Há perguntas que nos fazem como quem bate à porta sem avisar, discretas, quase tímidas, mas capazes de abrir um baú transbordando memórias, ideias e pequenas revelações. A que me chegou recentemente, nasceu de uma conversa entre dois homens, ambos aparentemente educados nos modos da civilidade, mas separados por uma diferença de gerações que por vezes pesa mais do que parece. Com convicção tranquila, o mais idoso defendia que na antiga quarta classe se ensinava mais do que no atual décimo segundo ano. O mais novo discordava, lembrando a diversidade de disciplinas, a presença das ciências, e a exigência crescente dos currículos atuais. Então, como quem lança uma pedra no lago para ver até onde chegam as ondas concêntricas, o mais velho perguntou: “Se hoje se aprende tanto, por que se escreve catorze e não quatorze?”
A pergunta encontrou-me numa mensagem eletrónica que um terceiro indivíduo me partilhou, e quedou-se-me na memória por alguns dias, atiçando a curiosidade. Não era difícil, mas evocava a ideia de que a língua é um espelho da escola, e que qualquer irregularidade denuncia uma falha no ensino. Todavia, funcionando como um ser vivo moldado por séculos de uso, hesitações, simplificações e escolhas que ninguém planeou, a língua não consiste de um manual de instruções.
Numa perspetiva filológica, o número catorze vem do latim quattuordecim, literalmente “quatro e dez”. À primeira vista, seria natural que o português tivesse preservado o “qua-”, como o francês em quatorze. Mas o português, ao longo da sua história, preferiu caminhos orais mais caseiros, em proximidade constante com a fala do povo. O grupo inicial qua- simplificou-se para ca- em várias palavras, e esta transformação acabou por permanecer. Assim, quattuordecim deu catorze, tal como quadraginta originou quarenta, e quattuor, curiosamente, teve a forma medieval catro antes de estabilizar em quatro. A forma “quatorze “ existiu, mas nunca ganhou o uso generalizado. Silenciosamente, a língua escolheu a versão que melhor se ajustava ao ouvido comum.
Este pequeno episódio mostra como a língua escapa às certezas absolutas. O homem mais velho via nela um agregado de regras fixas, onde cada palavra tem uma razão clara e definitiva. O mais novo percecionava a escola como espaço de ciência e complexidade. Mas a língua não se define por um lado ou pelo outro. Vive onde a história se mistura com o hábito na linguagem do povo, e a lógica cede muitas vezes à força da repetição.
A pergunta sobre catorze revela também a tendência que temos para imaginar que o passado era mais seguro, sólido e rigoroso. Projeta, assim, uma nostalgia compreensível. Impondo uma disciplina rígida e focada na memorização, a escola antiga deixava a impressão de que tudo tinha uma explicação simples e definitiva. Mas como a água de um rio em relação às margens, sempre cheia de desvios, exceções e caminhos tortuosos a língua não se detém no curso da cultura que a conforma.
Durante a vigência do Estado Novo, e antes dele quando a monarquia se assumia como instituição mandatada por decisão divina, porque o conhecimento pertencia aos “mais espertos” — a quem competia governar na opinião de Oliveira Salazar —, a elite confortável e obediente não questionava a tentativa de fossilizar o idioma e a linguagem em estacadas de nacionalismo empolado. Hoje, porém, vivemos num tempo em que tudo se interroga, como o tráfego na internet nos mostra no acesso aos geniais assistentes sem face nem alma da inteligência artificial.
Perguntar por que dizemos catorze é, afinal, indagar como chegámos até aqui no percurso histórico da nossa língua portuguesa, e reconhecer que cada palavra carrega uma história que não aprendemos nos manuais, mas que herdamos sem dar por isso. O idioma em que comunicamos expressa uma construção coletiva, feita de vozes anónimas que, ao longo dos séculos, foram moldando sons, ritmos e sentidos.
Por isso aquela pergunta se torna tão reveladora, mostrando-nos que a língua não é um campo de batalha entre gerações, mas um espaço comum onde todos deixamos marcas. O mais velho, com a sua memória da escola antiga, e o mais novo, com a sua visão do ensino moderno, encontram-se, sem o saber, no mesmo ponto: a língua que falam é fruto de ambos, e de muitos outros antes deles.
No fim, a pergunta não era relativa a ortografia, mas sobre identidade. Acerca da forma como em cada época se incrementam as competências ou sabedoria na sociedade e se espelha a visão do mundo. Neste sentido, catorze transcende o número, trazendo à memória de alguns e ao conhecimento de outros que a língua existe como um organismo, e surpreende na dinâmica da sua evolução. Ao contrário do que às vezes pensamos, podemos visioná-la, para além de pertença do passado ou do presente, numa construção em que todas as gerações participam na sua adaptação ao momento histórico e cultural em que nos inserimos.





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