Ruben Amorim foi demitido dia 5 de janeiro do cargo de treinador do Manchester United com a equipa na sexta posição da Premier League inglesa e a notícia foi como se tivesse caído o governo em Portugal.
Depois de uma passagem bem-sucedida pelo Sporting entre 2020 e 2024, que valeu dois títulos, Ruben Amorim, 40 anos, trocou Alvalade por Old Trafford em novembro de 2024 e com 10 milhões de euros de clausula de rescisão, mas tudo correu mal.
Nos 14 meses em que esteve à frente do Manchester United, Amorim conseguiu 25 vitórias e sofreu 23 derrotas, além de 18 empates. Não ganhou nenhum título e nem conseguiu a qualificação para as provas europeias. O melhor que conseguiu foi chegar à final da Liga Europa, em Bilbau, mas perdida (0-1) para o também britânico Tottenham.
Amorim deixou o Manchester United mas ainda ficaram três portugueses a treinar equipas da Premier League, o que nos diz do reconhecimento da qualidade dos técnicos portugueses no país que inventou o futebol: Nuno Espírito Santo (antigo guarda-redes que rendia Vitor Baía na baliza do FC Porto), treina o Nottingham Forest; Vítor Pereira estava no Wolverhampton, mas entretanto também foi demitido; e Marco Silva, que treina o Fulham desde 2021, depois de ter orientado o Everton e o Watford. Marco Silva ainda não conquistou nenhum título em Inglaterra, mas sagrou-se campeão da Grécia 2016 com o Olympiacos e nesta altura é um dos favoritos para suceder a Amorim no Manchester United.
Outros portugueses que passaram pela Premier League foram André Villas-Boas, atual presidente do FC Porto, que treinou o Chelsea e o Tottenham, a ganhar cinco milhões de euros anuais, oito vezes o vencimento auferido no Porto; Bruno Lage, que treinou o Wolverhampton e manteve-se 16 meses à frente da equipa quando a permanência média na Premier League são nove meses, e Carlos Carvalhal que passou por duas equipas (Sheffield e Swansea), mas preferiu regressar a Braga.
Amorim foi o nono treinador português a passar pela Premier League, entrando pela porta que José Mourinho abriu e hoje temos treinadores portugueses nas principais ligas europeias.
Na Alemanha, treinam dez portugueses em diferentes ligas: Carlos Rodrigues, Welat Sport; Hélio Viegas, Panteras Negras; Bruno Maio, TSV Inserm; Michael Silva, Juventude; João Oliveira Silva, BrYaven; José Barreto, FCE Rellingen; Carlos Saraiva, UDP; Aurélio Martins, MuS; Manuel Banha, Friesdorf, e Luís Trindade, Blumenau.
Na Ligue 1 de França, Luís Castro treina o Nantes e Paulo Fonseca o Lille, onde já tinha estado.
Na Grécia, portugueses treinam clubes candidatos ao título: Abel Ferreira treina o PAOK, Miguel Cardoso o AEK e Pedro Martins o Olympiacos.
Em Chipre, Carlos Fangueiro treina o Enosis Neon Paralimniou, Nuno Manta Santos o Spartakos Kitiou e Vítor Bruno o Pafos.
Em Itália, deram cartas Sérgio Conceição, que representou a Lazio, Parma e Inter de Milão como jogador, no tempo em que Luís Figo, Rui Costa e Paulo Sousa também deram cartas.
Sérgio Conceição treinou o AC Milan sucedendo a Paulo Fonseca, e conquistou a Supercopa de Itália 2024.
Paulo Sousa ganhou a Primeira Liga israelita com o Maccabi Tel Aviv em 2011 e 2012; a Super Liga suiça com Pasei em 2015 e a Liga Pro, a Super Cup e Cup do Presidente de 2024 dos Emirados Árabes Unidos com Shabab Ai Ahli.
Mas qual é o segredo do sucesso dos treinadores portugueses pelo mundo?
“Simples: nós treinamos bem e lideramos bem”, diz José Pereira, presidente da Associação Nacional de Treinadores de Futebol, que tem quase nove mil membros. “A emigração dos treinadores portugueses começou com Artur Jorge, campeão europeu pelo FC Porto em 1987, altura em que foi para França treinar o Paris Saint-Germain. Depois surge o sucesso do Figo, que também ajudou a que os estrangeiros olhassem mais para Portugal, depois o Mourinho deu o toque final”.
