Três reis e três rainhas navegaram entre Lisboa e o Rio de Janeiro

by | Jun 10, 2026 | A Descoberta

O historiador brasileiro Paulo Rezzutti está em Portugal para promover a sua biografia de D. João VI. Foi o rei português que mudou a capital de Lisboa para o Rio de Janeiro e assim evitou ser capturado pelas tropas de Napoleão. Dizem que fugiu, mas foi mais uma retirada estratégica. Como brinca Rezzutti, “ninguém foge e leva a biblioteca atrás”. D. João levou.

Entre 1808 e 1821, D. João VI viveu feliz nos trópicos. Enquanto na Europa, os tempos eram perigosos, com Portugal a ser ameaçado pela França para fechar os portos à Inglaterra, a velha aliada, ali na América do Sul o então príncipe regente (só foi rei a partir de 1816, quando morreu a mãe, D. Maria I, a rainha louca) era o mais poderoso: mandou invadir a Guiana Francesa e conquistou o atual Uruguai, que o Brasil independente perdeu anos depois.

Ao fim de 13 anos, D. João VI regressou contrariado a Lisboa. Tinha havido a Revolução Liberal e o povo queria o seu rei de volta. Afinal, Napoleão tinha sido derrotado em Waterloo, e preso na ilha de Santa Helena. Portugal estava salvo e até o rei espanhol, que Napoleão prendera, voltara o trono.

A família real portuguesa fez nova travessia do Atlântico, em 1821. Para trás, ficou D. Pedro, que um ano depois proclamou a independência do Brasil, e se tornou o imperador D. Pedro I. Mais tarde, foi rei de Portugal como D. Pedro IV, abdicando logo para a filha, D. Maria II, nascida no Rio de Janeiro. Os Braganças continuaram a reinar nos dois países, mas com coroas separadas. Se olharmos para 1850, meio do século XIX, D. Maria II reinava em Portugal e o irmão D. Pedro II era imperador do Brasil. Dois netos de D. João VI.

Mas voltemos a novembro de 1807, quando a família real cruzou o Atlântico a caminho do Brasil. Rezzutti faz as contas: a bordo iam três reis (um deles também seria imperador) e três rainhas: os futuros reis D. João VI, D. Pedro IV (I do Brasil) e D. Miguel, D. Maria I (que morrerá no Rio de Janeiro), D. Carlota Joaquina e D. Maria Isabel (filha de D. João que vai casar com Fernando VII de Espanha, rei que chegou a estar aprisionado por Napoleão). Na verdade, tecnicamente a rainha louca foi o primeiro monarca europeu a viajar até às Américas, e a ficar lá a viver.

 

* Jornalista do DN. É doutorado em História e autor do livro ‘Encontros e Encontrões de Portugal no mundo’.

 

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