Divina Santa Catarina

by | Feb 25, 2026 | Décima Ilha

 

Catorze festas do Divino Espírito Santo noutros tantos municípios da ilha de Santa Catarina testemunham a resistência e a representatividade da herança cultural açoriana que marca todo o litoral do Brasil meridional. Desde a festa de abertura do Ciclo de Divino em Florianópolis, inspirada nas Grandes Festas do Espírito Santo da sua cidade-irmã Ponta Delgada, até às genuínas celebrações populares de comunidades antigas, pequenas e distantes, como Ribeirão da Ilha ou Pântano do Sul, os caminhos do Divino percorrem mais de 270 anos de cumplicidade transatlântica… 

 

Irmandade de Florianópolis

A Irmandade do Divino Espírito de Santo de Florianópolis, fundada em 1773 e hoje com 800 irmãos, é um dos justificados motivos de orgulho de sucessivas gerações descendentes dos povoadores açorianos da ilha de Santa Catarina, no sul do Brasil.

Nasceu junto à catedral metropolitana da capital estadual, na então por isso designada “Rua do Espírito Santo”, e tem a Igreja do Divino Espírito Santo, construída em 1930, onde promove anualmente a sua festa maior. Segundo o provedor Jurandir Hostins, a própria história da Irmandade refere que “os portugueses vindos dos Açores, com saudade da sua terra, fundaram a festa”.

A festa do Pentecostes inicia-se com um tríduo que envolve a participação das 14 Irmandades do Divino ainda ativas na ilha de Santa Catarina, culminando domingo com uma missa campal para mais de mil pessoas, presidida pelo arcebispo metropolitano de Florianópolis, onde é coroado um adolescente em representação simbólica do Imperador.

 

Ribeirão da Ilha

Uma das genuínas festas do Divino decorre na comunidade de Ribeirão da Ilha. Começa com uma novena para a reza do terço numa capela à escolha do festeiro, realiza um cortejo no sábado e no domingo a missa de coroação de um casal de crianças, culminando com a cerimónia de entrega da coroa e da bandeira ao festeiro do ano seguinte.

Dário Gonçalves já foi um desses festeiros e quer voltar a ser “para pagar promessa”. Nasceu no Ribeirão da Ilha em 1961 e assume-se como “manezinho com muito orgulho”: “Minha família é toda açoriana, não sei a ilha, mas vou descobrir, minha mãe é Moreira”. Tem hoje dois restaurantes denominados “Rancho Açoriano” – um na sua comunidade natal e outro no Estreito, a parte continental da cidade de Florianópolis. “Nossa comida de origem açoriana aqui é o peixe frito”, explica.

Outro descendente de açorianos com restaurante típico na parte mais antiga da ilha e com participação empenhada na festa local em honra do Divino é Arante Monteiro Filho. O “Bar do Arante” fica na praia do Pântano do Sul, a 25 quilómetros da cidade de Florianópolis, e foi aberto pelos pais em 1958, no ano do seu nascimento.

 

Pântano do Sul 

As comunidades de Pântano do Sul e Armação integravam o povoado de Ribeirão da Ilha, na paróquia comum de Nossa Senhora da Lapa. “Armação era onde se caçavam as baleias e o Pântano dedicava-se mais à criação de gado, mas virou comunidade de pescadores a partir de 1960”. Com menos de dois mil habitantes, o Pântano do Sul era a comunidade mais isolada da ilha, preservando assim melhor as tradições culturais, porque só teve estrada asfaltada em 1984 – “antes as pessoas iam a pé, de carroça, de barco”.

Neste extremo sul da ilha de Santa Catarina, o Divino é festejado com o padreiro da comunidade piscatória, S. Pedro, no final de junho. Começa com a recolha de donativos e com a novena do terço, que até há cinco anos ainda era rezado em latim, “mas morreu quem sabia”. Durante a novena inaugurada com a entrega da bandeira na casa do imperador “todos os dias tem comes e bebes oferecidos pelo festeiro a todo o mundo que vai na reza e todos os dias tem arrematação das massas que são oferecidas pelos pescadores ao Divino”.

No sábado realiza-se uma procissão noturna, da casa do festeiro para a igreja, que passa pela areia da praia e termina com arraial popular, e no domingo de manhã decorre novo cortejo, com diferentes trajes imperiais alugados para cada ano, agora acompanhado pela banda “Amor à Arte”, fundada em Florianópolis no final do seculo XIX. Na missa o padre faz a coroação de um menino (“só temos uma coroa muito pequena; pedimos há muito uma maior aos Açores, mas nunca veio”) e na rua a folia do Divino canta o ritual de escolher à sorte o casal festeiro para o ano seguinte, com tambor, rebeca, violão.

Na opinião da professora e investigadora Lélia Pereira Nunes, autora de livros como “Caminhos do Divino”, esta festa do Espírito Santo da distante e pequena comunidade piscatória de Ribeirão da Ilha é a que permanece mais autêntica em Santa Catarina, embora elas se multipliquem em redor da ilha, como Campeche, Barra da Lagoa, Lagoa da Conceição, S. João do Rio Vermelho, Canasvieira, Santo António de Lisboa, Monte Verde, Prainha, Cachoeira do Rio Tavares ou Ribeirão da Ilha, além do centro da cidade e do estreito do continente.

 

Diretor Regional das Comunidades do Governo da Região Autónoma dos Açores
Texto inspirado na visita realizada em 2015 à comunidade açordescendente de Santa Catarina

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