Quem chega à minha idade, acabada de se acomodar na casa dos setenta, fica farto de saber que vivemos num mundo louco e todo o cuidado é pouco para não nos deixarmos enredar nessa entrelaçada loucura hoje teia atrevida que não havia quando crescemos, e agora vemos crescer à nossa volta, de forma preocupante. É a teia demasiadas vezes tecida em jeito de manhosa armadilha a querer tramar-nos no arisco sururu das redes sociais. Todos percebemos e até, de certo modo, agradecemos todas as proveitosas vantagens do progresso tecnológico a facilitar-nos a vida que é pena levarmos cada vez mais apressada nos correntes dias a deslizarem à nossa frente sem, por vezes, sequer nos deixarem respirar convenientemente. Esse é que é o mal, nem respirarmos com jeito por monde destas pressas hodiernas com que vivemos aptos a sabermos praticamente tudo e mais alguma coisa em tempo quase nenhum. Já fui nisso, mas ainda bem que me vou libertando desse tipo de stress que só nos faz mal à saúde. Com o andar da idade, tenho-me deixado seduzir pela saudade das terapêuticas calmas desses tempos em que fomos habituados a ver carroças pacientemente arrastadas por burros teimosos, tal como bois também descansadamente a puxarem carros vagarosos, e agora irrita-me imenso a presente falta de paciência que evidenciamos ao insistirmos nessa burrice de querermos levar os carros adiante dos bois.
Daí, trazer para aqui esse desassossego fervilhante dessas matreiras redes, no seu pior, quando quase mal nos deixam respirar, desinquietos que andamos para darmos coices, por tudo e por nada, em quem nos vem toldar as ideias ou contrariar os ideais. Idealista por natureza, gozado em novo por andar demasiado pelas nuvens, sempre sonhei com paz e sossego como ingredientes indispensáveis à minha forma de viver e vontade de conviver. Sempre me vi avesso a zaragatas quezilentas bem como a pessoas perturbadoras da harmonia social. Todo e qualquer ruído desnecessário faz-me mal. Dos necessários, no entanto, que remédio senão tolera-los? Costumo dormir com a janela do meu quarto de cama entreaberta nestas serenas madrugadas primaveris e nada me irrita mais do que o estridente apitar dos comboios estragando-me a musicalidade matinal dos pássaros entretidos a saltitarem dos ramos das árvores do meu quintal para os quintais vizinhos em harmonioso vaivém que dá gosto ouvir. São animais que me agradam no melodioso jeito como se comportam. Por isso, ao abrir o computador, se paro no facebook, indispõe-me logo esse rude “ruído” digitado por gente cismada em tratar-se mal, insultando-se porcamente, sem apelo nem agravo.
Claro que é grave – gravíssimo mesmo. E porque será que rotulamos esse seu feio comportamento “de se se portarem como animais”, quando o porte destes, acaba por mostrar-se tantas vezes mais digno de ser seguido? Se é facto, cientificamente reconhecido, os irracionais não possuírem inteligência, apetece perguntar a inúmeros humanos prezados de a terem bem iluminada – para que lhes serve, afinal? Dará para entender, por exemplo, a absurda lógica dessas pessoas tão zelosas na crítica constante que fazem à estupidez da guerra entre nações e, ao mesmo tempo, tão teimosas em guerrilharem-se estupidamente por tudo e quase nada? Sobretudo a rija inflexibilidade de gente supostamente amiga, mas incapaz de se desfazer das suas incendiárias cismas em prol do bom senso, custa muito a perceber. Porque, enquanto uma pessoa (por mais alimária que pareça) será sempre pessoa, um animal não passa dum bicho. E sendo clara a distinção, intriga-me bastante essa confusa conclusão de quem opina este nosso mundo estar entregue à bicharada.
Será que está mesmo? Às vezes, parece. Tal é o ruído que nos rodeia e quase nos ensurdece, vindo de quem prefere falar para ferir palrando sem dizer nada de jeito, insistindo em cuspir palavreado teclado com veneno corroendo-lhe por dentro as odientas paredes do peito. Desgosta-me tanto ouvir da boca de qualquer pessoa, tida por ponderada, linguagem envenenada e automaticamente rotulada de lixo. Quando assim acontece, mal começo a sentir a mente atordoada por esse azedo zunzum da desumana bicharada, recorro logo ao calmante prazer dum bom mata-bicho. A gente não é que se faz e cada qual, a seu belo capricho, reage como melhor lhe convém. Claro que não somos todos iguais e nada tenho contra ninguém, a não ser, nesta minha avançada idade, se me estragam essa preciosa tranquilidade, que de forma alguma dispenso hoje, sabem o que me apetece fazer? Melhor é não escrever mais.
(Prefiro o meu carro atrás dos bois).




0 Comments