Carnaval e Mardi Gras

by | Feb 25, 2026 | Expressamendes

Do semba ao samba e do Entrudo ao Carnaval carioca

Rio de Janeiro esteve em festa de 13 a 21 de fevereiro celebrando o Carnaval. Segundo contas da Embratur, organismo promotor do turismo no Brasil, oito milhões de brasileiros sairam a sambar pelas ruas e aos quais se juntaram mais de 300 mil turistas estrangeiros, dos quais 7.437 norte-americanos e entre eles as celebridades Bad Bunny, porto-riquenho que ganhou o Grammy de Álbum do Ano e brilhou no Super Bowl; o também porto-riquenho Ricky Martin em segunda visita; a atriz Sarah Jessica Parker no seu primeiro Carnaval carioca e o cantor luso-canadiano Shawn Mendes na companhia da namorada brasileira, a atriz e modelo Bruna Marquezine, que preferiram o Carnaval baiano de Salvador.

O Carnaval do Rio de Janeiro é considerado o maior espetáculo da Terra com o desfile de 177 escolas de samba infantis e adultas, algumas com mais de 4.500 membros, e de 53 blocos carnavalescos (escolas de samba mais pequenas) animando toda a cidade e impulsionando o turismo e a economia com uma receita de 185,7 milhões de dólares.

O Carnaval é a grande celebração da vida, cultura e identidade brasileira, enraizado em tradições europeias de folia e nasceu de uma mistura de tradições portuguesas com tradições culturais dos povos africanos escravizados, que eram na sua maioria angolanos.

Os colonizadores portugueses é que levaram o Carnaval para o Brasil por volta de 1640 e através do Entrudo, celebração tradicional em Portugal entre os séculos XVII e XIX e precursora do Carnaval moderno.

O Entrudo (o termo deriva do latim introitus e significa entrada na Quaresma) era um forrobodó antes do jejum quaresmal onde as pessoas saiam às ruas lançando umas nas outras baldes de água com farinha, bombinhas de mau cheiro, ovos e até detritos.

A bagunçada do Entrudo no Rio de Janeiro acabaria sendo animada pelos Zés Pereiras, grupos tradicionais de músicos originários de Portugal (especialmente do Norte), que percorrem as ruas tocando bombos, gaitas de foles e pífaros, anunciando as festas.

O primeiro Zé Pereira carioca foi o sapateiro português José Nogueira de Azevedo Paredes, que começou a aparecer por volta de 1850 e, dez anos depois, já havia no Rio de Janeiro dezenas de grupos de Zés Pereiras formados por portugueses e que se mantiveram até 1907.

Curiosamente, ainda há Zés Pereiras no Carnaval nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Piauí e Pernambuco, onde o “Sábado do Zé Pereira” marca o início da folia carnavalesca.

O Entrudo no Rio de Janeiro começou a declinar por volta de 1854 e, para acabar com as agressivas “brincadeiras de rua”, começaram a surgir bailes de máscaras, o primeiro dos quais teve lugar em 1840 no Hotel Itália, localizado no Largo do Rocio (hoje Praça Tiradentes), organizado por uma atriz italiana.

Os bailes carnavalescos proliferavam em toda a cidade e ficaram famosos os bailes do Teatro Municipal, Hotel Glória, Copacabana Palace, Palace Hotel, Casino da Urca, Casino Atlântico, Casino Copacabana e do Automóvel Clube do Brasil. Os bailes carnavalescos começaram por ser em hotéis, depois foram para os teatros existentes na época no Brasil, a sua inspiração vinha dos bailes da Europa, regados com muita bebida e comida e onde se dançavam a polca, a valsa e a quadrilha.

Entretanto, com a abolição da escravatura, muitos ex-escravos começaram a fixar-se no Rio de Janeiro em lugares como a Cidade Nova e a Praça Onze, mas como eram excluídos dos bailes de salão começaram a festejar o Carnaval nas ruas formando ranchos de foliões.

Esses ranchos eram formados por negros, mulatos e pessoas humildes em geral, que saíam às ruas animando o povo ao som de instrumentos de percussão e músicas compostas especialmente para os desfiles. Em 1928, esses ranchos passaram a ser chamados escolas de samba com a criação da Deixa Falar, a primeira escola de samba surgida no bairro Estácio de Sá, no centro do Rio de Janeiro.

