o atraso na revisão da Lei de Finanças Regionais, enfim, tudo a andar para trás.
A última desorientação veio com o aumento do preço dos combustíveis e o Presidente do Governo a dizer-se preocupado.
Ou seja, preocupado com uma medida tomada pelo seu próprio governo!
Aprendessem com o Governo da Madeira, que desde o dia 6 de Abril, no início da crise dos preços, já tinha decidido um pacote de medidas de apoio às famílias e empresas, com a garantia de que o preço dos combustíveis nunca seria superior ao do Continente.
Na crise financeira de 2012 e durante a pandemia, os governos regionais de então tomaram medidas extraordinárias para superar a crise.
Não se percebe o rumo desta coligação perante a actual crise energética, como nunca se percebeu que rumo nos quis dar durante estes últimos dois anos.
Caso para dizer que os açorianos têm boas razões para desejar a esta coligação: paz à sua alma!




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