Comandante do NRP Sagres, José Eduardo de Sousa Luís: “Esta missão desenvolve-se em três vertentes: a instrução, o apoio à diplomacia e a presença junto da diáspora”

by | May 27, 2026 | Notícias das comunidades

 

O Comandante (Capitão-de-Fragata) José Eduardo de Sousa Luís nasceu em Lisboa a 21 de novembro de 1978. Ingressou na Escola Naval em 1996 e desde 27 de setembro de 2024 assume o comando no NRP. É casado, tem dois filhos e reside no concelho do Seixal. 

Atualmente a guarnição do NRP-Sagres é composta por 107 militares, sendo 10 oficiais, 15 sargentos, e 82 praças. Da Escola Naval, para além dos já referidos 37 cadetes em instrução, temos mais dois oficiais, o Diretor de Instrução e a Comandante de Companhia e um sargento. Assim, temos um total de 147 elementos embarcados. Em entrevista ao Portuguese Times, o comandante da Sagres descreve o percurso do veleiro afirmando ser uma honra contactar portugueses e seus descendentes nos vários portos em praticamente todo o mundo.

 

É comandante do NRP-Sagres desde quando e como tem decorrido a viagem até ao momento?

“Assumi o comando do NRP (Navio da República Portuguesa) Sagres em 27 de setembro de 2024.

Largamos de Lisboa no dia 30 de abril e estamos a fazer a travessia do Atlântico Norte, de forma a atracar em Nova Iorque em 27 de maio. O navio irá permanecer nesta cidade até 31 de maio, com o objetivo de efetuar um conjunto de eventos de apoio à candidatura de Portugal a membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU. Nesta travessia, sempre que o vento está de feição efetuamos navegação à vela. Quando não está, navegamos a motor de forma a chegar em tempo a Nova Iorque.

A navegação oceânica está a ser muito produtiva para os 37 cadetes do 2.º ano da Escola Naval que se encontram embarcado em Viagem de Instrução. Estes estão a por em prática os conhecimentos adquiridos ao longo do ano letivo em sala de aula. Para além da navegação astronómica e da marinharia, onde tem oportunidade de subir aos mastros e manobrar o velame, os cadetes, futuros oficiais de Marinha, também estão a aprofundar os seus conhecimentos noutras cadeiras, como é exemplo as comunicações ou as máquinas marítimas. Mas acima de tudo estão a compreender as idiossincrasias da vida a bordo e a saber o que é andar o mar”.   

 

A viagem engloba uma ação de apoio à candidatura de Portugal a membro não permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas e a participação na Sail 250. O que representa para si esta missão e expetativas sobretudo no encontro com as comunidades portuguesa e lusodescendente?

“Na dupla qualidade de ex-libris da Marinha Portuguesa e símbolo da tradição marítima portuguesa, a missão do NRP Sagres desenvolve-se em três vertentes: a instrução, o apoio à diplomacia e a presença junto da diáspora. 

Como navio-escola, os cadetes e futuros oficiais da Marinha Portuguesa, põem em prática os conhecimentos teóricos ministrados na Escola Naval, nomeadamente nas áreas de navegação e marinharia. Durante as viagens de instrução é-lhes estimulado o rigor, a determinação, a exigência, a resiliência, a liderança, a humildade, o espírito de sacrifício e de equipa, predicados fundamentais para se tornarem líderes e mareantes. 

No apoio à diplomacia, sempre que pratica um porto, seja de forma isolada ou em grandes eventos nacionais e internacionais, o navio promove a nossa cultura, a nossa maritimidade, a nossa história e presta apoio às embaixadas e consulados de Portugal através da realização de múltiplos eventos. Em parceria com as empresas nacionais, apoia a promoção das suas marcas, produtos e serviços no estrangeiro. Neste âmbito, o NRP Sagres é também reconhecido como «Embaixador Itinerante” de Portugal. Em virtude do NRP Sagres ter o estatuto de navio de Estado, todos os portugueses que o visitam pisam solo pátrio e estão, de facto, em território nacional. Desta forma, o navio acolhe a comunidade portuguesa e lusodescendente espalhada pelo mundo, que em convívio com a guarnição e cadetes, matam saudades do país, constituindo um redobrado motivo de orgulho em Portugal enquanto país, nos portugueses enquanto povo e na Marinha Portuguesa enquanto pilar da defesa do interesse nacional. Norteado pelas três vertentes da missão, o navio, no presente ano, para além realizar as viagens de instrução dos cadetes do 2.º e 1.º ano da Escola Naval, irá atracar, entre 27 e 31 de maio em Nova Iorque para realizar o já referido conjunto de eventos de apoio à candidatura de Portugal a membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU. Depois de Nova Iorque atracará em Hamilton, nas Bermudas, uma vez que cerca de um quarto da população é portuguesa ou lusodescendente. De seguida, no âmbito da Sail 250, evento comemorativo do 250.º aniversário da independência dos Estados Unidos da América (EUA), iremos representar Portugal e praticar os portos de Norfolk, Baltimore, Nova Iorque e Boston. Em Nova Iorque, no 4 de julho, irá ocorrer uma grande parada naval denominada International Naval Review (INR) 250. Em todos estes portos iremos estar em contacto com a disporá portuguesa existente nessas cidades. Depois de Boston o navio irá propositadamente a New Bedford para estar em contacto com a comunidade portuguesa, que é muito significativa nessa cidade.

