Hoje, 30 de abril, foi-se-me mais um amigo. António da Silva Cordeiro. Nada que não se esperasse, pois já nem conseguia atender ao telefone. De qualquer forma, é sempre a partida de um amigo.
Nasceun a Covoada a 24 de novembro de 1935. Viveu, por isso, 90 gostosos anos, um número que poucos conseguem atingir.
Conheci-o era eu ainda bem jovem. Foi nas férias do meu 5.º ano do antigo Ciclo Preparatório. Ele estudava Clássicas na Universidade de Coimbra, depois de uns anos de estudos em Roma, ido do Seminário de Angra. Estávamos de férias e cruzámo-nos na festa da Fajã de Baixo. Coimbra era para mim um fascínio e, ao deparar com alguém que lá estudava, entrei em transe. Já contei isso e não escondo. Naquele ano, tinha lido umas quantas vezes o In Illo Tempore, de Trindade Coelho, que plantara em mim o sonho de ir para aquele paraíso de farra que o escritor de maneira tão contagiante captara. Nesse livro descobri outro, o Palito Métrico, o clássico da boa vida coimbrã que me apressei a encomendar (e ainda guardo) e que virou bíblia nesses meus anos de parvinho entusiasmado. Palermices juvenis, mas homo sum et nihil humanum a me alienum puto, frase de Terêncio que por sinal encontrei pela primeira vez num livro coimbrão, daqueles de fim de curso onde predominavam as caricaturas de Tossan e em que os amigos dos licenciados escreviam versos para saudar os jovens doutores. Era um álbum meio perdido na vetusta biblioteca do Seminário de Angra que eu lia e relia com fascínio. Um tal dr. Silvano, de S. Jorge, formara-se naquele ano e o livro da queima-das-fitas acabou encalhado ali para meu gáudio.
Voltando ao amigo Cordeiro, pois esta nota é sobre ele: mantivemos assídua correspondência porque eu lhe respondia logo que me chegava uma carta dele. Pedia-lhe que me contasse histórias de Coimbra e contava-lhe as minhas do Seminário de Angra (o meu folheto O Centenário (1963), paródia a’ Os Lusíadas, o enterro do “centenário do Seminário”, tudo uma espécie de réplica do que eu pensava Coimbra ser) e ele, com muito cuidado, ia tentando interessar-me por temas mais sérios.
Foi solista do orfeão da universidade e cantava fados em serenatas. O fado coimbrão foi algo mágico que sempre o fazia rejuvenescer, quando, mesmo já com noventa anos, lhe pedíamos para cantar mais um.
O seu regresso ao Seminário de Angra, então como professor, foi breve. Um ano depois, abalava para os EUA, decidido a recomeçar a vida. Fez um mestrado em Estudos Hispânicos no Queen’s College, onde foi aluno de Gregory Rabassa, tradutor de Gabriel García Márquez. Continuámos a escrever-nos e chegou a falar-me do seu plano para uma tese de doutoramento: A cristologia em Eça de Queiroz. A vida, porém, obrigou-o a procurar caminhos que assegurassem o pagamento das contas da família, que entretanto constituíra. Encontrámo-nos várias vezes. De uma delas, na minha casa, onde passou uns dias. A razão foi eu tê-lo convencido a concorrer a uma vaga de Estudos Portugueses no Providence College – uma história para esquecer, não por culpa dele. Sendo uma universidade católica, quando descobriram que tinha sido padre, recuaram, depois de se terem manifestado entusiasmados com a qualidade do candidato. A partir daí, o Cordeiro enterrou definitivamente a academia e prosseguiu no seu fazer pela vida na Maptours, uma arrojada e, durante muito tempo, bem-sucedida empresa de viagens entre os EUA e Portugal.
Contava ele, com graça, que um dia um emigrante micaelense entrou na agência em Newark, onde predominam continentais da região de Aveiro. O Cordeiro notou-lhe o sotaque e revelou-lhe que também era micaelense. Muito admirado, o homem perguntou-lhe: – E como foi que o senhor arranjou um trabalhinho tão bonzinho nesta terra?
Durante alguns anos, acedeu à minha insistência para escrever crónicas políticas sobre os EUA para serem publicadas no Diário dos Açores. Seguia atentissimamente a política americana e revelou-se comentador informado e perspicaz. O Osvaldo Cabral aceitou de braços abertos a sua colaboração.
Vou ter de parar porque a torrente de memórias salta em catadupa e há que contê-la. Acrescentarei que vinha todos os anos ao convívio que o Manny Chaves organizava em New Bedford, com uma extensão no seu espaço em Buzzards Bay. O Cordeiro passava uma noite em casa da sua prima, em New Bedford, e a outra era obrigatoriamente aqui em casa. No almoço e, depois, no serão, três ou quatro fados de Coimbra eram de rigor. E ele revivia esses anos universitários. Nunca se recusava. Volta e meia, íamos a Newark, ou juntávamo-nos na Pennsylvania, em casa do Joe S. Pedro. Passávamos em casa dele a dar-lhe boleia.
Mas repito: é tempo de acabar, embora as memórias não acabem.
O Cordeiro foi cremado hoje. Do corpo, restam cinzas. Dele, muitas e doces memórias.
P.S. – Para os leitores que não o conhecem, fica uma referência: era tio de Vasco Cordeiro, ex-Presidente do Governo Regional dos Açores.




0 Comments