As bandas filarmónicas constituem, porventura, a manifestação mais representativa da cultura popular açoriana.
Em todas as 9 ilhas, em quase todos os 19 concelhos (com a única exceção de Santa Cruz das Flores) e na maioria das nossas 155 freguesias, os Açores contam hoje com mais de 100 filarmónicas que mobilizam mais de 4.000 músicos amadores.
Por um lado, existem atualmente 101 filarmónicas ativas – além de outras 20 com atividade suspensa – numa população insular de 247 mil açorianos. São 33 em São Miguel, 25 na Terceira, 15 em São Jorge, 13 no Pico, 8 no Faial, 4 na Graciosa e 3 em Santa Maria, Flores e Corvo. Na distribuição concelhia, Angra do Heroísmo (15), Ponta Delgada (11) e Praia da Vitória (10) concentram a maior quantidade, mas Ribeira Grande (8), Velas (8), Horta (8), Calheta (7) e Lajes do Pico (6) registam também um número significativo.
Por outro lado, existem oficialmente cerca de 600 bandas filarmónicas numa população continental de 10 milhões de portugueses. Ou seja, se no continente há uma filarmónica por cada 16.700 habitantes, nos Açores temos uma por cada 2.400. Os distritos continentais com maior número de filarmónicas – Aveiro e Lisboa (68), Santarém (62) e Porto (59) – ficam muito aquém da centena registada na Região Autónoma dos Açores.
E a comparação com o outro arquipélago português, embora geograficamente mais adequada, continua a ser numericamente extremista. A Região Autónoma da Mwadeira conta atualmente com 18 filarmónicas ativas, resultando num rácio de uma filarmónica por cada 14.800 habitantes. Tem 17 filarmónicas na ilha da Madeira e uma na do Porto Santo, sendo que, curiosamente, 50% das quais se organizaram sob a forma de “Banda Municipal”, sem paralelo nos Açores. Quatro concelhos – Funchal (3), Câmara de Lobos (3), Santa Cruz (3) e Santana (3) – concentram dois terços das filarmónicas madeirenses.
Se formos mais longe, vamos encontrar no arquipélago das Canárias um total de 69 bandas de música em plena atividade, correspondendo ao rácio de uma filarmónica por cada 32.150 habitantes. Nesta região autónoma de Espanha, a ilha de Tenerife, com 37 bandas de música, concentra mais de metade das filarmónicas canarinas, seguida por La Palma (14) e Gran Canaria (9).
E se formos ainda mais longe, completando o percurso da Macaronésia, chegamos ao arquipélago de Cabo Verde para constatar que, nesta antiga colónia portuguesa e atual república soberana, apenas subsistem duas bandas filarmónicas em efetiva atividade: uma na própria capital, a cidade da Praia, na ilha de Santiago, e outra na ilha de São Vicente. Aqui o rácio é extremo, de uma filarmónica por cada 280 mil habitantes.
Nos Açores, pelo contrário, se há ilhas onde subsiste uma única filarmónica – como Santa Maria, Flores e, notavelmente, o Corvo – outras há que conseguem uma cobertura integral, como a Graciosa, com quatro filarmónicas nas suas quatro freguesias. E há casos ainda mais impressionantes de freguesias com duas filarmónicas em atividade simultânea – como Biscoitos, Lajes e Ribeirinha, na ilha Terceira; Madalena, São Roque e Lajes, na ilha do Pico; Mosteiros e Rabo de Peixe, na ilha de São Miguel; Santo Antão e Topo, na ilha de São Jorge. Aliás, estas duas últimas freguesias do concelho da Calheta, que somam pouco mais de 1.000 habitantes, batem todos os recordes com quatro filarmónicas ativas.
Começamos por aqui para com isso demonstrar que as bandas filarmónicas são uma expressão cultural absolutamente representativa na Região Autónoma dos Açores.
Importa agora perceber que não se trata de uma recente manifestação, mas sim de uma antiga tradição.
A primeira vez que se ouve uma banda de música nos Açores é na ilha de São Miguel, a 22 de fevereiro de 1832. Desembarca dos navios de D. Pedro que passam por Ponta Delgada a defender o trono de Portugal para a sua filha D. Maria.
É também na cidade de Ponta Delgada que se regista a fundação da primeira filarmónica açoriana, em 1845, com a designação óbvia de “Filarmónica Micaelense”. Cinco anos antes, em 1840, fora fundada a mais antiga filarmónica portuguesa, a Real Sociedade Filarmónica Luzitana, de Estremoz. Cinco anos depois, em 1850, seria fundada a mais antiga filarmónica madeirense, a Filarmónica dos Artistas Funchalenses, no Funchal.
(continua na próxima crónica)
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José Andrade, Diretor Regional das Comunidades do Governo da Região Autónoma dos Açores
Texto baseado na comunicação apresentada ao colóquio “Questões de Identidade Insular nas Ilhas da Macaronésia”, a 5 de julho de 2029, na ilha de São Jorge





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