Os EUA foram apanhados de surpresa pelo 25 de Abril

by | Apr 15, 2026 | Expressamendes

 

Vivo fora de Portugal desde 1961, primeiro em Angola e, desde 1973, nos EUA. Habituei-me a viver Portugal com memórias de exilado e por isso o meu 25 de Abril continua fresco como se tivesse sido ontem embora tenham passado 52 anos. Para uma boa parte dos portugueses, o 25 de Abril é apenas um feriado, mas para mim é o dia em que o velho Portugal acabou com uma ditadura que estrebuchava há 48 anos e uma guerra colonial em três frentes e sem fim à vista.

Passei o dia 25 de abril de 1974 na redação do Portuguese Times em New Bedford. As notícias que nesse dia chegaram de Portugal eram escassas, não havia CNN, nem RTP Internacional, nem fax e a ANI, agência noticiosa portuguesa, mandava notícias pelo correio para os jornais portugueses nos EUA uma vez por mês.

Foi dia de receios numa altura em que ainda não se sabia para que lado Portugal iria cair, e a dada altura o António Alberto Costa, que ao tempo ainda era dono do jornal, perguntou se a CIA estaria a dormir na forma e teria sido apanhada de surpresa pelo 25 de Abril e chegou mesmo a conjeturar que se o Departamento de Estado, chefiado por Henry Kissinger, tivesse sabido do golpe possivelmente teria alertado o governo português para evitar revoluções num país membro da NATO e talvez nem tivesse havido 25 de Abril.

Na verdade, Washington respirou de alívio com a queda da ditadura portuguesa e a descolonização, pois era público que os americanos apoiavam dois movimentos nacionalistas angolanos, UPA (FNLA) e UNITA.

Quanto à CIA, naquela época parecia não estar preocupada com Portugal e em abril de 1974 encarou mesmo fechar o posto na capital portuguesa, que era composto por John Stinard Morgan, Frank W. Lowell e Leslie F. Hughes, que faziam parte da embaixada como oficiais de telecomunicações.

Naqueles dias, nos relatórios sobre Portugal, a CIA apenas tinha referido a remota possibilidade de um golpe de direita para depor Marcelo Caetano e liderado pelo general Kaulza de Arriaga, ex-comandante militar de Moçambique, mas politicamente em desgraça desde o massacre de Wiriyamu, em 1973.

Confirmando que a CIA foi surpreendida pelo 25 de Abril, Cord Meyer, responsável da agência em Londres, escreveria que o golpe “apanhou os EUA na hora de almoço”, situação com a qual Henry Kissinger concordou ao admitir que “Washington nada sabia sobre qualquer um dos protagonistas envolvidos” na revolução.

O embaixador norte-americano em Lisboa era Stuart Nash Scott, advogado novaiorquino que não era diplomata de carreira, mas, conforme referiu num telegrama para Washington, apercebeu-se de que “algo estaria para acontecer em breve” em Portugal.

O erro de Stuart Nash Scott terá sido pensar nas elites do chamado Estado Novo e nos altos comandos militares, e não nos oficiais subalternos que estiveram na origem do Movimento das Forças Armadas, os chamados “capitães de Abril”.

A embaixada ficou atenta à agitação nas forças armadas portuguesas depois da publicação do livro “Portugal e o Futuro”, do ex-governador da Guiné general António de Spínola e, no dia 5 de março de 1974, Stuart Nash Scott enviou um telegrama para Washington dando conta da “grave crise política” e dos “hard-liners” em torno do presidente Américo Tomás a exigirem a “cabeça” de Spínola e do primeiro-ministro Marcelo Caetano.

Dia 15 de março de 1974, os generais Francisco Costa Gomes e António de Spínola foram demitidos dos cargos de chefe e vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas por terem recusado fazer parte do grupo de generais que no dia anterior tinha ido prestar vassalagem a Marcelo Caetano, episódio que ficaria conhecido como “Brigada do Reumático”.

A demissão de Spínola e Costa Gomes deu origem ao Levantamento das Caldas, frustrada tentativa de golpe a 16 de março de 1974. Uma coluna de camiões com 200 soldados e 30 oficiais saiu do Regimento de Infantaria 5 das Caldas da Rainha, mas já perto de Lisboa, em Vila Franca de Xira, parou ao ser informada de que as outras unidades militares envolvidas não tinham saído dos quartéis e acabaram sendo todos presos.

