Um português e seis lusodescendentes já ganharam o Oscar

by | Mar 18, 2026 | Expressamendes

 

A propósito dos Oscars, que tiveram no passado domingo a 98ª edição no Teatro Dolby, em Los Angeles, recorde-se que já houve um português e seis lusodescendentes premiados pela Academia de Hollywood e, por sinal, em 1937, um famoso ator americano (Spencer Tracy), ganhou a estatueta de melhor ator representando um português no filme “Captains Courageous”, onde até canta algumas canções em português.

Carlos de Mattos, que reside em Los Angeles, é o único português distinguido com o Oscar e duas vezes.

Mattos nasceu em Luanda em 1952 e veio para os EUA aos 18 anos fixando-se em Los Angeles. Recebeu o seu primeiro Oscar Técnico em 1983 (em parceria com Con Tresfons, Adriaan De Rooy e Ed Phillips) pela criação da Tulip Crane. Em 1986, foi novamente premiado pela criação de uma câmara de controlo remoto e hoje Carlos de Mattos tem uma empresa de aluguer de material de filmagens (Mathews Studio Equipment) e uma empresa de produção que já fez duas dezenas de filmes.

Quanto a lusodescendentes premiados, a atriz luso-americana Mary Astor foi a primeira e ganhou em 1942 o Oscar de melhor atriz secundária pelo filme “The Great Lie”.

Mary Astor chamava-se na realidade Lucille Vasconcelos e era filha de uma madeirense e de um alemão, ambos professores. Nasceu em 1906 e começou a trabalhar jovem tendo feito 156 filmes. Como competia a uma vedeta de Hollywood daqueles tempos, Mary casou cinco vezes e juntou um apreciável pé de meia de 130 milhões de dólares.

Deixou de filmar em 1984, fixou-se num lar da terceira idade de atores em Hollywood e passou a escrever, tendo publicado cinco romances. Faleceu em 1987 aos 81 anos.

Filhos de um judeu português que tinha uma sapataria em Chicago, os famosos Hall e William Pereira ganharam ambos o Oscar e eram ambos arquitetos.

Harold (Hall) Ernest Pereira (1905-1983), que começou por ser cenógrafo dos cinemas da Paramount em Chicago, foi depois para Hollywood e dirigiu 18 anos a cenografia dos estúdios Paramount, o segundo mais antigo estúdio americano (foi fundado em 1912) e foi o primeiro a ganhar o Oscar de Melhor Filme com “Wings”, em 1917.

Nos tempos de Hall Pereira, a Paramount foi nomeada 23 vezes para o Oscar, mas ele ganhou apenas em 1955 com “The Rose Tattoo”, que valeu também o Oscar de melhor atriz à italiana Anna Magnani.

Quanto a William Pereira (1909-1985), um dos arquitetos mais prolíficos dos EUA, (criador da Biblioteca Geisel, Pirâmide Transamérica e Aeroporto de Los Angeles), também trabalhou uns tempo na Paramount como diretor de arte e designer de produção antes de se lançar na arquitetura e ganhou o Oscar de efeitos especiais com “Reap the Wild Wind” (1942).

Mais recentemente, voltámos a ter um lusodescendente premiado e nada menos que o famoso Tom Hanks, Oscar de Melhor Ator por “Philadelphia” (1994) e “Forrest Gump” (1995) e hoje um dos grandes nomes de Hollywood como ator, argumentista e produtor.

Tom Hanks nasceu em Concord, na Califórnia. O pai, Amos Mefford Hanks, era um chefe de cozinha e tinha ancestralidade inglesa. A mãe, Janet Marylyn (nascida Frager), era enfermeira num hospital e tinha ancestralidade integralmente portuguesa, pois todos os seus bisavós eram dos Açores e emigraram para a Califórnia. O sobrenome original da família era Fraga, mas nos Estados Unidos foi anglicizado para Frager.

O realizador e encenador teatral Sam Mendes, bisneto de madeirenses, ganhou o Oscar de melhor filme e melhor realizador com “American Beauty”, em 1999.

