Xilazina, uma “nova” e perigosa droga

by | Oct 1, 2025 | Haja Saúde

Revendo os meus pequenos contributos a esta publicação durante vários anos, penso que abordar o assunto do abuso de substâcias não é novidade. Preocupa-me principalmente o abuso de opiáceos (heroína, medicamentos para dores) ou drogas sintéticas (fentanil, por exemplo), na medida em que ainda continua a crise de overdoses devida a estas substâncias que quando não matam inevitavelmente causam inúmeros problemas sociais, familiares, legais, e para a saúde em geral. Tratamento existe, e agora bastante mais eficaz, e deixo desde já o meu louvor aos muitos que procuraram o apoio dos técnicos de saúde com intenção de acabarem com estas dependências que de outro modo acabam sempre por dar mau resultado. Não pretendo minimizar o impacto negativo do abuso de outras substâncias, desde o álcool aos estimulantes, mas este seria um assunto com “muito mais pano para mangas” do que esta simples coluna.

O que se torna frustrante para os médicos, enfermeiros, e outros técnicos de saúde é o facto de parecermos andar sempre atrasados em conhecimento relativamente aos novos estupfacientes que periodicamente aparecem no mercado. A seguir ao ópio apareceu a heroína, a seguir ao Percocet aparece o fentanil, a seguir ao fentanil aparece o carfentanil, cada qual com mais potência e perigo, e cá apareceu a “novidade”, um medicamento de origem veterinária (como o carfentanil que se destina a tranquilizar animais de grande porte), a chamada “droga zombie”, a Xilazina (Xylazine). Até mesmo muitos psiquiatras, com a sua experiência em lidar com o efeito destes tipos de drogas, não têm ainda conhecimento sobre esta substância. A Xilazina é um medicamento para uso animal (agente de anestesia para cavalos e bovinos), não aprovado para consumo humano, que apesar de não ser um opiáceo tem sido encontrado agora frequentemente misturado com drogas ilícitas, como o fentanil. O consumidor pode nem saber que a sua droga contem xilazina, com risco de sedação excessiva, com impacto na função respiratória, e que contribui para o risco de overdose mortal, já que o medicamento usado para tratar a overdose de opiáceos (naloxona – Narcan) não tem qualquer efeito contra esta droga. Mais ainda, a xilazina intravenosa causa danos aos tecidos do corpo, com necrose, úlceras, e infeções. Os cirurgiões, dermatologistas, internistas, e serviços de urgência serão frequentemente confrontados com os efeitos desta droga, e como tal é essencial que esta informação seja disseminada não só aos técnicos, mas também à população em geral, pois os familiares e amigos dos viciados são a primeira, e talvez a melhor defesa. Há que também aproveitar a interação entre a medicina em geral e a psiquiatria de modo a facilitar o diagnóstico e tratamento destes problemas, particularmente porque as fábricas ilegais frequentemente mudam a potência e a fórmula destes químicos para evitar a deteção laboratorial.

Para além de um diagnóstico médico e informação sobre tratamento dada aos clínicos, são essenciais medidas de prevenção e educação do público, de redução de danos, e uma parceria com as agências de saúde pública, instituições académicas, e governantes no sentido de gerar medidas efetivas de reconhecimento/diagnóstico, resposta e prevenção.

Os problemas de abuso de substâncias parecem ter existido desde que a humanidade descobriu a agricultura prática há dezenas de milhares de anos, piorando com o conhecimento da química e industrialização, e não vai infelizmente desaparecer, mas há que minorar o seu impacto e continuar a oferecer o que há de melhor em diagnóstico e tratamento. Haja saúde!

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