Os emigrantes nas festas dos Açores

by | Sep 3, 2025 | Décima Ilha

Os emigrantes açorianos são parte integrante das festas dos Açores.

Todos os anos contamos com eles nas maiores festividades das nossas ilhas e concelhos.

E algumas dessas festas já têm um programa próprio expressamente dedicado aos emigrantes que nos visitam.

Por exemplo, na ilha das Flores, o maior acontecimento festivo do concelho das Lajes designa-se exatamente como “Festa do Emigrante” e ocorre no mês de julho.

Outro exemplo, na ilha de São Miguel, por ocasião das Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, no mês de maio, o Coliseu Micaelense programa a sua “Festa do Emigrante” e o próprio Presidente do Governo dos Açores promove uma receção em honra de emigrantes notáveis de visita a Ponta Delgada.

Ainda outros bons exemplos, nas ilhas Terceira e Faial, são as receções aos emigrantes promovidas pelas câmaras municipais de Angra do Heroísmo, Praia da Vitória e Horta, associadas ao programa oficial das Sanjoaninas, em junho, e das Festas da Praia e da Semana do Mar, em agosto.

A pretexto das festas da sua ilha, do seu concelho ou mesmo da sua freguesia, os nossos emigrantes são a mais desejada visita anual do verão açoriano.

É disso que trata o editorial intitulado “Os Nossos Emigrantes” do jornal “O Dever”, das Lajes do Pico, na sua edição de 17 de julho de 2025, escrito pelo seu diretor, Cónego João António Neves, que aqui transcrevo com a devida vénia:

“Chega o verão e, com ele, o momento tão esperado nas nossas freguesias um pouco por todas as ilhas dos Açores: o regresso dos nossos emigrantes.

Vindos especialmente do Canadá e dos Estados Unidos, chegam com malas cheias de saudades, presentes para a família, e aquele brilho nos olhos de quem volta à terra que os viu nascer e crescer e que nunca deixaram verdadeiramente.

É um vaivém de carros nos aeroportos das ilhas e também no nosso aeroporto do Pico, que tem tido um movimento fora do normal, só ultrapassado pelo de Ponta Delgada e pelo das Lajes da Terceiras, logo se ouvindo os primeiros sotaques americanos misturados com o português açoriano – uma mistura única, nascida da distância e do amor às raízes.

As casas de pedra voltam a ter luz, as portas abrem-se, as varandas enchem-se de flores e as ruas ganham vida com reencontros que tantas vezes trazem lágrimas e sorrisos ao mesmo tempo.

É tempo de festas – foram as festas do Espírito Santo, agora são as festas dos Padroeiros das nossas Freguesias ou os festivais de Verão – e tempo de convívios, de bailes à moda antiga como a chamarrita e de voltar a comer lapas, inhames e massa sovada feita pela avó ou ao jeito das nossas avós.

Nas ilhas, o verão ganha outro sabor quando os nossos emigrantes voltam. Porque os que emigraram nunca deixaram de ser parte desta terra – levaram os Açores no coração, mesmo que o inverno seja passado em Toronto, Boston ou Fall River. E quando regressam, trazem com eles uma ponte viva entre mundos: histórias de vida dura, de sucesso, de luta e de orgulho das suas origens.

É um tempo curto, mas intenso. As festas são vividas com mais fervor pelos nossos emigrantes do que por muitos dos que cá vivem, os convívios prolongam-se pela noite dentro, e há sempre espaço para mais um café, mais uma visita, mais uma lembrança partilhada.

Quando partem, deixam um vazio – mas também a certeza de que a sua terra os espera sempre de braços abertos. Porque ser açoriano é isso mesmo: é estar longe, mas nunca ausente. E no verão, os Açores voltam a ser de todos, mesmo dos que partiram há décadas.

Não há casa ou família que não receba durante este tempo estival um familiar ou amigo, emigrado no estrangeiro, que vem matar saudades, cumprimentar os familiares e amigos, celebrar uma festa no cumprimento de um voto ao Divino Espírito Santo ou simplesmente voltar às origens e dizer com orgulho: nasci aqui, calcorreei estas ruas, trabalhei estas terras, por isso, embora esteja distante, continuo perto de tudo e de todos. Esta é, e será sempre, a minha terra e a minha gente.”

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Jose Andrade, Diretor Regional das Comunidades do Governo da Região Autónoma dos Açores

 

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