Os primeiros portugueses que deram a vida pelos EUA

by | May 6, 2026 | Expressamendes

A 4 de julho de 2026, os Estados Unidos completam 250 anos de independência e os preparativos para as grandes comemorações seguem o seu curso com eventos previstos para todo o país, caso de seis espetaculares regatas de veleiros de grande porte (tall ships) de 25 países, entre os quais a Sagres, navio escola da Armada portuguesa que, antes de regressar a Portugal, visitará New Bedford de 19 a 23 de julho.

Entretanto, iremos lembrar aqui portugueses que ajudaram a escrever as primeiras páginas da história dos Estados Unidos combatendo na guerra da independência (1775-1783), cujo herói mais popular continua sendo o português Peter Francisco, o legendário “Gigante da Revolução”.

Contudo, além de Peter Francisco, outros portugueses combateram pela independência dos Estados Unidos, uma vez que já existiam centenas de imigrantes portugueses nas colónias britânicas da América do Norte.

A principal fonte de imigração portuguesa para os Estados Unidos antes da independência foi a indústria baleeira da Nova Inglaterra, que atraiu jovens açorianos em busca de aventura e oportunidades, longe da sua vida camponesa e de pobreza nas ilhas.

Em 1790, o primeiro censo populacional deu conta de 24.000 imigrantes portugueses a residir nos Estados Unidos e existem registos de que, em 1780, homens do Faial, Pico, São Jorge, Flores e Corvo faziam parte das tripulações de duas centenas de navios baleeiros americanos.

Com o início da Guerra da Independência a caça à baleia foi praticamente interrompida e, por outro lado, o Parlamento inglês aprovou uma lei que obrigava todos os prisioneiros capturados a bordo dos navios americanos a trabalhar como marinheiros nos navios de guerra britânicos. Como resultado, muitos baleeiros portugueses de Nantucket, Martha’s Vineyard e outros portos baleeiros americanos, incluindo os de New York, Rhode Island e Massachusetts, foram recrutados à força para a Marinha Real Britânica.

Ao tempo vivia também nas colónias de New York e Virginia um numeroso grupo de judeus portugueses.

Estes indivíduos eram judeus sefarditas, que é o nome atribuído aos judeus da Península Ibérica, e deixaram Portugal devido à Inquisição, fixando-se na Holanda e em Inglaterra.

Em 1630, a Holanda conquistou o nordeste do Brasil, região de Pernambuco que passou a chamar-se Nova Holanda, e muitos judeus portugueses fixaram-se nas cidades de Olinda e Recife. Em 1654, Portugal reconquistou Pernambuco e os judeus partiram de regresso à Holanda, mas um grupo de 23 refugiados (seis homens casados e dois solteiros, duas mulheres viúvas e 13 crianças), foi parar à colónia holandesa de Nova Amsterdão (atual New York) e deram início a uma comunidade que cresceu e desempenhou papéis importantes no desenvolvimento dos Estados Unidos.

 

Francis Salvador morreu em 1776

Um dos membros da comunidade judaica era Francis Salvador, judeu de ascendência portuguesa que foi o primeiro branco a morrer na Guerra da Independência. dos Estados Unidos.

Francis Salvador nasceu em 1747 numa família de origem portuguesa que residia em Londres e tinha interesses em Portugal e na América do Norte através da Companhia Britânica das Índias Orientais, mas a riqueza da família foi dizimada pelo terramoto de 1755 que devastou Lisboa, e Salvador teve que se agarrar ao que lhe restava e que eram 7.000 acres de terra no interior da Carolina do Sul.

Deixando a mulher e os quatro filhos em Inglaterra, Francis mudou-se para o distrito de Ninety Six, na Carolina do Sul, em 1773, na esperança de reconstruir a riqueza da sua família, e rapidamente se envolveu no crescente movimento independentista nas colónias. Foi eleito para o Congresso Provincial da Carolina do Sul em 1775 e tornou-se um opositor declarado do domínio britânico.

Em julho de 1776, Salvador ganhou a alcunha de “Paul Revere do Sul” quando percorreu mais de 48 quilómetros a cavalo para alertar as unidades da milícia da Carolina do Sul sobre um ataque indígena. A 1 de agosto de 1776, Salvador liderava um grupo de milicianos que foi emboscado por tropas britânicas e índios cherokee, que tinham aderido aos ingleses. Durante o combate, Salvador foi ferido e escalpelado pelos índios, vindo a falecer em consequência dos ferimentos. Tinha 29 anos. Em 1950, foi inaugurado um monumento em sua memória em Charleston.

 

José Dias morreu em 1781

Outra vítima portuguesa da guerra que ninguém lembra é José Dias, baleeiro vindo dos Açores que se fixou por volta de 1770 na ilha de Martha’s Vineyard, ao largo de Massachusetts e, a 4 de janeiro de 1780, casou com Sarah Chase Manter (1762-1822), que vivia em Holmes Hole (atual Vineyard Haven) e descendia de duas das famílias mais antigas da ilha.

Alistou-se na Continental Navy (Marinha Continental), a primeira força naval dos Estados Unidos, criada pelo Segundo Congresso Continental a 13 de outubro de 1775 para combater a Royal Navy britânica durante a guerra da Independência.

A Marinha Continental, composta por navios mercantes convertidos e algumas fragatas recém-construídas, não tinha poder para enfrentar diretamente a Royal Navy, mas desempenhou um papel crucial atacando os navios de carga que abasteciam as tropas britânicas.

Dias foi capturado pelos britânicos e esteve algum tempo preso em Inglaterra. Quando foi libertado, regressou a Martha’s Vineyard para acrescentar o seu nome à lista de membros da Igreja Batista em 1781, e embarcar novamente.

