“Antes morrer livres do que em paz sujeitos”, é um célebre dito inscrito às portas do histórico castelo da minha pequenina ilha berço, erguido como os demais por causa dessa temível e ameaçadora realidade à superfície da Terra – a guerra. Já viram coisa mais estúpida? Eu não. A palavra irrita-me e no seu conteúdo então o melhor é nem mexer muito porque me aborrece bastante vê-lo exprimir terror, dor, luto, lágrimas e tristeza que parece não ter fim. Toda e qualquer guerra, para mim, tal como dizia meu avô, é e será sempre coisa ruim. Lamento imenso que, infelizmente, tanta gente não pense assim, vendo a guerra até mesmo como um mal necessário. Embora perceba essa esdruxula desculpa, eu pertenço ao infinito número de quem pensa ao contrário. Não vejo absolutamente necessidade alguma de se fazerem guerras. Sempre as vi como perigosas portadoras de pesadelos. Cresci aterrorizado com esse medo constante de um dia ter de ir parar à feia Guerra do Ultramar. Deu-me e continua a dar-me muito que pensar, sempre que uma guerra explode, hoje em dia, em qualquer lugar.
Foi, sem dúvida, um enorme dia de alegria aquele da primavera mais linda da minha mocidade, quando a malta da minha idade até chorou rejubilando com os gritos da liberdade saboreada no alívio geral do povo feliz, ao ouvir – a guerra acabou. Era tão diferente aquele tempo em que ainda andávamos bem às escuras de tudo o que se passava lá ao longe, quase no outro lado do mundo, para aonde os soldados iam com receio de não voltarem. Sem televisões, computadores ou telemóveis, e com os jornais atrasados na atualidade do que ia acontecendo, era pela rádio que escutávamos o que queriam eles que ouvíssemos. Eles, os senhores donos daquilo tudo, lá fora, manipulavam a seu bel-prazer a nossa angustiante forma de viver a sofrer cá por dentro. Mães, noivas, pais, avós, irmãos, amigos, vizinhos, famílias e até comunidades, por inteiro, aguardando as notícias insertas nas ocasionais cartas do carteiro – aquilo é que era sofrer a valer. Um sofrimento sem medida que nos leva a perguntar, perplexos, quanto valerá uma vida imerecidamente perdida?
Não tem preço. É a conclusão a que chegamos, desolados com o mundo desumano em que vivemos, incapazes de nos entendermos como seres humanamente dotados de superiores capacidades que os animais irracionais não gozam na selva que os acolhe. Não seremos então, porventura, mais selvagens do que eles? A pergunta impõe-se-nos hoje naturalmente, a cada instante, ao absorvermos das televisões, telemóveis, computadores e não sei mais quê, as imagens chocantes de crianças e demais pessoas inocentes engolidas mortalmente pelo pó implacável das explosões fulminantes. Faz sentido? Claro que não. Agora é no Irão, ou no Líbano, como foi na Palestina e um pouco por todo aquele complexo Médio-Oriente em chamas que estamos também fartos de ver arder na Ucrânia – para falarmos apenas das guerras com maior cobertura mediática – deixando atrás destroços e tragédias de nos porem de juízo perdido. Por sabermos que a guerra será sempre essa explosiva temática teimosa em provar-nos que, com ela, ninguém ganha. Todos perdemos.
A não ser que, do outro lado da moeda – porque estes absurdos conflitos têm sempre duas faces antagónicas – consigamos captar aqueles brados desesperados do bom povo ucraniano, libanês ou iraniano, para nos cingirmos apenas a estes presentemente alvejados países desejosos duma paz duradoira e saudável. Pois qualquer tipo de paz podre também não é lá muito recomendável. Daí o heroico propósito por detrás dos dramáticos protestos que, há poucas semanas – se bem se lembram – trouxeram múltiplos milhares de iranianos para a rua manifestando-se contra o seu sanguinário regime antes de serem assassinados, a sangue frio, ingloriamente insatisfeitos por não terem morrido livres. Nem em paz, para todos os efeitos. A guerra estava prestes a rebentar, em “épica fúria”, como se tem visto e nos leva aqui a colocar o crítico busílis da cínica questão – haverá mesmo alguma guerra necessária… ou não? Marimbando-se para a demagógica “geopolitiquice” do costume, que não ata nem desata e só nos baralha com mais barulho, a pertinente pergunta fica no ar, a pedir-me umas rimas amigas do meu magoado pensar.
Desgraça que não engana
À superfície da Terra
É a da raça humana
Espatifar-se em guerra.
Quem não vê, não acredita,
Mas quem sabe ver, no fundo,
Teme a guerra, maldita,
Vir a dar cabo do mundo.
E perguntamos porquê?
Ante as guerras malvadas,
Como há quem não as vê
Totalmente escusadas?
Com seu imenso horror,
Ao matarem sem medida,
Guerras só espalham dor
E estragam-nos a vida.
Vivermos felizes vem
Do segredo perspicaz
Que nos abraça, a bem,
Ao melhor que a vida tem:
Saber vivê-la em paz.




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