Ricardo Ribeiro diz que novo álbum é quase uma canção de si mesmo

by | Mar 12, 2026 | Cultura, Outras Notícias, Outros

Lisboa, 12 mar 2026 (Lusa) – O fadista Ricardo Ribeiro disse que o seu novo álbum, “A Alma Só Está Bem Onde não Cabe”, a editar na próxima sexta-feira, é como “parte de uma canção” de si mesmo, vem da vontade de estar desperto para o mundo.

“É um disco que vem de uma serenidade, é quase parte de uma canção de mim mesmo que se ergue como um palácio na sombra”, disse à agência Lusa.

O álbum é constituído por 11 canções, três delas assinadas, letra e música, por Ricardo Ribeiro – “Amanhã”, “Mantra” e “Morena” -, que musicou ainda um poema de Manuel Alegre, “Moda do Adeus”, e assina a letra “Golpe a Golpe”, musicada por Amélia Muge.

Ricardo Ribeiro disse que “até aqui tinha muitos complexos, medos e alguma vergonha” em escrever, e que não deixou de ter, sobretudo lendo autores como Teixeira de Pascoaes, José Régio, Daniel Faria, Manuel Alegre, Paul Verlaine, Adonis, Adélia Prado, entre muitos outros.

O músico, porém, mostrou os seus poemas a Nuno Júdice – poeta que morreu há cerca de dois anos -, e que lhe terá confirmado a qualidade de alguns textos: “Este é bom”, citou Ricardo Ribeiro.

Os conselhos do pianista João Paulo Esteves da Silva e da equipa com quem trabalha também ajudaram. Esteves da Silva, garante o cantor, “não dá só palmadinhas nas costas, mas também faz críticas construtivas”.

Tudo junto deu-lhe confiança, e Ricardo Ribeiro aventurou-se a cantar o que escreve e compõe, canções com a sua “própria verdade, como ‘Morena’ ou ‘Amanhã’”, contou à agência Lusa.

Os outros autores do novo álbum são Agir – autor da letra e da música de “Má Sorte” e de “Maré” -, Cátia Oliveira (A Garota Não), Dori Caymmi, Manuel Alcantara, Manuel Oliveira, Mayte Martín, Paulo César Pinheiro e Teresa Núncio.

Entre as canções, Ricardo Ribeiro gravou, em espanhol, “Por la Chica del Puerto”, uma criação da cantautora catalã Mayte Martín, sobre um poema de Manuel Alcántara, autor andaluz que admira muito. Não o fez a pensar no mercado internacional, garante, mas ficará “muito feliz se for essa a consequência”.

O intérprete reconheceu estar a traçar um caminho de “independência artística” e “mesmo na criação, em termos de fazer o que vai dentro [de si], e de pôr cá fora, sem nenhum medo, nem nenhum artifício”.

Ricardo Ribeiro citou um dos temas do álbum, “Oração” (T. Núncio/M. Oliveira), a propósito desta sua vontade de autonomia: “Que não me deixe enganar/ Que não me vença a timidez/ Que ninguém me tente parar/ Do que ninguém fez”.

Sobre a escolha de Manuel Alegre, Ricardo Ribeiro disse que o poeta fez algo que nunca tinha feito, isto é, “ter escrito para uma música já composta”.

“Enviei esta moda alentejana que fiz, e o Manuel Alegre fez logo os versos, o que foi de uma grande generosidade, e me deixa muito honrado”, disse à Lusa.

O novo álbum, “A Alma Só Está Bem Onde não Cabe”, foi construído ao longo do ano passado, “de uma forma muito ligeira, no melhor sentido do termo, no sentido de ser muito natural, com tudo muito estruturado e as ideias postas no devido lugar, isto é, com o que eu queria dizer com cada canção”.

Questionado sobre a escolha do título do álbum, Ribeiro afirmou: “Porque se queres dormir entretém-te, se queres despertar contempla a arte, portanto, foi exatamente isso que eu fiz, quis despertar, e por isso o chamei ‘A Alma Só Está Bem Onde não Cabe’, exatamente por [a alma] não caber em nós, e precisarmos de amar o outro, precisarmos de criar arte e coisas belas para o mundo”.

O alinhamento abre com “51” (A Garota Não), inclui ainda canções como “Voz de Mágoa”, de Paulo César Pinheiro e Dori Caymmi, e encerra com “Por la Chica del Puerto”.

Sobre a escolha das líricas, confessou: “Quando encontro os poemas ou os enviam e leio, é como um assalto à tal alma que não cabe aqui”.

Ricardo convidou Ana Moura para gravar “Maré” (Agir), “por a admirar”: “Traz uma sensibilidade única à canção”, garantiu.

O músico, que já gravou com o libanês Rabih Abou-Khalil, cantou Fernando Girão e Rui Veloso, que assume o fado mas também o fascínio pelo jazz, a música árabe e o flamenco, como fez em “Respeitosa Mente”, o cantor que deu voz a música antiga e recebeu os Prémios Amália Revelação (2005) e de Melhor Intérprete (2011), entre muitos outros, reconheceu à Lusa que este álbum se afasta do fado, género em que se iniciou e cresceu artisticamente, garantindo que não o chocam eventuais críticas.

“Passamos a vida a criticar para depois passarmos uma eternidade a ressuscitar. Sacrifica-se um artista porque só deve fazer uma única coisa”, apontou. acrescentando: “Considerando-me – perdoem-me a arrogância – um português do Renascimento, limitar-me a fazer só uma só coisa e não pôr cá fora a música que tenho, a poesia que sinto necessidade de dizer aos outros e a mim também, seria uma crucifixação e uma castração”.

“O público vai entender, e posso dizer que podem sentir, em algumas coisas, muito fado mesmo, e se calhar mais puro e mais duro do que aquele que achamos puro e duro mesmo”, argumentou, reconhecendo que sabe o terreno que pisa.

Este álbum “pode ser um fado, um chamamento de muezim, lamento de escravo, ou uma súplica de condenado, mas é sempre uma voz apaixonada desejosa de instantes, de um grito que está inscrito no outro lado do canto”, concluiu.

 

 

 

 

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