Dias voltou a ser capturado e desta vez teve menos sorte, foi enviado para o HMS Jersey, antigo navio-hospital que os britânicos tinham convertido em navio-prisão.

O Jersey era um velho navio desgastado e apodrecido, e que, incapaz de navegar, foi despojado dos mastros e cordames, e, atracado em Brooklyn, New York, com mais de 1.200 prisioneiros de guerra acorrentados nos porões.

Num artigo intitulado “A morte quase perdeu o seu poder: Doenças no navio-prisão Jersey”, a escritora e investigadora histórica Katie Turner Getty descreveu o Jersey como “um gigantesco navio de guerra de 60 canhões” que se tornou um navio-hospital e, mais tarde, uma prisão flutuante, “onde os prisioneiros morriam a um ritmo de cinco a oito homens por dia acometidos por doenças, fome, sede, vermes e temperaturas extremas”. Os mortos eram atirados ao mar ou enterrados superficialmente em dunas próximas.

Falando no Museu da Revolução Americana, o historiador Robert P. Watson descreveu o HMS Jersey como uma “arma psicológica de terror”, onde “morreram duas vezes mais americanos do que aqueles que morreram em combate durante toda a Revolução Americana”.

Segundo o Congressional Research Service, morreram na Guerra da Independência 4.435 combatentes americanos, mas Katie Turner Getty refere que só o número de mortes a bordo do Jersey como sendo de 11.644 homens e um deles foi José Dias, falecido em 1781. No cemitério de Crossways, em Tisbury, encontra-se uma lápide com os nomes de Joseph Dias Sr. e da sua esposa, Sarah Manter, mas Katie Getty acha pouco provável que o corpo de Dias tenha voltado a Vineyard, uma vez que não encontrou qualquer registo de que os mortos do Jersey tenham regressado às suas cidades natais.

“A Revolução Americana é a mais romanceada de todas as guerras dos Estados Unidos”, escreveu A. Bowdoin Van Riper, historiador e bibliotecário do Museu Martha’s Vineyard, “mas Joseph Dias recorda-nos a dura verdade por detrás do romance. A guerra por uma causa nobre não deixa de ser guerra: as pessoas boas morrem, muitas vezes em terríveis dificuldades, deixando aqueles que as amavam a lamentar e a recordar”.

 

A declaração de independência dos Estados Unidos

A independência dos Estados Unidos foi motivada principalmente pela imposição de altos impostos e restrições comerciais pela Inglaterra sobre as Treze Colónias após a Guerra dos Sete Anos.

A Inglaterra saiu vitoriosa do conflito contra a França, no entanto os gastos militares geraram uma forte crise económica no país e, para se recuperarem economicamente, os ingleses adotaram uma nova política administrativa nas colónias. No lugar da liberdade comercial que os colonos possuíam até então, criaram-se rígidas práticas de controlo.

A Inglaterra proibiu a apropriação de terras situadas a oeste e, para os gastos da guerra, criou leis rigorosas como a Lei do Açúcar, a Lei do Selo e a Lei do Chá.

A Lei do Açúcar, criada em 1764, era uma taxa adicional para o açúcar vindo de fora das colónias; a Lei do Selo em 1765, obrigava à compra de um selo para todos os documentos que circulassem na colónia; a Lei do Chá em 1773, que obrigava os colonos a consumirem somente chá de companhias britânicas.

Contra a Lei do Chá, que concedia a exclusividade de comércio desse produto à Companhia das Índias Orientais (inglesa), os colonos protestaram através do Boston Tea Party em 1772, assaltaram navios britânicos fundeados no porto de Boston e lançaram ao mar 342 caixas (45 toneladas) de chá.

Nesse mesmo contexto, os colonos passaram a alegar que os impostos eram ilegítimos porque as colónias não tinham representação no Parlamento em Londres. A ideia de “nenhum imposto sem representatividade” (no taxation without representation) passou a ser defendida pelos colonos e levaram à revolta contra a coroa. Pela primeira vez as Treze Colónias uniram-se em torno de um ideal comum, que mais tarde culminaria na Independência dos Estados Unidos.

A Inglaterra reagiu com a promulgação das “Leis Intoleráveis”, uma forma de punição aos colonos e, entre essas leis, destacam-se o encerramento do porto de Boston a todos os navios até os colonos pagarem o chá lançado ao mar no Tea Party e a obrigação das colónias fornecerem alojamento aos soldados britânicos.

Para responder à rígida política de pressão adotada pela Inglaterra, em 1774, as colónias realizaram o Primeiro Congresso Continental da Filadélfia, reunido na Pennsylvania State House, posteriormente renomeada Independence Hall, e no qual foi redigida a Primeira Declaração de Independência, que objetivava romper com a dominação metropolitana.

A reação repressiva da Inglaterra deflagrou os primeiros combates entre os colonos e as tropas britânicas em Lexington e Concord, Massachusetts, em 1775. Durante os combates, os colonos reuniram-se no Segundo Congresso Continental da Filadélfia e, a 4 de julho de 1776, foi aprovada a Declaração de Independência, um dos documentos mais influentes da história.

Em 11 de junho de 1776, o Congresso nomeou o Comité dos Cinco (John Adams, Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, Robert R. Livingston e Roger Sherman) para redigir a Declaração e o comité encarregou Jefferson de escrever o rascunho original do documento, que foi escrito entre 11 e 28 de junho de 1776 e é considerado um dos documentos mais importantes da história da humanidade.

A segunda frase da Declaração contém palavras poderosas que interessam a todos os povos: “Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, são dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis e entre estes estão a Vida, a Liberdade e a procura da Felicidade”.

 

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