O falecido Artur Jorge (1946-2024), um treinador diferente (estudou Filologia Germanica na Universidade de Coimbra, lia poesia e colecionava pintura), foi o primeiro técnico português a projetar-se internacionalmente ao sagrar-se campeão europeu pelo Porto em 1987 e campeão português três vezes, campeão francês pelo PSG em 1994, campeão saudita e da Copa Asiática dos Campeões da Copa pelo Al Hilal em 2002 e campeão da Super Taça da Rússia pelo CSKA Moscovo em 2004, ano em que Mourinho chegou ao futebol inglês contratado pelo Chelsea.
Mourinho, atualmente no Benfica, entrou para a história logo com a primeira entrevista na televisão ao intitular-se ‘Special One’. Na Itália ficou conhecido como ‘Lo Speciale’ e em Espanha passou a ser ‘El Especial’.
Especial ou não, Mourinho promoveu como nenhum outro os treinadores portugueses, que são hoje, apenas atrás dos espanhóis, os segundos treinadores não nativos em maior número nas principais ligas europeias (Premier League inglesa, Serie A italiana, LaLiga espanhola, Bundesliga alemã e Ligue 1 francesa) e na Saudi Pro League da Arábia Saudita.
Na Arábia Saudita temos presentemente doze treinadores portugueses: Jorge Jesus no Al Nassar (o clube de Cristiano Ronaldo e João Félix), Sérgio Conceição no Al Ittihad, José Peseiro no Al Ula, Armando Evangelista no Damac, José Gomes no Al Fatech, Pedro Emanuel no Al Fayha, Mário Silva no Al Najma, Paulo Silva no Al Akhdoud, Ricardo Chéu no Al Jabalain, Jorge Mendonça no Al Raed, David Patrício no Al Anwar e Pedro Rodrigues no Al Jubail.
O treinador português é indiscutivelmente um dos melhores do mundo e há umas boas dezenas a trabalhar e a conquistar títulos em mais de 30 países.
O Brasileirão, o campeonato nacional brasileiro que envolve 20 clubes, contou com cinco treinadores portugueses em 2025: Renato Paiva no Botafogo, Abel Ferreira no Palmeiras, Leonardo Jardim no Cruzeiro, Pedro Caixinha no Santos e Pepa no Sport Recif.
Acrescente-se que três técnicos portugueses já conquistaram o Brasileirão: Jorge Jesus (Flamengo, 2019, ano em que ganhou também a Libertadores), Abel Ferreira (Palmeiras, 2022 e 2023) e um novo Artur Jorge (Botafogo, 2024).
Três portugueses já conquistaram a Libertadores, uma espécie de Liga dos Campeões da América do Sul: Jorge Jesus com o Flamengo, Abel Ferreira com o Palmeiras em 2020 e 2021, e Artur Jorge com o Botafogo em 2024.
Vários treinadores portugueses já se sagraram campeões em diferentes campeonatos com destaque para José Mourinho, que conquistou um total de 26 títulos, incluindo títulos nacionais em quatro países (Portugal, Itália, Espanha e Inglaterra, três títulos da Premier League e três Taças da Inglaterra), e as três provas europeias da UEFA, incluindo a Liga dos Campeões duas vezes: uma com o FC Porto em 2004 e outra com a Inter de Milão em 2010.
Manuel José, que durante quase uma década obteve enorme sucesso no Egito ao serviço do Al-Ahly, conquistando oito títulos nacionais egípcios e quatro Taças dos Campeões Africanos.
Outro treinador português com excelente currículo é Leonardo Jardim: campeão da França com o Mónaco (2017), campeão grego e Taça da Grécia com o Olympiacos (2013), Liga dos Campeões da AFC e Supercopa da Arábia Saudita com o Al Ahli Saudi FC (2021) e Liga dos Emirados Árabes Unidos com a Shabab Al Ahli (2023).
O veterano Jesualdo Ferreira também foi bem sucedido no Médio Oriente tendo conquistado dois títulos nacionais com o Zamalek do Egito e quatro títulos com o Al Sadd do Catar.
Jorge Jesus, Nuno Espírito Santo, José Morais e Rui Vitória também se sagraram campeões da Saudi Pro League.
Pedro Caixinha, com o Santos Laguna, venceu um campeonato do México e uma Taça do país.
André Villas-Boas também soma alguns troféus internacionais no seu currículo: foi campeão da Rússia pelo Zenit São Petersburgo em 2015 e ganhou a Copa da Rússia em 2016 e a Supercopa da Rússia em 2015.
