Tributo à memória do prof. António Casimiro Por Duarte B. Mendonça

by | Jul 8, 2026 | Notícias das comunidades

 

Nas vésperas de uma nova visita a New Bedford venho por este meio recordar e homenagear postumamente uma figura que me ajudou imenso, em 2002, e por quem nutro um grande sentimento de reconhecimento e gratidão.

Falo do prof. António Casimiro, antigo docente da Portuguese United for Education, a escola primária vocacionada para o ensino da nossa língua aos luso-descendentes, que se situava na Crapo Street, por cima da Casa da Saudade. 

Nessa altura estava eu a frequentar o meu mestrado, na Universidade da Madeira e, inspirado no exemplo do Prof. Onésimo Almeida, que conhecera na Brown dois anos antes e que escrevia muito sobre os açorianos na América, eu inquiri então junto do meu amigo e conterrâneo Leonel Teixeira, de Pawtucket, RI, se porventura existiria alguma importante comunidade madeirense na costa leste desse país que merecesse a pena ser estudada. Sem hesitação ele recomendou-me de imediato a cidade de New Bedford, acrescentando que ali se fazia, desde há muitos anos, a festa do Santíssimo Sacramento, organizada por um club madeirense, havendo ainda ali um museu madeirense, e sublinhando que eu deveria apostar na mesma.

Assim fiz, mas colocou-se de imediato um problema, dado que eu só tinha visitado New Bedford, fugazmente, dois anos antes, na sua companhia, de modo a ficar a conhecer o Museum of Madeiran Heritage, numa visita guiada conduzida pelo meu saudoso amigo Joseph Sousa, conforme referi na minha crónica anterior, e não conhecia ali mais ninguém. A investigação para uma tese académica é algo muito demorado e precisaria dum lugar para ficar durante a mesma. Voltei-me novamente para Leonel Teixeira e perguntei-lhe se me poderia indicar alguém que me pudesse acolher durante algum tempo na Cidade Baleeira. Através de uma senhora, sua amiga, foi-lhe recomendado o nome do prof. António Casimiro, de quem eu nunca havia ouvido falar anteriormente, mas que, como vivia só, e tinha um quarto vago na sua casa, se disponibilizara para me receber.

Assim sendo, em Fevereiro de 2002 fui bater à sua porta, em 72, Hudson Street, onde fiquei durante um mês. E, algum tempo volvido, ele voltou a acolher-me, na sua casa, durante uns dois meses, no Verão desse mesmo ano, de modo a que eu pudesse concluir a minha exaustiva pesquisa, quer na colecção do antigo Diário de Notícias de New Bedford, mantido na UMass Dartmouth, que passei a pente fino, quer ainda na do Portuguese Times, existente na antiga sede deste jornal, na Acushnet Avenue.

Ao longo desses três meses fiquei a conhecer muito bem a personalidade e grande generosidade do Prof. António Casimiro, homem muito culto, mas discreto e humilde. Divorciado, mantinha uma excelente relação com a sua filha Joanne e com o seu neto Andrew, de quem me falava com muito enlevo e por quem nutria um grande carinho. Ao ponto de manter, no atendedor de chamadas do seu telefone de casa, a gravação da sua voz de menino a informar que, de momento, o avô não podia atender a chamada e que deixasse mensagem.

Tornámo-nos amigos desde o primeiro instante em que nos conhecemos e, para mim, ele foi como um pai, mas, muito mais do que isso foi um grande Amigo, e a sua memória viverá comigo para sempre. Porque eu devo-lhe parte do meu sucesso com a minha tese de mestrado, que posteriormente foi publicada aqui na Madeira e algum tempo depois foi apresentada na sede do Club Madeirense S. S. Sacramento, Inc., em New Bedford. E, na primeira fila, lá estava ele, orgulhoso, a assistir a esse evento. Assim como estava ele, na Casa da Saudade, a assistir à primeira conferência que eu ali apresentei, em 2002, sobre o tema da emigração madeirense para a América. Assim como estava ele, sentado no sofá da sua casa, ao meu lado, a assistir às minhas primeiras entrevistas no Portuguese Channel, dizendo: “A partir de hoje toda a gente vai ficar a saber que estás aqui e o que estás aqui a fazer.”

