Cláudio Manuel Neves Valente, 48 anos, cidadão português sem antecedentes criminais conhecidos, é o presumível autor de três homicídios que chocaram os Estados Unidos.
A 13 de dezembro, usando máscara para não ser identificado, Valente entrou numa sala de aulas da Universidade Brown, em Providence, onde tinha sido aluno há 23 anos, e matou dois alunos e feriu nove.
Dois dias depois, a 15 de dezembro e a 80 quilómetros de Providence, em Brookline, subúrbio de Boston, Valente bateu à porta do apartamento de um antigo colega da universidade em Portugal, Nuno Loureiro, 47 anos, professor do prestigioso Massachusetts Institute of Technology, e matou-o com três tiros.
De Brookline, onde não usou máscara, aparentemente como se pretendesse ser identificado pela vítima, Valente seguiu para Salem, New Hampshire, onde tinha alugado um espaço num armazém de arrecadações e suicidou-se com um tiro na cabeça no dia 16 de dezembro, mas o corpo só foi encontrado dois dias depois.
As investigações ainda decorrem, mas os investigadores já concluiram que os homicídios foram premeditados e não foram fruto de um episódio momentâneo de loucura, pois foram planeados ao longo de 13 dias. Foram encontradas várias imagens de vídeosegurança do veículo de Valente à porta da Brown e dele a caminhar nas redondezas e a entrar no edifício de apartamentos onde morava Nuno Loureiro.
Valente não deixou nada escrito e aquilo que os investigadores ainda pretendem saber são as suas motivações. Loureiro e Valente foram colegas do curso de licenciatura em Engenharia Física Tecnológica do Instituto Superior Técnico (IST) de Lisboa, entre 1995 e 2000.
De acordo com nota publicada no Facebook por Filipe Moura, colega de Valente e Nuno Loureiro no IST, “Cláudio era um dos melhores e nas aulas tinha uma necessidade muito grande de se fazer notar e de mostrar que era melhor do que os outros (…) envolvendo-se frequentemente em quezílias com colegas”.
Valente, natural de Torres Novas, era reconhecido como um aluno com uma mente brilhante. No ensino secundário, aos 17 anos, foi um dos cinco alunos selecionados para participar numa competição nacional de Física, aos 18 competiu na Austrália e foi o melhor do curso ao concluir a licenciatura com 19 valores em 2000, tendo sido convidado para monitor, o aluno que ajuda os professores nas aulas, mas o contrato foi rescindido em fevereiro de 2000 e, em agosto, Valente chegou aos Estados Unidos para frequentar um programa de pós-graduação na Brown.
Valente foi aluno da Brown entre agosto de 2000 e abril de 2001, frequentando uma pós graduação em física, mas abandonou o curso por motivos desconhecidos sem concluir o doutoramento e regressou a Portugal para trabalhar como informático no portal SAPO.
Voltou aos Estados Unidos cinco anos depois, viveu em Las Vegas e ultimamente vivia em Miami, mas parecia continuar atormentado pelo fracasso da carreira académica, ao contrário de Loureiro, que se tornou um físico de reputação internacional.
Nuno Loureiro começou por formar-se em Engenharia Física Tecnológica no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, onde foi investigador no Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear. Seguiu-se o doutoramento em Física no Imperial College London, no Reino Unido, tendo ainda feito trabalho de pós-doutoramento no britânico Centro de Energia de Fusão UKAEA Culham e no Laboratório de Física de Plasma de Princeton, nos Estados Unidos.
Nuno Loureiro mudou-se para os Estados Unidos em 2016, quando começou a lecionar no reputado MIT e, no início de 2024, foi nomeado diretor do Plasma Science and Fusion Center, um dos centros de investigação mais importantes daquela universidade de Boston.
Nuno Loureiro venceu importantes prémios nos Estados Unidos, como o Prémio Carreira da Fundação Nacional de Ciência (NSF), em 2017 e, em 2025, o Prémio Presidencial de Início de Carreira para Cientistas e Engenheiros, atribuído pela Casa Branca
Uma das hipóteses colocadas pelos investigadores é se antigas rivalidades académicas com Loureiro terão contribuído para o crime, mas o relacionamento do homicida com a vítima é um mistério.
Conforme diz o lusodescendente Peter Neronha, procurador-geral de Rhode Island, estado onde se situa a Universidade Brown, ainda “há muitas incógnitas” e que provavelmente nunca serão esclarecidas.