Paulo Fonseca, presentemente no Lyon, de França, começou a sua aventura internacional na Ucrânia como treinador do Shakhtar Donetsk e sagrou-se campeão três vezes.
Vítor Pereira foi campeão da Super Liga Grega 2014 e da Copa da Grécia 2015 com o Olympiacos, e campeão da China 2018 e da Super Copa da China 2019 com o Shangai Sport. Ultimamente estava no Wolverhampton da Premier League, mas em novembro de 2025, e 45 dias depois de ter renovado contrato por três anos, foi demitido depois de um desastroso começo de temporada em que não conseguiu ganhar os dez primeiros jogos.
Acrescente-se que neste momento sete portugueses treinam (ou treinaram) seleções estrangeiras.
Fernando Santos, o “engenheiro” da seleção portuguesa que conquistou um Campeonato da Europa e uma Liga das Nações (os primeiros títulos da seleção A portuguesa), treinou depois a Grécia e a Polónia, e é agora selecionador do Azerbeijão, que não se qualificou para o Mundial 2026 e portanto o “engenheiro” poderá ser despedido em breve.
Rui Vitória, que foi campeão pelo SL Benfica e pelo Al Nassr da Arábia Saudita, foi selecionador do Egito em 2022, mas desde 2023 que treina o Panathinaikos da Grécia.
Pedro Gonçalves, selecionador de Angola de 2015 a 2025, foi demitido recentemente e está a treinar o Young Africans, campeões da Tanzânia.
Paulo Duarte já correu alguns países africanos como selecionador, esteve no Burquina Faso duas vezes, orientou depois o Gabão e agora está no Togo desde 2021.
Hélio Sousa foi selecionador do Bahrain e é agora selecionador do Kwait com contrato até 2027 e 1,6 milhões de dólares por ano.
Paulo Bento, que já passou pela seleção portuguesa entre 2010 e 2014, esteve ao leme da seleção da Coreia do Sul entre 2018 e 2022 e desde 2022 que treina os Emirados Árabes Unidos.
Carlos Queiroz, selecionador de Portugal em três Mundiais (2014, 2018 e 2022), já treinou as seleções do Irão, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, África do Sul, Colômbia e Egito, e presentemente é selecionador de Omã, no Médio Oriente, onde treina um bom número de treinadores portugueses.
Além dos que estão na Arábia Saudita, Paulo Sousa, que como jogador ganhou uma Liga dos Campeões pela Juventus e outra pelo Dortmund, treina o Shabab Al Ahli Club do Dubai.
Jaime Pacheco, que andou uns tempos pela China, está no Egito desde 2009 e treina o Pyramids FC do Cairo.
Ricardo Sá Pinto treina o Esteghlal do Irão.
Portanto, como pode ver-se, ainda que de vez em quando um ou outro possa ser demitido, Portugal continua a ter um bom número de treinadores brilhando no mundo do futebol.
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Amorim foi despedido mas ainda pode ganhar 13,4 milhões de dólares
Voltando ao despedimento de Rubem Amorim, cujo salário no Manchester United eram 8,7 milhões de dólares por ano, caso não haja entendimento entre as partes, o Manchester United terá de pagar 13,4 milhões de dólares ao técnico por conta do tempo que falta até final do contrato (junho de 2027).
Para o Manchester United não é novidade, desde a saída de Alex Ferguson o clube já teve 10 treinadores, incluindo adjuntos, e todos têm sido despedidos com chorudas indemnizações.
Se Ruben Amorin vier a receber 13,4 milhões de dólares será um belo pé de meia, embora seja cerca de metade dos 25,7 milhões que José Mourinho recebeu do Manchester United em dezembro de 2018.
Mas até nas indemnizações por rescisão de contrato Mourinho é ‘special one’ pela sua astúcia contratual.
Na primeira passagem pelo Chelsea, pagaram-lhe 24,5 milhões de dólares para sair, e na segunda passagem mais 11,2 milhões de dólares. O Real Madrid não ficou atrás, pagando 23 milhões de dólares quando Mourinho saiu em 2013. No Manchester United recebeu 25,7 milhões de dólares, do Tottenham 20,3 milhões de dólares e da Roma 4,1 milhões de dólares. O despedimento mais recente, do Fenerbahçe, valeu-lhe 17,5 milhões de dólares.
José Mourinho conquistou um total de 26 títulos na sua carreira como treinador, mas a sua capacidade de transformar os despedimentos numa vitória financeira (um total de mais de 126 milhões de dólares), é um título à parte.





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