É na Igreja de Santa Maria da Graça, em Santarém, que Pedro Álvares Cabral está sepultado. Mas quem a visita fica surpreendido que o túmulo cheio de esculturas que se destaca não é o do descobridor do Brasil, mas sim de outra figura da História de Portugal, não tão conhecida, mas sem dúvida importante: D. Pedro de Meneses, o primeiro governador de Ceuta, a cidade no Norte de África que foi a primeira conquista portuguesa de além-mar, em 1415.
Cabral tem direito a uma pedra tumular, onde letras já meio apagadas explicam quem foi e qual o seu feito. Ao comando da segunda armada enviada por D. Manuel I à Índia, fez no Atlântico Sul uma volta tão pronunciada para Ocidente, que acabou por avistar o litoral do atual Brasil. Ainda hoje se debate se os portugueses já tinham conhecimento daquelas terras habitadas por índios, mas a verdade é que pouco depois de Nicolau Coelho garantir ser seguro o desembarque, uma das caravelas regressou a Portugal para entregar ao rei a carta de Pero Vaz de Caminha a descrever o país. Os restantes navios seguiram viagem até à Índia, onde se envolveram em guerras pelo controlo do comércio de especiarias.
Cabral regressou com os porões das caravelas cheios a Lisboa, mas não voltou a aventurar-se nos mares distantes. Julga-se que terá tido uma desavença com D. Manuel. De certa forma, pode ter sido a sua sorte.
Nascido em Belmonte, acabou por ser sepultado em Santarém, terra de sua mulher. Morreu na cama, presume-se. Não aconteceu à maioria dos grandes navegadores: Bartolomeu Dias morreu num naufrágio junto do Cabo da Boa Esperança, aquele que ele fora o primeiro a dobrar; Nicolau Coelho, que viajou com Vasco da Gama e foi quem deu a notícia da descoberta do Caminho Marítimo para a Índia, morreu também num naufrágio; Afonso de Albuquerque morreu doente na Índia; e o mesmo aconteceu a Gama, depois de viajar pela terceira vez à Ásia; Fernão de Magalhães, que ao serviço de Espanha descobriu a passagem para a Ásia viajando para Ocidente, foi morto numa escaramuça nas Filipinas. O próprio Pero Vaz de Caminha, escrivão, morreu numa batalha na Índia sob comando de Cabral.
Pedra tumular e não um túmulo esculpido por artistas. Pedro Álvares Cabral não tem, porém, razão de queixa. Gama até pode estar hoje nos Jerónimos, trazidos de Cochina para a Vidigueira e depois para Lisboa, mas é uma exceção. Os ossos dos navegadores portugueses geralmente jazem no fundo do mar.
* Jornalista do DN. É doutorado em História e autor do livro ‘Encontros e Encontrões de Portugal no mundo’.




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