Jornais, boletins e revistas de caráter político, literário, religioso e humorístico dominam o panorama da imprensa açoriana do século XIX, em grande parte dos casos com existência efémera, tiragens reduzidas e número mínimo de páginas.
A efervescência política traduz-se na publicação de inúmeros jornais de caráter partidário que se atacam mutuamente.
Por exemplo, o jornal “A Rebeca do Diabo”, em Ponta Delgada, de política progressista, assumidamente ‘creado para combater os excessos políticos d’”O Campeão Popular”’.
Outro exemplo, o jornal “A Verdade”, também em Ponta Delgada, que se assume como órgão oficial ‘principalmente destinado a acalmar a efervescência partidária alimentada pelo “Cartista dos Açores”’.
A fundação de outros jornais é também motivada pela oposição aos poderes político e religioso instituídos.
Três exemplos na ilha Terceira: o “Correio da Terceira” destinava-se a provocar a extinção da Relação dos Açores”; “O Protesto” era um jornal ‘de oposição ao Governador Civil Conde da Praia da Victória’; “A Trombeta Açoriana” assumia-se como ‘jornal ecclesiástico, político e noticioso que faz oposição ao bispo D. Frei Estevam de Jesus Maria’.
No plano político, o Partido Regenerador faz publicar, como órgãos oficiais da sua mensagem ideológica, os jornais “A Ilha”, “A Persuasão” e “A Voz do Progresso”, em Ponta Delgada, “Ecco Liberal”, “A Regeneração” e “A Sentinella”, na cidade da Horta, entre outros.
O Partido Progressista, por seu turno, edita “O Povo Açoriano” em Ponta Delgada, “O Angrense” em Angra do Heroísmo, “Jornal da Praia” na Praia da Vitória, “A União” na Horta e “Ecco Jorgense” nas Velas de São Jorge.
O Partido Reformista publica em Angra do Heroísmo “O Liberal” e o Partido Cartista funda em Ponta Delgada “A Ilha”, “O Noticiador” e “O Cartista dos Açores”, enquanto o Partido Liberal edita “A Ideia Nova” na cidade terceirense.
“A Evolução”, do Partido Republicano Terceirense, e “A República Federal”, do Centro Republicano Federal de Ponta Delgada, são jornais de política republicana, tal como “O Trabalhador” nas Lajes das Flores.
Merecem referência outros títulos político-partidários da imprensa açoriana do século XIX, como, em Ponta Delgada, “O Correio Michaelense” (órgão oficial do Partido Popular e progressista e, depois, do Partido Setembrista) e ainda “O Monitor”, do Partido Conservador, para além de “O Repórter”, de política socialista.
Angra do Heroísmo conhece ainda o “Independente da Terceira”, um jornal republicano separatista, e os periódicos “Direito do Povo”, “O Futuro” e “A Voz do Artista”, como órgãos da Classe Operária.
Caso curioso, o jornal faialense “O Raio” defendeu no primeiro número a política republicana e, a partir do segundo, a política progressista, enquanto que, em Ponta Delgada, “O Commercio Michaelense” apresentava-se como ‘jornal de feição semirreligiosa, mais ou menos afecto à política regeneradora’.
A imprensa terceirense corporizou assinaláveis batalhas jornalísticas, como, logo em 1835, a polémica sustentada entre “O Liberal”, órgão do Partido Reformista, e o “Sentinella”, do Partido Conservador.
Ou, já em 1878, quando o jornal “A Ronda”, de política progressista, mantém violenta polémica com outro “Sentinella”, de política regeneradora, que, por sua vez, alimentava oposição ao Segundo Conde da Praia da Vitória.
De tal forma a imprensa açoriana do século XIX é politicamente conflituosa, que o redator principal do “Sentinella Constitucional dos Açores”, capitão José Rafael da Costa, é assassinado em 1836, ‘alegadamente por causa dos seus escriptos’ nesse primeiro jornal de política conservadora da ilha Terceira.
Significativamente, em 1874 é fundado na Horta “O Observador”, que pretendia ‘exercer uma missão de conciliação entre os partidos que se dilaceravam no campo desastrado das intrigas e dos ódios pessoais’.
(continua na próxima edição)
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Jose M.M. Andrade, Diretor Regional das Comunidades do Governo da Região Autónoma dos Açores
Baseado na conferência “Para uma História da Imprensa Açoriana”, proferida na Biblioteca Pública de Angra do Heroísmo, a 3 de julho de 2025





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