O episódio deu origem a uma popular anedota: os militares teriam parado porque o presidente Américo Tomás ameaçou que o primeiro a chegar a Lisboa seria obrigado a casar com a sua filha.

Dia 2 de abril de 1974, 23 dias antes do 25 de Abril, o ministro da Educação José Veiga Simão almoçou com o número dois da embaixada, o encarregado de negócios Richard Post, tentando persuadi-lo de que o primeiro-ministro Marcelo Caetano era pressionado pelo presidente Américo Tomás e pela ala mais à direita do regime, mas o apoio dos EUA poderia convencê-lo a aceitar uma solução política na guerra colonial, conforme explicou Stuart Nash Scott num telegrama para Henry Kissinger.

Veiga Simão terá sido presumivelmente intermediário de Marcelo Caetano e a diligência mostra a disponibilidade do primeiro-ministro em pôr fim ao regime se conseguisse apoios internacionais.

O jornal Washington Post de 8 de abril de 1974, noticiando precisamente a chegada de Stuart Nash Scott a Washington, adiantava que homens de negócios portugueses davam luz verde a uma mudança de regime em Portugal desde que levada a cabo pelo general Spínola, mas a ideia não agradou a Kissinger.

“Uma aproximação nesse sentido pelo governo (norte-americano), de apoio às teses de Spínola não contribuiria para uma política mais flexível de Portugal em África”, respondeu Kissinger num telegrama enviado ao embaixador em Lisboa datado de 20 de abril de 1974, a cinco dias do golpe que derrubou a ditadura.

Stuart Nash Scott não estava em Lisboa no dia 25 de abril, encontrava-se no destacamento americano da Base das Lajes, ilha Terceira, aguardando avião para os EUA, onde iria participar num jantar de antigos alunos da Universidade de Harvard e só retomou o seu posto dia 29 de abril.

Com Stuart Scott ausente em Washington, o responsável pela embaixada de Lisboa era Richard Post, que anos depois, numa entrevista a José Freire Antunes, lembrou que nem sequer saltou da cama na madrugada do 25 de Abril:

“O telefone tocou no meu quarto. Era o guarda da nossa casa no Restelo, um ex-quadro da DGS (Pide), e disse-me:

“Perigo, perigo”. Não percebi. A minha mulher, ensonada, comentou: “Oh, isso é o nome do guarda!” Desliguei e voltámos a dormir. Seriam aí umas seis da manhã quando um dos adidos militares me telefonou, dizendo que havia tanques na rua e música militar na rádio”.

A atitude de Richard Post traduz a calma com que os diplomatas americanos viviam em Portugal e nem se preocupou com o aviso feito por outro diplomata.

Em entrevista a José Pedro Castanheira, do semanário Expresso, Robert Bentley disse que, de passagem por Lisboa, a 23 de abril de 1974, encontrou-se com um “colaborador próximo” de Marcelo Caetano que lhe terá falado na iminência de um golpe.

Bentley não revelou quem foi o informador, mas dirigiu-se à embaixada e deu conta do que apurara a Richard Post, mas este não lhe deu ouvidos e ter-lhe-á mesmo dito que “ele não tinha nada a ver com o assunto”.

Além das dificuldades em perceber o que se estava a passar no dia 25 de abril de 1974, naquele dia a embaixada dos EUA teve um obstáculo adicional insólito: os telefones não funcionaram de Lisboa para Washington e os diplomatas americanos tiveram que enviar dois telegramas.

O primeiro telegrama enviado por Richard Post, com o título “Distúrbios em Portugal”, foi enviado às 09h50 e fazia uma mera descrição do que se estava a passar. Noutro telegrama enviado às 14h37, Post comunicou a Washington que não havia motivos para crer que o golpe iria colocar em perigo “vidas e propriedades” de norte-americanos em Portugal.

No final do dia, quando Marcelo Caetano já se rendera, Henry Kissinger enviou um telegrama à Casa Branca, aos estados-maiores militares e aos Serviços Secretos, com um resumo dos principais acontecimentos em Portugal, e dando conta de que a base das Lajes, nos Açores, não tinha sido afetada.