Sir Samuel Alexander “Sam” Mendes nasceu em Reading, Reino Unido, filho de Valerie Helene Mendes, autora de livros infantis, e Peter Mendes, professor universitário natural de Trinidad e Tobago e descendente de madeirenses.

Em 2026, Mendes foi nomeado como um dos produtores de “Hamnet”, produção inglesa sobre a vida de Shakespeare e que concorria também ao Oscar de Melhor Filme.

É importante não esquecer outros talentos portugueses que fizeram parte de equipas vencedoras dos Oscars, caso de Ricardo Ferreira, profissional na área dos efeitos visuais que integrou as equipas que, em 2015 e 2016, ganharam o Oscar de Melhores Efeitos Visuais, pelos filmes “Interstellar” (2015) e “Ex-Machina” (2016).

No cinema de animação, Portugal esteve duas vezes perto das nomeações com a realizadora Regina Pessoa entre finalistas com as curtas-metragens “História Trágica com Final Feliz” (2005) e “Tio Tomás, A Contabilidade Dos Dias” (2019).

Daniel Sousa, português de origem cabo-verdiana e radicado em Providence (é professor de animação na RI School of Design), esteve nomeado em 2014 com a curta metragem de animação “Feral”, uma produção norte-americana.

Em 2022, um filme português foi finalmente nomeado para os Oscars, a curta-metragem de animação “Ice Merchants”, de João Gonzalez, mas não ganhou.

A produtora portuguesa Joana Niza Braga e o designer de som Nuno Bento participaram no documentário “Free Solo” do National Geografic, realizado por Elizabeth Chai Vasarhelyi e premiado com o Oscar de Melhor Documentário em 2019.

Quanto a portugueses e lusodescendentes nomeados para o Oscar, dois luso-canadianos, Luis Sequeira e Nelson Ferreira, chegaram em 2018 à tão ambicionada nomeação ambos pelo filme “The Shape of Water”, de Guillermo del Toro, que nesse ano teve 13 nomeações e ganhou o Oscar de melhor filme.

Sequeira, filho de pais portugueses da zona de Aveiro, onde tem casa, esteve nomeado para Melhor Guarda-Roupa, e Ferreira, cujos pais são da zona da Mealhada, foi nomeado para Melhor Montagem de Som.

Em 2021, Luis Sequeira voltou a ser nomeado para Melhor Guarda-Roupa por outro filme de Guillermo del Toro, “Nightmare Alley”.

Um filme espanhol rodado em Portugal, “Belle Époque”, e co-produzido pelo português António da Cunha Telles, conquistou em 1994 o Oscar de Melhor Filme Internacional.

Caso curioso foi o diretor de fotografia Eduardo Serra, que fez carreira em França e em Inglaterra, onde fez os dois últimos filmes de Harry Potter.

Serra, que faleceu em 2025 em Paris, aos 81 anos, foi nomeado duas vezes para os Oscars, pelos filmes “The Wings of the Dove” (1997) e “Girl with a Pearl Earring” (2003), mas não ganhou.

A língua portuguesa já foi várias vezes finalista do Oscar, mas com sotaque brasileiro e através dos 16 filmes brasileiros nomeados para o famoso prémio.

O primeiro foi o mais falado, o belíssimo “Orfeu Negro”, em 1960, realizado pelo francês Marcel Camus e que ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional, que nessa altura se chamava Melhor Filme de Língua Estrangeira. Foi uma adaptação da peça “Orfeu da Conceição”, de Vinicius de Moraes, com música maravilhosa de António Carlos Jobim e Luis Bonfá, e o filme foi um êxito internacional, tendo ganho também a Palma de Ouro do Festival de Cannes.

