Exaltar, catálogo de uma exposição Por Silveira Brito

by | May 20, 2026 | Reflexões de um Açoriano em Braga

 

Telefonei ao meu amigo Francisco Jorge da Silva Ferreira no fim de abril, já não me lembro a que propósito. No fim da conversa, ele perguntou-me se eu ainda não tinha recebido uma encomenda que me mandara. Respondi que não e perguntei-lhe pelo conteúdo. A resposta foi: “verás, vais gostar”. Na manhã do dia seguinte, tocou à campainha da minha porta o carteiro; trazia um volume enviado pelo Francisco. Abri; era um livro. Dei-lhe uma volta e imediatamente percebi tratar-se de uma preciosidade.

Integrada num ciclo iniciado em abril de 2022 dedicado à valorização do património cultural religioso dos Açores, em 18 de outubro de 2025 foi inaugurada, na Matriz da Praia da Vitória, uma exposição com o título “EXALTAR”; o encerramento está previsto para 27 de setembro de 2026. O livro enviado pelo Francisco Ferreira é o catálogo da referida exposição que tem curadoria, coordenação executiva e produção da Doutora Diana Gonçalves dos Santos, da Direção Regional dos Assuntos Culturais da Região. A obra tem por título completo: EXALTAR. IV Estação do ciclo LUGARES SAGRADOS – Valorização do património cultural religioso dos Açores Igreja Matriz de Santa Cruz, Praia da Vitória – Terceira [Angra do Heroísmo: Secretaria Regional da Educação, Cultura e Desporto/Direção Regional da Cultura, 2025]. 

A mostra abarca “cerca de uma centena e meia de bens culturais” e está “(c)entrada na Matriz da Praia da Vitória (…), e no conjunto de bens culturais à sua guarda” e pretende “construir um testemunho da interseção entre Arte e Fé, implícita no património cultural de cariz religioso, revelando como essa se afirma, enquanto expressão cultural e espiritual” (p. 9). 

O livro abre com um texto da Diretora Regional da Cultura, Sandra Garcia, que enquadra o volume na coleção LUGARES DO SAGRADO (p. 5), seguido de outro, com o título “A caixa-forte, o cofre de um tesoiro” (p. 7), da autoria do atual pároco da Igreja Matriz de Santa Cruz, o Cónego Hélder Fonseca Mendes, que se congratula com a iniciativa. O texto do catálogo propriamente dito, cuja qualidade é a todos os títulos notável, é, naturalmente, da autoria da curadora. 

Uma visita à exposição deve ser interessantíssima. Não tendo essa possibilidade, através do livro, do seu texto e da sua profusa ilustração fotográfica, o leitor fará uma muito frutuosa visita imaginária à exposição. Tenho vários catálogos de grande qualidade de exposições feitas a nível nacional; este, sobre a exposição do principal património da Matriz da Praia da Vitória, não fica atrás de nenhum deles. Os responsáveis pela exposição e catálogo estão de parabéns.

Ao ler o texto e ao ver as fotografias, aprendi imenso e fiz a minha imaginária visita à Matriz da Praia da Vitória, terra onde nasci e vivi até aos 19 anos. A informação obtida permitiu-me compreender algumas coisas que me tinham colocado interrogações para as quais ainda não tinha encontrado resposta, e revi, em fotografias, peças do património religioso que conheci tão bem, algumas das quais até manuseei há mais de 60 anos. Exemplos disso são a “Estante de Missal”, de madeira exótica com embutidos de osso e policromia (pp. 146-147), que tantas vezes mudei do lado da Epístola para o lado do Evangelho quando ajudava à missa, e o “Turíbulo e Naveta” (156-157), o qual, não poucas vezes, acendi por trás do altar-mor, tarefa na altura nada fácil, porque ainda não tinham chegado à Terceira os compactos de um carvão especial que hoje se usam e facilmente se acendem com um simples fósforo.