Se foram apanhados a dormir na forma pelo 25 de Abril, a partir daí os americanos não pregaram olho. De início, para Washington, a presença de Spínola na Junta de Salvação Nacional era garantia de uma mudança de regime sem sobressaltos, mas o general não se entendeu com o MFA e renunciou à presidência da república a 30 de setembro de 1974, partindo para o Brasil.

Nessa altura, Henry Kissinger temeu ver Portugal convertido numa Cuba e regimes comunistas por toda a Europa meridional, e chegou a pensar no envio de uma esquadra da NATO para o Tejo numa intervenção militar que serviria de “vacina” para países como Espanha, Grécia e Itália, onde os comunistas tinham crescente influência.

Com a viragem à esquerda, Portugal ficou no centro das preocupações de Washington e daí a substituição de Stuart Nash Scott por Frank Carlucci.

A 4 de junho de 1975, numa reunião na Casa Branca, o então primeiro-ministro português Vasco Gonçalves foi considerado por Washington pró-comunista e pró-soviético, e foi encarada abertamente a hipótese do executivo de Lisboa estar a servir “os objetivos dos comunistas”, mas apesar do ceticismo quanto ao processo democrático português, a administração Ford acabou por seguir os conselhos de Carlucci, que defendia o apoio a Mário Soares, líder do PS, Melo Antunes e Vitor Alves do “grupo dos nove” do MFA, e não a teoria da “vacina”.

Nessa altura, Gerald Ford reuniu também na Casa Branca figuras da comunidade portuguesa nos EUA e uma dessas figuras foi Joseph Fernandes, o empresário madeirense falecido em 2007 que era sócio do Portuguese Times e foi fundador de uma cadeia de 37 supermercados que tinha o seu nome e militante de muitas causas da comunidade portuguesa nos EUA.

Constou que Fernandes esteve para ser nomeado embaixador dos EUA em Lisboa, mas os cravos da revolução tinham-se tornado demasiado vermelhos e Carlucci foi a opção.

Mesmo sem ter sido embaixador, Fernandes foi um bom diplomata no estreitamento das relações entre Portugal e os EUA seguindo uma regra simples: ser português nos EUA e ser americano em Portugal. Era republicano, mas mantinha bom relacionamento com os democratas: em 1961, o presidente John Kennedy nomeou-o consultor da Conferência Aliança para o Progresso realizada em Punta del Este, Uruguai, e em 1980, quando da morte do primeiro-ministro português Francisco Sá Carneiro, o presidente Jimmy Carter ofereceu-lhe boleia para ir ao funeral e o Air Force One escalou propositadamente Boston.

O senador Edward Kennedy foi o primeiro político americano a visitar Portugal depois do 25 de Abril. Ted conhecia razoavelmente os portugueses. Era amigo de Joseph Fernandes. Vinha todos os anos a New Bedford para a festa madeirense do Santíssimo Sacramento e regressava a casa, em Hyannis, com malassadas fritas por Verónica, a mulher de outro dos seus amigos portugueses, Sylvester Sylvia. E além disto era um apaixonado pelo cão de água português (ofereceu Bo a Barack Obama).

Portanto Kennedy não teve receios em deslocar-se a Lisboa em maio de 1974 a convite de Mário Soares, que era ministro dos Negócios Estrangeiros do I governo provisório. Foi aos fados, avistou-se com Álvaro Cunhal e Otelo Saraiva de Carvalho, e de regresso a Washington, recomendou a Gerald Ford o apoio à democracia portuguesa, contribuindo para que Kissinger desistisse de converter Portugal numa “vacina” anticomunista.

Já agora, um dos melhores relatos americanos do 25 de Abril foi do embaixador Robert S. Pastorino, que foi adido comercial em Lisboa de 1974 a 1977.

Nas suas memórias, Pastorino escreveu: “Tenho uma imagem maravilhosa do meu filho, que tinha seis anos de idade, entre dois jovens soldados portugueses. Eles estão segurando espingardas, cada um com um cravo no cano e estão sorrindo. Steve está lá segurando uma placa que diz: Viva Portugal”.

 

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