Da última vez que visitou Portugal, Edgar Morin fez um passeio de barco pelo Tejo e comeu queijo de Serpa. Também lhe foi dado a provar vinho da Madeira. Ficou deliciado. Quem o contou foi Manuel José Guerreiro, um dos responsáveis por essa vinda do filósofo francês a Lisboa, para uma conferência sobre o humanismo. Aconteceu em 2023, Morin tinha então já 102 anos, e desde a década de 1960 era visitante de Portugal, para ele “um país extraordinário”.
Morin morreu a 29 de maio, aos 104 anos. Em França, o seu desaparecimento esteve na primeira página do ‘Le Monde’. E o presidente Emmanuel Macron disse dele que era “o humanismo em pessoa”. Morin não era apenas o autor de livros como ‘O Método’’ ou ‘Os Sete Saberes para a Educação do Futuro’. Tinha sido um resistente ao nazismo. Morin era, aliás, o ‘nom de guerre’ que lhe ficou da Segunda Guerra Mundial. Nasceu Edgar Nahoum, numa família judaica.
Também o presidente português homenageou o filósofo, recordando a velha amizade a Portugal. António José Seguro lembrou que há mais de 60 anos Morin tinha conhecido António Alçada Baptista, diretor da revista ‘O Tempo e o Modo’.
Os presidentes Jorge Sampaio e Marcelo Rebelo de Sousa condecoraram-no, este último na tal visita de 2023. Antes da conferência no Museu do Oriente, chamou-o a Belém para o homenagear com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.
Entrevistei Morin. Destaco aqui a parte em que falou de Mário Soares: “Oh, tive aqui tantos amigos! Venho a Portugal desde 1960, participei na revista O Tempo e o Modo, que tinha problemas com a censura, tive caros amigos, que infelizmente já morreram. António Alçada Baptista, Helena Vaz da Silva, Mário Soares, que conheci quando ele estava no exílio em França. E depois, quando houve a Revolução dos Cravos e ele teve dificuldades porque houve uma tentativa comunista de se apoderar do poder, eu fiz um grande artigo para defender Mário Soares em França. Porque muitos em França diziam que os portugueses não precisavam de liberdade, precisavam de pão. E eu disse que se tem de ter pão e tem de se ter liberdade”.
A entrevista foi ao final da tarde. Acompanhado da mulher, a marroquina Sabah Aboussalem, e da amiga luso-francesa Isabelle de Oliveira, Morin seguiu depois para uma casa de fados. Uma das muitas coisas de que gostava do “país extraordinário” era as sardinhas assadas e as batatas cozidas.
* Jornalista do DN. É doutorado em História e autor do livro ‘Encontros e Encontrões de Portugal no mundo’.



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