Graciosa baiana

by | Feb 4, 2026 | Décima Ilha

 

Salvador da Bahia é cidade-irmã de Angra do Heroísmo desde que em 1985 foi, também ela, classificada como Património Mundial da UNESCO. A comunidade açoriana ali radicada conta com cerca de um milhar de luso-brasileiros de naturalidade ou descendência e é especialmente proveniente da ilha Graciosa. 

 

Casa dos Açores

Depois do Rio de Janeiro (1952) e em simultâneo com São Paulo (1980), a Casa dos Açores da Bahia congrega formalmente, há 45 anos, uma parte representativa e influente dos açorianos de nascimento radicados na cidade da Salvador.

O seu cofundador e atual presidente é o empresário graciosense Orlando Souza da Silva. Nasceu na Praia da Graciosa há 77 anos e emigrou para as praias de Salvador com 17 anos de idade.

Começou como ajudante do “Armazém Açoriano”, afirmou-se como comerciante por conta própria, investiu em imobiliária e hoje é dirigente de todas as principais instituições lusitanas da capital baiana: conselheiro do Hospital Português, diretor da Quinta Portuguesa, fiscal do Gabinete Português de Leitura, presidente da Casa dos Açores.

Pela sua estimativa, residem atualmente na cidade de Salvador cerca de 50 açorianos de nascimento, que aqui tiveram uns 200 filhos e quase 1.000 netos. Estão maioritariamente no bairro de Itapuã, onde se encontra sedeada a própria Casa dos Açores, e são especialmente provenientes da ilha Graciosa, mas também da Terceira ou ainda de São Jorge, Pico e Faial.

Meia centena destes açorianos de primeira e segunda geração constitui o quadro social da Casa dos Açores, que apenas admite naturais ou descendentes como sócios, mediante uma mensalidade de 50 reais (cerca de 17 euros).

É simplesmente com esta receita própria que a direção suporta as despesas de funcionamento da sua sede de 1.700 metros quadrados – uma vivenda envolta em vegetação, com um vigilante permanente.

Mais do que para reunir os naturais dos Açores, esta instituição foi fundada em 1980 para que os descendentes de açorianos se pudessem conhecer e conviver em torno das suas referências identitárias. 

Por isso promove convívios regulares, a pretexto de uma alcatra, um bacalhau ou um polvo, e por isso organiza anualmente uma festa em louvor do Divino Espírito Santo, com as tradicionais sopas partilhadas por cerca de 250 pessoas.

 

Hospital Português

O Hospital Português da Bahia é o orgulho da comunidade açoriana de Salvador. É propriedade da “Real Sociedade Portuguesa de Beneficência Dezasseis de Setembro”, fundada em 1857, e ultimamente tem sido dirigido por sangue açoriano. João Martins da Fonseca e Agnelo Martins Gomes, ambos naturais da ilha Terceira, foram seus presidentes nos anos 60 e 80, respetivamente.

Orlando Manuel Cunha da Silva, economista e advogado já nascido em Salvador que é filho do presidente da Casa dos Açores, cumpriu depois três mandatos de dois anos como presidente do Hospital Português, em regime de voluntariado.

É açoriana ou açordescendente boa parte dos seus dois milhares de associados inscritos e quase metade da sua meia centena de conselheiros eleitos.

Localizada no bairro central da Barra e em processo de permanente expansão e modernização, esta instituição filantrópica envolve 3.500 funcionários e conta cerca de 3.000 médicos com ligação direta ou indireta ao seu corpo clínico. Assegura mais de 300 atendimentos por dia, oferece 400 camas de internamento e fatura uma média diária de um milhão de reais (mais de 300 mil euros).

Para além do hospital principal na capital estadual, a Sociedade gere também três hospitais no interior da Bahia e projeta crescer para mais três centros hospitalares com atendimento filantrópico reembolsado pelo Estado em valor inferior ao custo real.

 

Quinta Portuguesa

Detida e gerida pelo Hospital Português da Bahia, desde 1982, a Quinta Portuguesa ocupa uma área verde de 40 mil metros quadrados na cidade de Salvador.

É dirigida por Orlando Souza da Silva, o presidente da Casa dos Açores, tem 50 colaboradores permanentes e funciona como centro de aluguer para eventos (casamentos, convenções) e como unidade de alojamento com 40 apartamentos (incluindo residência para idosos).

Aqui se encontra o Salão Açores, o Restaurante Mouraria ou a Biblioteca Fernando Pessoa e aqui se organizam eventos comunitários como a Festa de S. João, que coincide com o feriado municipal de Salvador.

É também no interior desta Quinta que se encontra instalada, há 25 anos, a Escola de Faiança Portuguesa, do artesão septuagenário Eduardo Gomes, natural de Aveiro, o único português a manter esta arte no Estado baiano.

E é pela sua arte que surge, por exemplo, um painel de azulejos representativo da Imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres na parede da capela da Quinta Portuguesa de Salvador da Bahia.

Fica este painel para lá do equador, a 8 horas de voo ou a 6.500 quilómetros de distância de Lisboa, a assinalar que o espírito açoriano, afinal, está mesmo de norte a sul no outro lado do Atlântico…

 

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Diretor Regional das Comunidades do Governo da Região Autónoma dos Açores

Texto inspirado na visita realizada em 2015 à comunidade açoriana de Salvador da Bahia

 

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