Um edifício como a Matriz da Praia da Vitória, com mais de 500 anos, naturalmente teve vários programas de obras, alguns dos quais bastante intrusivos para recuperar o edifício de danos motivados por sismos de grande intensidade. Compreende-se, por isso, que a curadora tenha dedicado um apartado ao impacto dos sismos na Matriz, a que deu o título “Os ciclos de Destruição-Reconstrução” (p. 21-33). 

A primeira grande destruição sofrida pela Matriz aconteceu na tradicionalmente designada “A «caída» da Praia de 1614” (p. 22 ss.) que arrasou a vila. A propósito desta destruição, no “Sermão ao Enterro dos Ossos dos Enforcados” pregado no Brasil em 1637, o Padre António Vieira disse: “(u)nicamente ficaram inteiras sem lesão estas três partes, ou peças daquele povo: a cadeia pública, a Casa da Misericórdia, e o púlpito da igreja maior”, símbolos, respetivamente, da justiça, da misericórdia, ou seja, da caridade, e da verdade. A autora do principal texto do catálogo fala, no parágrafo seguinte, com o título “Os sismos de 1800/1801, 1841 e 1980”, de três ciclos de destruição. Dos três, deixou memória mais duradoira a “Segunda Queda da Praia”, em 15 de junho de 1841 (p. 28), que originou, na expressão de Vitorino Nemésio, “a chamada «procissão da caída da Praia»”, que o escritor descreve na crónica “Praia da Vitória”, incluída no Corsário das Ilhas [NEMÉSIO, Vitorino – Obra Completa. Crónica II. Corsário das Ilhas. O Retrato do Semeador. Lisboa – Lajes do Pico: Imprensa Nacional – Companhia das Ilhas, 2023, pp. 155-165].

Como se disse, a Igreja Matriz da Praia da Vitória sofreu, ao longo do tempo, sucessivas intervenções, duas delas bastante profundas, nomeadamente as motivadas pelas duas “caídas da Praia” (1614 e 1841). Quando isso acontece, há sempre ganhos e perdas, porque, por um lado, nem sempre é possível salvar/reconstruir tudo e, por outro, cada época deixa as suas marcas distintivas no que realiza. Este facto é a coisa mais natural deste mundo, mas dá muitas vezes origem a choques e polémicas. A este propósito, devo confessar que tive um choque quando entrei na Matriz depois da sua reabilitação, na década de 80.

Nasci nos anos 40 e conheci bem a Matriz antes do sismo de janeiro de 1980. Quando lá entrei depois da sua aberta ao culto em 1988, embora prevenido por amigos que intervieram à época no debate sobre algumas alterações mais patentes (pp. 32-33), fiquei chocado. Refiro-me, particularmente, às pinturas a seco das paredes e pilares “executadas no século XIX” (p. 51) e tão bem descritas no livro (p. 50-57), que desapareceram. Pensando bem, eu não tinha razões para ficar surpreendido, porque, a propósito delas, em várias discussões com os meus colegas do Seminário Padre Damião defendi que se devia picar os pilares para que a pedra ficasse à vista. Quando, porém, entrei na igreja e vi os pilares nus, tive um choque e fiquei pesaroso. Sei que a decisão foi ponderada e havia um elemento importante, quase decisivo, a ter em conta, apesar do valor das pinturas, e indicado no catálogo: “(a) prioridade consistiu em assegurar a segurança de pessoas e bens” (p. 33) e as melhores pinturas “localizavam-se «precisamente na parte da parede que ameaçava ruir»” (p. 57). Não contesto a opção. Não era possível salvar tudo e havia que escolher; quando se escolhe, contudo, alguma coisa tem de ficar para trás. Mas tenho pena.

A exposição presente na Matriz da Praia da Vitória é de grande qualidade e merece demorada visita. O seu catálogo é excelente e constitui uma obra de consulta obrigatória para quem se interessa pelo património cultural e fica como repósito disponível para as gerações futuras.

 

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