Não é coincidência, é consequência.
A negligência do poder público que estamos a assistir no sector do turismo é, somente, uma das causas do enorme falhanço em que se transformou a coligação governamental.
Os primeiros anos da governação foram de euforia vitoriosa, a novidade do poder e a motivação de querer mostrar que era capaz de fazer diferente.
A baixa de impostos, a Tarifa Açores, o programa Novos Idosos e a correcção de carreiras, dando tudo a todos, foram bandeiras da coligação que se esfumaram na transição para o segundo mandato.
Com os cofres vazios, a degradação instalou-se e os sinais de desagregação estão à vista de todos, com preocupantes desentendimentos públicos, o mais grave dos quais é a desautorização pública do Vice-Presidente em relação ao Presidente do Governo relativamente ao polémico futuro hospital universitário a instalar no HDES.
A fasquia governamental entrou alta, mas não houve discernimento interno (e talvez firmeza, como já foi reconhecido por uma das partes da coligação) para manter a mesma dinâmica durante os últimos anos da governação.
A falência da SATA, que ajudou o governo de Vasco Cordeiro a cair, continua a ser o calcanhar dos governantes, com a coligação a agravar o processo e a provar que, perante dificuldades extremas, o governo de José Manuel Bolieiro treme e vacila.
O caso do turismo é outro sintoma grave de falta de músculo político desta coligação, que se sentou em cima do sucesso dos anos da liberalização, julgando que não precisava de intervir mais para manter o dinamismo do sector.
Os privados fizeram a sua parte, investindo fortemente em todas as ilhas, mas o governo fez o contrário, desinvestindo e desligando-se dos parceiros que alavancavam a economia.
A história destes 50 anos de Autonomia é clara: nos primeiros 35 anos de governação própria a oferta turística cresceu de cerca de 1.150 camas para 4.350, quase 4 vezes mais, e as dormidas aumentaram 6 vezes mais.
Nos últimos 25 anos o crescimento foi semelhante, chegando-se em 2025 ao recorde extraordinário de 27.500 camas e mais de 4,5 milhões de dormidas.
O erro dos governos, deste e do anterior, foi pensar que este sucesso movia-se por si próprio, sem mais investimento público, sobretudo na área da promoção, na procura de mercados e na manutenção das operadoras.
Os dois quadros que acompanham esta crónica ajudam a perceber o grau de execução do investimento público, sempre a descer, descurando um sector fundamental, que se tornou no motor da nossa economia.
Analisando os valores da execução dos Planos de Investimento dos Governos Regionais entre 2017 e 2024 em matéria de Investimento no Desenvolvimento do Turismo (sendo que o período de 2017-2020 corresponde ao último Governo Regional do PS e o período 2021-2024 aos primeiros 4 anos do governo da coligação), facilmente se conclui que, comparando os períodos 2017-2020 e 2021-2024, a situação agravou-se substancialmente: a execução da promoção no 2º período correspondeu a -15% do valor do 1º período, enquanto em matéria de Qualificação a situação é ainda mais grave, correspondendo a – 37%.
Ou seja o governo da coligação investiu muito menos do que o governo do PS.
O cenário torna-se mais grave, tendo em conta a atualização monetária, porquanto os valores nominais dos últimos anos foram negativamente afetados pela elavada inflação. Por exemplo, os valores nominais de 2025 correspondem apenas a 80% dos valores de 2019 (Simulador de actualização monetária do INE).
No outro quadro, comparando o 3º trimestre de 2025 (últimos dados disponíveis) com o mesmo período de 2024, a situação é também preocupante, com agravamento em relação ao ano anterior, ainda que, eventualmente, no último trimestre de 2025 possa ter ocorrido uma aceleração da aplicação das verbas.
Tudo isto, acompanhado pela saída da Ryanair do mercado, é revelador da fragilidade do sector e da inoperância deste governo.
Fala-se, agora, na criação de um Fundo de Captação de Rotas, que será, certamente, uma cópia da Visit Azores, o braço armado do governo para o turismo, que falhou em toda a linha.
No meio disto tudo, estranha-se o silêncio da Associação de Municípios dos Açores, porquanto todos os municípios vão ser largamente afectados por esta crise, especialmente os que albergam largas dezenas de Alojamentos Locais.
Os de S. Miguel, que arrecadaram no ano passado 3,2 milhões de euros em taxas turísticas, não se chegam à frente para aplicar parte desta verba na captação de rotas ou outro investimento promocional?
Ou vale apenas para as faustosas comitivas à BTL?
Todo este retrato não é nada bonito e revela um padrão preocupante de anos de governação displicente.
50 anos depois, quem sofre é a credibilidade da Autonomia e a nova geração de políticos que criou.
Mas, sobretudo, quem mais sofre, somos nós, cidadãos contribuintes.




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