Quando a Memória se Torna Casa: Uma Leitura de My Way

by | Mar 25, 2026 | Raízes e Horizontes

 

Natividade Ribeiro reinscreve o gesto diarístico na tradição maior da literatura de memória, mas desloca-o da mera confissão íntima para um território híbrido onde autobiografia, ensaio, poesia e meditação cultural se entrelaçam com rara liberdade formal. My Way — Diário e Escritas Paralelas, publicado pela editora Letras Lavadas, não é um diário no sentido linear do termo; é, antes, um espaço de experimentação literária, um laboratório da consciência, onde a autora testa a elasticidade da linguagem para dar conta da experiência do tempo, da deslocação geográfica e da fragilidade do corpo.

Logo nas primeiras páginas do “Diário de mês e meio (Macau, Algarve, São Miguel – Açores)” (p. 15), a autora define implicitamente o seu método: saltar tempos e espaços, exercendo aquilo que chama “o poder da mente”. O diário torna-se, assim, uma cartografia interior, uma escrita que se organiza mais por afinidades afetivas do que por cronologias rígidas. A estrutura fragmentária — alternando entre entradas diarísticas, poemas, reminiscências literárias e evocações culturais — constrói uma tessitura polifónica que transforma a memória numa forma de pensamento. Escrever não significa apenas registar o que acontece, mas reorganizar o mundo através da lembrança.

Um dos eixos mais fortes da obra é o deslocamento. Macau, Lisboa, São Miguel e o Algarve surgem não apenas como cenários geográficos, mas também como camadas identitárias que se sobrepõem. A metáfora da “estufa” (p. 15) — primeiro, a estufa de ananases do pai na ilha; depois, a estufa de Macau, apropriada pela autora como experiência própria — condensa simbolicamente este gesto de transplantação. A estufa é lugar de proteção e de deslocamento ao mesmo tempo: um espaço onde algo cresce fora do seu solo original. Assim também funciona a memória neste livro. Ela permite à autora criar raízes em diferentes territórios, transformando o exílio numa forma de metamorfose. O desterro deixa de ser ruptura para se tornar movimento interior.

O corpo ocupa igualmente um lugar central nesta escrita. A dor no pé, a mobilidade limitada e a necessidade de recorrer a uma cadeira de rodas nos aeroportos (pp. 16–22) não surgem como simples episódios circunstanciais, mas como elementos estruturais de uma verdadeira poética da vulnerabilidade. A autora escreve a partir de um lugar liminar, entre vitalidade e desgaste, entre memória e finitude. Quando afirma, com ironia, que “o meu reino já não é deste mundo”, não se trata de queixa, mas de uma consciência clara da passagem do tempo. O diário torna-se, assim, uma forma de resistência à erosão da idade.

Literariamente, a obra impressiona pela capacidade de alternar registos. Há momentos de observação narrativa minuciosa — como a descrição detalhada dos rituais de refeição durante o voo (pp. 18–20) — que revelam uma atenção fina ao quotidiano. E há momentos de elevação lírica, como nos poemas dedicados a Camilo Pessanha (“Pessanha — meu — em tom menor”), onde o diálogo com o simbolismo português se transforma numa forma de apropriação íntima. A presença de Pessanha não é apenas homenagem cultural: funciona também como espelho. Tal como o poeta que viveu grande parte da vida em Macau, a autora habita um entre-lugar, onde a língua portuguesa ecoa sob geografias estrangeiras.

Apesar do tom frequentemente elegíaco, My Way não é um livro de melancolia passiva. Há ironia, humor subtil e uma crítica social que atravessa discretamente o texto. A autora observa a transformação acelerada de Macau, a expansão do luxo e do consumismo, contrapondo essa realidade à memória de uma cidade mais humana e cosmopolita. Essa crítica não assume forma panfletária; surge antes como uma reflexão elegíaca sobre as perdas inevitáveis da modernidade.

Particularmente reveladora é a reflexão metapoética sobre o ato de copiar poemas. Para Natividade Ribeiro, a transcrição manual permite entrar “no tutano dos versos”. Esta ideia revela uma conceção profundamente corporal da literatura. Escrever — ou copiar — torna-se um gesto físico que desacelera o tempo e reinscreve a palavra no corpo. Num contexto cultural marcado pela velocidade digital, esse elogio da lentidão aproxima-se de uma ética da leitura atenta e interiorizada.

A dimensão espiritual percorre igualmente o livro, mas sempre de forma aberta. Referências à astrologia lunar, à yoga, à sabedoria de Confúcio ou à oração convivem sem conflito. Esse ecletismo não resulta de sincretismo superficial, mas de uma procura íntima de equilíbrio. Num mundo que a autora reconhece como frequentemente desumanizado, a disciplina da escrita diária funciona como gesto de ordenação do caos.

No conjunto, My Way é um livro de maturidade literária. Não encontramos aqui a urgência juvenil da afirmação, mas antes a serenidade inquieta de quem percorreu geografias diversas e compreende que o território mais vasto permanece sempre o interior. A escrita de Natividade Ribeiro conjuga lucidez crítica e ternura memorial, ironia e melancolia, compondo uma prosa que aceita a impermanência sem abdicar da beleza.

Talvez seja esse o grande mérito da obra: transformar a experiência singular de uma vida entre ilhas e continentes numa meditação universal sobre memória, envelhecimento, pertença e linguagem. My Way não se limita a narrar uma vida. Pensa-a e reconstrói-a em palavras que reconhecem a fragilidade do tempo, mas, ainda assim, afirmam a literatura como a sua morada mais persistente.

 

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