Os brasileiros estiveram presentes mais vezes no Oscar de Melhor Filme Internacional: 1962, “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte; 1966, “O Quatrilho”, de Fábio Barreto; 1998, “O Que É Isso Companheiro?”, de Bruno Barreto; 1998, “Central do Brasil”, de Walter Salles e em que Fernanda Montenegro foi também nomeada para o prémio de Melhor Atriz; 2004, “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, nomeado em quatro categorias; 2024, “Ainda Aqui Estou”, de Walter Salles, que ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional e em que Fernanda Torres teve uma nomeação como Melhor Atriz; e 2026, “O Agente Secreto”, de Kleber de Mendonça Filho, e que estava também nomeado para os prémios de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Elenco e Melhor Ator (Wagner Moura), mas não ganhou nenhuma estatueta.

Outro brasileiro também nomeado, mas uma produção americana, foi Adolpho Veloso, que assina a fotografia do filme “Sonhos de Trem”, mas o vencedor foi Autumn Durald Arkapaw, que assina a fotografia de “Sinners”, um sucesso de público e crítica premiado com BAFTA e o Oscar de melhor Argumento Original.

Além do prémio de Melhor Ator, “Sinners” arrecadou ainda os prémios de Melhor Argumento Original (Ryan Coogler), Melhor Fotografia (Autumn Durald Arkapaw), Melhor Realizador (Ryan Coogler) e Melhor Banda Sonora Original (Ludwig Göransson).

Autumn Durald Arkapaw tornou-se a primeira mulher e a primeira diretora de fotografia negra a ganhar o prémio de Melhor Fotografia e Coogler o primeiro cineasta negro a ganhar o prémio de Melhor Realizador.

O prémio Melhor Filme 2026 foi para “One Battle After Another” (Uma Batalha Após a Outra), comédia americana produzida, escrita e dirigida por Paul Thomas Anderson, que ganhou o Oscar de melhor realizador.

“One Battle After Another” é inspirado no romance “Vineland” (1990), de Thomas Pynchon e o elenco é liderado por Leonardo DiCaprio, Benicio del Toro e Sean Penn, que ganhou o Oscar de Melhor Ator Secundário, e foi o terceiro da sua carreira.

O prémio de Melhor Atriz Secundária foi para a americana Amy Madigan, com carreira no cinema e no teatro e cujo último filme é “Weapons”, um filme de horror que tem sido sucesso de bilheteira.

Quanto ao Prémio de Melhores Atores e Atrizes principais, Michael Jordan (39 anos) ganhou pelo seu trabalho no filme “Sinners”, firmando-se como um dos melhores atores negros americanos da sua geração, e Jessie Buckey por “Hamnet”, tornou-se a primeira irlandesa premiada.

O Oscar de Melhor Documentário foi atribuído a “Mr. Nobody Against Putin” (que em português seria algo como “Zé Ninguém Contra Putin”). A produção, filmada clandestinamente por um professor russo (Pavel Talankin), revelou ao mundo como a propaganda de guerra entrou nas salas de aula da Rússia.

Talankin deixou a Rússia em 2024, vive presentemente em Praga, República Checa e, segundo consta, evitando sítios altos.

Vários críticos e opositores de Vladimir Putin morreram em circunstâncias suspeitas, incluindo quedas fatais de janelas ou alturas, um fenómeno notório, mas frequentemente negado pelo Kremlin. Essas mortes misteriosas envolvem figuras políticas, jornalistas e empresários que se distanciaram do regime, gerando fortes suspeitas de envolvimento estatal.

Diversos críticos de Putin morreram ao cair de janelas de hospitais, apartamentos ou escadas, casos frequentemente arquivados como suicídio ou acidentes, o que gera ceticismo internacional.

Além de quedas, outros opositores enfrentaram envenenamentos (como Alexei Navalny e Alexander Litvinenko), tiros (Boris Nemtsov) ou acidentes aéreos (Yevgeny Prigozhin).

Estas mortes, ocorridas ao longo das últimas décadas, farão parte de um esquema de eliminação de dissidência na Rússia e Pavel Talankin, que tem 34 anos, não quer ser o próximo da lista.

 

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