Vasco Cordeiro tinha sempre resposta para quem criticava a sua governação: “Estão a puxar os Açores para baixo”.
José Manuel Bolieiro arranjou outra fórmula para desculpar as críticas: “recuso o drama” ou o “pessimismo dramático”.
Os críticos que vêem o óbvio são todos dramáticos, cheios de pessimismo e, provavelmente, continuam a puxar os Açores para baixo.
Bolieiro resolveu, finalmente, juntar-se à turba, na semana passada, ao atribuir o presente problema do turismo nos Açores ao “contexto hostil”!
Benvindo, Sr. Presidente, à realidade.
Mas há um pormenor: o problema não começou com a “crise internacional”, nem foi agora que começou a “impor e exigir mesmo adaptações aos novos contextos e provavelmente em baixa”.
A “adaptação”, como lhe chama, começou há mais de cinco meses consecutivos, e, ao que parece, andaram todos tapadinhos nos imensos corredores do poder ligados ao sector.
O Governo de José Manuel Bolieiro tem uma super-Secretaria do Turismo, uma Direcção Regional do Turismo, uma Visit Azores, um Observatório Regional de Turismo, uma Inspecção Regional de Turismo, Delegações de Turismo e toda a catrefada de especialistas que esta organização “dramática” alberga, mas ninguém o avisou que a “adaptação” já vinha desde o ano passado.
A narrativa que vamos passar a ouvir, de que a crise no turismo, neste ano IATA, é consequência da guerra, não vai colar com a realidade.
Se também ninguém informou atempadamente o Governo dos Açores, era bom que soubesse que os tempos de hoje são diferentes de há seis anos; agora os cidadãos estão mais despertos para o que se vai passando à sua volta, mais bem informados e com maior pendor para o escrutínio.
A política do turismo deste governo, neste segundo mandato, é um desastre à vista de todos, com forte desinvestimento público, muita desorientação na área da promoção e culminando com a saída da Ryanair, ironicamente no meio de buscas judiciais sobre o relacionamento financeiro com aquela companhia.
Falhou tudo, ao ponto de regressarmos aos tempos do monopólio das empresas públicas aéreas, agora com a desvantagem de estarem em processo de falência e a sobreviver com enormes balões de oxigénio do erário público.
Vamos passar a pagar três vezes para sair dos Açores: a passagem de residente (119 euros), a diferença pelo tecto que nos impõem (o SSM pago pelo Estado via nossos impostos: 91 milhões de euros só no ano passado) e, no final, os prejuízos que elas apresentarem no fecho de contas para a privatização (mais de 400 milhões de euros da SATA e 3,2 mil milhões de euros injectados na TAP entre 2020 e início de 2024).
É o negócio da China português, um “drama” que não atormenta os governos, mais preocupados com a “adaptação” da “revisão em baixa das expectativas da actividade turística açoriana”.
Estamos a caminhar para um belo momento de felicidade política, sem dramas, com o Presidente do Governo a ser recebido pelo Presidente da República mais depressa do que era preciso com o Primeiro-Ministro, e com o novo Chefe de Estado a vir aos Açores celebrar o Dia de Portugal mais depressa do que a prometida cimeira insular do distante Luís Montenegro.
A sociedade civil, de todos os quadrantes, começa a manifestar publicamente uma enorme desilusão com esta governação, mas os governantes acham que é tudo um “drama”, provavelmente uma conspiração para criar um “contexto hostil”.
A Reitora da Universidade dos Açores queixa-se da inércia deste governo sobre o curso de medicina? É drama.
Os utentes queixam-se do aumento galopante das listas de espera? É drama.
A sociedade civil queixa-se do atraso na recuperação do HDES ou da incapacidade de manter a Ryanair? É drama.
Este governo não paga a ninguém? É drama.
O défice galopa e a dívida pública continua descontrolada? É drama.
Faz-me lembrar a velha história do tempo dos meus avós, em que numa peça de teatro do “dramalhão” Dona Inês de Castro, a determinada altura ela queimava as cartas do amante e D. Pedro, quando entrava no palco, dizia: “Cheira-me a papel queimado “.
Só que um dia a vela apagou-se e quando já se ouviam as botas do rei a entrar, Dona Inês teve a brilhante ideia de rasgar as cartas.
Pedro não se desmanchou e disparou: “Cheira-me a papel rasgado “!
Assim vai o nosso reino, onde perante tantos “dramas” que queimam as mãos dos políticos, alguns nunca lhes cheira a queimado.
Andamos nisto, numa penosa metade de legislatura, afundados em casos que já cansam os cidadãos e que não sabemos até onde vai parar.
Provavelmente até à última “last call”…





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