Nessas duas primeiras estadias na sua casa, para fins de pesquisa para a minha tese, recordo-me que ele fazia questão de, todos os dias da semana, me levar no seu carro até à UMass Dartmouth ou até à sede do Portuguese Times, para que eu lá pudesse realizar a minha investigação, regressando eu depois, no final do dia, de autocarro, à sua moradia. E no final dessas estadas com ele, quando me aprestava para regressar à Madeira, eu quis lhe retribuir a sua grande atenção para comigo oferecendo-lhe alguns dólares, nem que fosse para a despesa da gasolina, mas ele sempre se recusou a receber importância alguma da minha parte. Por esse facto, eu tenho para com ele uma grande admiração e, sobretudo, um enorme e eterno sentimento de gratidão. 

Por viver só, rodeava-se de livros e, sobretudo de discos. A sua enorme colecção de vinis de música clássica era impressionante, assim como o era o seu conhecimento sobre esse tipo de música. Nas paredes da sua sala, para além dum quadro mostrando a sua amada Vila Franca do Campo, a sua terra natal, havia também um ou dois grandes posters de conhecidas óperas, género musical de que também era grande apreciador. Todas as semanas ele comprava, religiosamente, a edição do The New York Times, que lia praticamente de fio a pavio, indicando-me a leitura de um ou outro artigo mais significativo. Por falar nesse jornal, recordo-me dele me ter indicado, com orgulho, que um dia havia sido citado no mesmo. Lembrando-me disso, anos volvidos realizei uma breve pesquisa nesse jornal e encontrei a dita citação, alusiva ao caso do tristemente célebre “Big Dan’s”, do qual ele conhecia pessoalmente todos os protagonistas e fez-me o relato circunstanciado desse inditoso acontecimento.

Muito aprendi com ele sobre o panorama social e político dos Estados Unidos, sobre a comunidade açoriana em New Bedford e em Fall River, e também sobre o que era viver nesse país. Recordo-me, inclusive, de um dia ele me ter levado a assistir, num restaurante da cidade, a um comício do político Tony Cabral, nas vésperas de uma nova eleição. 

Generoso como era, o Prof. Casimiro voltaria a acolher-me graciosamente na sua casa, situada na “Península”, como ele apelidava a parte sul de New Bedford, por mais algumas vezes. E recordo-me de, numa dessas ocasiões, ao assistir com ele ao último episódio do programa da famosa apresentadora Barbara Walters ele me ter dito que aquele era um momento histórico da televisão norte-americana. 

A partir duma certa altura, os meus amigos Zita Quintal e o seu marido Tony Quintal, que são como pais para mim, passaram a acolher-me generosamente na sua casa, sita ao norte de New Bedford, mas sempre que eu visitava essa cidade eu fazia questão de ir visitar o meu velho amigo António Casimiro e de conversar com ele por alguns momentos. Recordo-me vivamente da última vez que o fiz, por volta do ano 2020, na companhia da minha filha Francisca, tendo-lhe levado uma pequena lembrança da Madeira. Nessa altura ele já se encontrava alquebrado e doente e já tinha uma cuidadora, mas o seu olhar triste e cansado iluminou-se quando me viu chegar ao seu domicílio e enquanto estivemos a conversar. Foi a última vez que o vi, mas levarei para toda a vida o seu nobre exemplo de generosidade inter-ilhas, por ter acolhido, em 2002, um desconhecido madeirense e, no processo, nos termos tornado grandes amigos.

Foi graças a pessoas como ele, ao prof. Onésimo Almeida e ao saudoso Manuel Adelino Ferreira, antigo diretor do Portuguese Times, lídimos representantes dos Açores, com quem mais lidei nas minhas primeiras deambulações pela América, que comecei a formular uma simpática imagem desse arquipélago-irmão, que até então nunca havia visitado.

Bem-hajas, caro amigo António Casimiro, por tudo, mas sobretudo por me ensinares o significado da palavra amizade.

 

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