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Crimes que deram que falar
O assassinato do cientista português Nuno Loureiro, professor do MIT de Boston e o facto do criminoso ser também de nacionalidade portuguesa trouxe novamente para o espaço público a discussão sobre crimes graves cometidos por cidadãos portugueses nos Estados Unidos.
De vez em quando existem casos de homicídio de grande impacto nas comunidades luso-americanas da Nova Inglaterra, mas o caso mais falado foi talvez o da discoteca Foxy Lady, uma discoteca de striptease na Pope’s Island, New Bedford, em Massachusetts.
Scott Medeiros, 35 anos, de Freetown, tinha instalado um sistema de segurança no edifício, começou a ser cliente da discoteca e envolveu-se com uma empregada do bar, que já tinha um relacionamento (e um filho) com Bobby Carreiro, 33 anos, o funcionário da segurança da discoteca.
Medeiros tinha-se envolvido romanticamente com a empregada do bar quando o relacionamento dela com Carreiro arrefeceu, mas eles reataram e Medeiros deixou de ser bem-vindo na discoteca.
Medeiros foi aconselhado a afastar-se pelo gerente da discoteca, Tory Marandos, 30 anos, sobrinho do proprietário, Tom Tsoumas.
Mas na madrugada do 12 de dezembro de 2006, Medeiros entrou na discoteca para resolver o triângulo amoroso e um acerto de contas com a namorada que o tinha abandonado.
Aparentemente, Medeiros planeou bem a operação, levava uma máscara de esqui preta a camuflar o rosto, um colete à prova de bala a proteger o peito e uma carabina automática.
Começou por matar Tory Marandos e depois Bobby Carreiro. Feriu dois polícias que foram chamados quando começou o tiroteio e acabou por se suicidar.
Para sorte dela, a empregada do bar por quem Medeiros perdeu a cabeça não estava de serviço naquela noite.
Outro caso famoso foi na tipografia do Providence Journal, na Kinsley Avenue, em Providence, onde o português Carlos Pacheco, 38 anos, trabalhava há 20 anos.
Na manhã de 8 de junho de 2002, Pacheco entrou no edifício por volta das 9h30 e matou a tiro o seu supervisor Robert Bennetti, 38 anos, residente em Pawtucket, e depois saiu e disparou contra outro funcionário, Charles Johnson, 30 anos, que foi atingido na cara, mas sobreviveu.
A polícia estadual apurou que, depois de ter saído do jornal, Pacheco telefonou para o 911 três vezes. Na primeira chamada, às 9h28, Pacheco disse ao atendedor que tinha baleado duas pessoas. Na segunda chamada, às 9h40, identificou-se e disse que retornaria a chamada em cinco minutos. Disse que ficaria “muito insatisfeito” se não falasse com o detetive James Dougherty, que o tinha mandado parar no início dessa semana por uma aparente infração de trânsito, mas não o tinha multado. Pacheco voltou a telefonar às 9h45, mas desligou.
Poucos minutos depois, a polícia recebeu uma chamada a informar que um carro estava em chamas perto do aeroporto em Warwick, a cerca de 21 quilómetros de Providence, e havia um corpo carbonizado no interior. Era Carlos Pacheco, que tinha comprado com orgulho o carro um mês antes. O carro tinha sido encharcado com um acelerante e foi encontrada uma pistola no seu interior.
Não muito distante do carro de Pacheco, em Warwick, a polícia encontrou o corpo de Matthew Fandetti, 29 anos, outro empregado da gráfica do Providence Journal morto a tiro na sua casa.
A polícia tentou reconstituir os últimos dias da vida de Carlos Pacheco, questionando o que poderia tê-lo levado a matar a tiro dois colegas de trabalho. Familiares disseram que Pacheco vinha sendo alvo de provocações e ridicularizado por membros do sindicato que o pressionavam para se filiar no sindicato, a Secção Local 64 dos Teamsters. Embora não fosse membro do sindicato, Pacheco pagava 92% da quota sindical, conforme exigido. As provocações ter-se-iam tornado tão intensas que levaram Pacheco ao desespero.
Acrescente-se que o Providence Journal é hoje propriedade do grupo Gannett Company, a maior editora de jornais dos Estados Unidos, com mais de uma centena de diários e o jornal passou a ser impresso na central de produção dos novos donos em Auburn, Massachusetts. A última edição do Providence Journal impressa na tipografia da Kinsley Avenue, em Providence, foi publicada a 9 de março de 2025.





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