Entre Nova Iorque e Boston a Sagres irá participar numa regata com as suas irmãs: o Eagle, da Guarda Costeira dos EUA, o Gorch Fock II, da Marinha alemã, e o Mircea da Marinha romena. Há 50 anos, nas comemorações do bicentenário da independência dos EUA, estes navios e o Tovarich, que atualmente é um navio museu com o nome original de Gorch Fock, competiram numa regata entre Hamilton e Newport, denominada Five Sisters. Na altura o Gorch Fok II ganhou o troféu. Ficou acordado que sempre que os 5 veleiros se encontrassem em regata voltariam a competir o troféu, o que nunca voltou a acontecer. Este ano, 4 dos 5 navios vão participar na Sail 250. Tendo em conta que o Gorch Fock não deve voltar a navegar, ficou acordado entre os comandantes dos navios e a organização da Sail 250 que se deveria voltar a disputar a Five Sisters.      

A receção às comunidades portuguesas e lusodescendentes são sempre interessantes e, por vezes, emotivas. Não há nenhum porto no mundo onde não exista pelo menos um português. Tive oportunidade de confirmar isso mesmo ao longo dos anos que servi a bordo da Sagres nas funções de Navegador e de Oficial Imediato. Estamos muito entusiasmados com a nossa estadia em New Bedford que tem uma comunidade portuguesa muito significativa. Convidamos, desde já, a todos os portugueses e lusodescendentes a visitarem o navio”.

 

Como vê as comunidades portuguesa e lusodescendente dos EUA?

“Ao longo dos anos que servi neste navio tive contacto com a comunidade portuguesa de San Diego, Honolulu, Filadélfia, Nova Iorque, Newark, Newport e Boston. Embora sejam comunidades diferentes entre si tem como matriz comum a boa integração na sociedade americana, o sucesso nos negócios e o orgulho no seu país de origem. Em todas estes portos foi sempre muito bem recebido por essas comunidades. Pessoalmente gosto de contactar a nossa comunidade e ouvir as suas histórias de vida que, muitas das vezes, são impressionantes e inspiradoras”.

  

Como surgiu a ideia dos brindes realizados com vinho Madeira e seu significado?

“É um facto conhecido que, em 1776, os pais fundadores dos EUA brindaram à independência com vinho Madeira. Sabendo que iramos participar nas comemorações do 250.º aniversário da independência dos EUA e tendo presente que levamos, com alguma frequência, pipas de vinho generoso para recriar o vinho torna viagem e o vinho da roda, entramos em contacto com o Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira (IVBAM), para embarcar duas pipas, de forma recriar o vinho da roda, e garrafas de vinho Madeira, de forma a promover o vinho e o histórico brinde em todos os eventos que iremos realizar a bordo. Cumulativamente, o embaixador de Portugal nos EUA, Francisco Duarte Lopes, teve a mesma ideia. Quando entrou em contacto com o navio, já estávamos a operacionalizar o embarque do vinho. O embaixador teve a iniciativa de denominar a estes brindes como toast to America. 

Numa parceria com o Governo dos Açores iremos ter, nas receções de bordo, uma mesa exclusiva de queijos e compotas das ilhas de bruma, podendo ser degustados queijos de 8 das 9 ilhas açorianas. Esta ação tem como objetivo dar a conhecer a qualidade, excelência e diversidade dos queijos açorianos. Importa referir que nessas receções a gastronomia portuguesa está sempre presente como é exemplo o Bacalhau à Brás e o pastel de nata, que é confecionado a bordo pelos nossos padeiros”.

 

New Bedford é berço de uma comunidade secular com fortes ligações históricas e culturais, designadamente através da baleação. O que representa e espera dessa estadia de 5 dias na cidade baleeira americana?

“Trata-se de uma cidade que tem uma relação umbilical com o mar e que é o cenário de uma boa parte da famosa obra de Herman Melville, Moby Dick. Esta também tem uma ligação estreita e antiga com Portugal, que vem do tempo da baleação e que se mantém até aos dias de hoje, acolhendo uma das maiores comunidades portuguesas e lusodescendentes dos EUA. Este facto justifica a paragem do navio nesta cidade antes da travessia do Atlântico, no regresso a Portugal. Ao longo dos 64 anos que o navio navega com bandeira portuguesa, será a 8.º vez que o navio-escola Sagres atraca em New Bedford, sendo um dos portos americanos mais praticados pelo navio. A última vez ocorreu em 2015. Durante a estadia do navio iremos realizar um conjunto de iniciativas, em articulação com o Consulado-Geral de Portugal, com o intuito reforçar a ligação da nossa disporá ao seu pais de origem e de fortalecer a ligação entre New Bedford e Portugal e robustecer o orgulho de ser português ou lusodescendente. Iremos atracar no dia da final do Mundial. A Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) está a organizar uma festa de acolhimento à diáspora para esse dia, com a realização de um concerto com um cantor português. 

 

Algum momento, desde que é comandante, que o marcou profundamente?

“O ano passado fizemos uma missão ao norte da Europa. Fomos a Amsterdão no âmbito da Sail Amsterdan, que é provavelmente o maior encontro de grandes veleiros do mundo. O desfile de entrada, com milhares de embarcações a acompanharem os veleiros no canal de acesso à cidade é um momento inolvidável para qualquer marinheiro. Eu nunca o tinha feito e tive a possibilidade de o fazer como comandante deste navio magnifico que é a Sagres. O facto de, no dia seguinte, a Sagres ter sido capa de um dos jornais com maior tiragem nos Países Baixos, deu um sabor ainda mais especial. Este ano, espero que possamos brilhar da mesma forma nos desfiles da Sail 250, de forma a elevar bem alto a imagem do NRP Sagres, da Marinha Portuguesa e de Portugal”. 

 

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