O verão do nosso descontentamento

by | Sep 17, 2025 | Crónica do Atlântico

Quem teve o privilégio de visitar as nossas ilhas durante este Verão certamente terá notado um sentimento comum nas respectivas populações: uma profunda desilusão e descontentamento com este segundo governo de José Manuel Bolieiro.

A inércia da coligação é uma cópia pintada dos piores governos do PS.

O pior que pode acontecer na política é os governantes afastarem-se dos cidadãos e darem sinais de insensibilidade social.

O que estamos a assistir não é nada bom para a política. Há governantes que estão ausentes dos problemas das populações e remetidos a uma bolha interna de ostentação que não tem correspondência com a realidade das dificuldades da Região.

Com as devidas dimensões, tanto é insensível Luís Montenegro estar em festa no Pontal, quando o país está a arder, como é insensato governantes regionais dançarem em marchas festivas ou mostrarem-se em eventos longínquos, quando cidadãos e empresários reclamam a falta de produtos nas prateleiras e turistas e residentes dormem no chão nos aeroportos por irresponsabilidade de empresas públicas e falta de liderança das tutelas.

O descontentamento popular é crescente porque chegados aqui, cinco anos depois, esta coligação não tem uma única reforma estrutural que se veja. É tudo adiado, tudo estudado por mais de uma vez e tudo arrumado nas gavetas bolorentas da burocracia governativa.

Conclusão: temos uma região sem dinheiro, uma companhia aérea cada vez mais falida, empresas públicas inúteis e cada vez mais nomeações de amigos e bajuladores do regime, agigantando ainda mais a enorme galáxia pública que não se consegue sustentar.

Uma Região com 20 mil funcionários públicos e a endividar-se à razão de quase 1 milhão de euros por dia, não tem sustentação. Toda a riqueza que produzimos e a receita que damos como contribuintes já nem dão para cobrir as despesas da enorme máquina administrativa regional, quanto mais para investir naquilo que realmente necessitamos.

Não admira que os recursos da coligação estejam em coma, sem estímulos para responder aos inúmeros pagamentos em atraso em todos os sectores de actividade, incluindo esta desumanização que é esperar mais de um ano pelo pagamento da deslocação de doentes.

Há famílias inteiras, por estas ilhas fora, a suspirar por uma consulta de especialista ou uma intervenção cirúrgica, os agricultores pedem reuniões de urgência, os pescadores pedem demissões no governo, os empresários aguardam pagamentos desde o tempo do Covid, o custo de vida continua a galopar, há assuntos decisivos para o desenvolvimento de várias ilhas que aguardam decisões há anos, mesmo depois de estudos e mais estudos, não se vê nenhum rasgo de reformas importantes que foram prometidas, tudo navegando como se tivéssemos uma governação de gestão corrente.

Até o turismo, único motor que vai arrastando a frágil economia regional, dá sinais de alguma retracção no seu crescimento, com menos turistas nacionais do que outrora, salvando-se o turismo subsidiado estrangeiro, que até já prefere o Alojamento Local aos hotéis, denotando a fuga aos preços elevados que estamos a pedir em vários sectores de actividade turística, proibitivos para os residentes.

A “economia pujante” de que se fala pode estar no centro de Ponta Delgada, mas o resto é muito frágil e cheio de dificuldades em várias ilhas, incluindo a ilha Terceira, com números preocupantes na actividade turística.

O próprio Indicador de Actividade Económica dos Açores, que os governantes gostam tanto de invocar, ainda não atingiu este ano, em nenhum mês, o crescimento de 2%, quando no ano passado já o tinha registado por três vezes em período homólogo.

Com 500 dias de governação, a coligação parece numa fase minguante, alunado consigo próprio, sem notar a crescente impopularidade por falta de decisões e de uma maior frescura dos seus protagonistas.

Nos piores governos do PS também foi assim que começou a queda.

Dá a impressão que os partidos do ‘centrão’ se acomodam, confiantes de que a alternativa é pior.

Eu não me fiaria muito nesta convicção, sabendo-se que os eleitores já não receiam entregar o seu voto a quem mais protesta de forma radical, quando não obtêm respostas dos partidos tradicionais.

As populações começam a ficar fartas e inquietas com tanta inércia. Até os autarcas e deputados da coligação se sentem incomodados quando confrontados pelos populares das suas circunscrições.

Não se admirem se um dia o país acordar com um Almirante em Chefe de Estado e André Ventura na liderança do governo. Ou cenário semelhante, com José Manuel Bolieiro a acordar e José Pacheco sentado na sua cadeira…

Para lá caminhamos.

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