Assim se formou um Carnaval menos elitista nas ruas e celebrado por grupos de foliões. Um ano depois da criação da Deixa Falar, em 1929, surgiram mais duas escolas de samba, a Mangueira e a Portela, e as três desfilaram na Praça Onze, mas em 1932 o desfile já envolveu 19 escolas e em 1933 eram 30.

A Deixa Falar inovou ao introduzir nos seus desfiles dois instrumentos de percussão, o tamborim e o surdo de marcação, instrumento criado por um dos músicos do grupo, Alcebíades Barcelos, e tempos depois, surgiria também o ritmo que iria dar um novo tom ao Carnaval e consagrar-se como a grande música brasileira, o samba.

Mas tal como o Carnaval carioca nasceu do Entrudo trazido de Portugal, o samba nascido no Rio de Janeiro veio de África e mais propriamente de Angola, onde tem o nome de semba.

Semba deriva da palavra masemba, que significa uma umbigada, um gesto central na dança. Nasceu nas regiões de Luanda e Benguela, é um estilo musical e de dança tradicional que influenciou diversos ritmos, incluindo o kizomba, o kuduro e o samba, e que foi levado para o Brasil pelos escravos, que encontravam consolo nesse tipo de música em tempos de sofrimento.

Contudo, poucos brasileiros saberão que o samba nasceu do semba, criado por ex-escravos angolanos e que, para os povos kimbundus, semba significa ficar feliz.


 

Carnaval terceirense na América

O Carnaval da Ilha Terceira, nos Açores, é uma celebração única de teatro popular e destaca-se pelos bailinhos e as danças de salão, grupos de teatro que percorrem as associações da ilha satirizando os acontecimentos do ano de forma bem disposta.

Em 2023, as danças e bailinhos do Carnaval da Ilha Terceira foram distinguidas como Património Cultural Imaterial da UNESCO reconhecendo “uma identidade transmitida “de geração em geração” e o trabalho de “defesa e salvaguarda” realizado pelos habitantes da ilha Terceira.

O Carnaval terceirense é uma tradição popular que envolve dançarinos, músicos, costureiras, atores, ensaiadores e autores. Em 2026 foram 60 danças e bailinhos, que criaram a sua própria música, ensaiaram uma coreografia e a sua interpretação de comédia, criaram as suas próprias roupas e sairam a atuar em mais de 30 salas por toda a ilha e deslocaram-se também a outras ilhas (Graciosa, São Jorge, Santa Maria, Pico, Faial, Flores e Corvo), participando em alegres convívios.

A comunidade terceirense nos Estados Unidos mantém viva a celebração do seu Carnaval graças a talentos locais. Existem grupos carnavalescos na Califórnia e na Nova Inglaterra e mais do que por vezes se imagina.

Na Califórnia, entre outros, anotamos a existência dos Aventureiros do Carnaval da Banda Portuguesa de San Jose, Carnaval Sem Fronteiras de San Jose, Dança de Pandeiros de Hilmar, Grupo da Casa dos Açores de Hilmar, Grupo de Carnaval Vasco Daniel e Amigos, Grupo de Carnaval Amigos de Turlock e Grupo de Carnaval Açoriano de Tulare (masculino, feminino, infantil e juvenil).

Quanto à Nova Inglaterra, temos o Grupo Amigos de Carnaval de Peabody, Grupo de Carnaval dos Amigos da Terceira de Pawtucket, Grupo de Carnaval do Phillips Street Hall de East Providence, Clube Recreativo Cultural Português de Warren, Grupo de Carnaval de Attleboro conhecido como Marias e Manéis e dois grupos de Lowell, o grupo da família Martins este ano com o bailinho O Salão da Conversa e o grupo de Al Fagundes com a comédia Fugitivos Sem Sonho.


 

Carnaval brasileiro à portuguesa

Os portugueses levaram o Entrudo para o Brasil e agora estão a importar as escolas de samba brasileiras.

Na ilha da Madeira, onde há dois grandes cortejos carnavalescos (o Cortejo Alegórico e o Cortejo Trapalhões), há uma dezena de escolas de samba, a mais antiga das quais, Samba Caneca Furada, tem 120 elementos.

O Carnaval de Ovar promove quatro desfiles carnavalescos e organiza quatro escolas de samba e 20 grupos carnavalescos.

No Carnaval de Estarreja sairam à rua este ano seis escolas de samba, em Loures foram sete, em Sesimbra seis e na Bairrada quatro.

O Carnaval Brasileiro ganha cada vez mais expressão em Portugal e este ano 17 blocos carnavalescos brasileiros tomaram conta de Lisboa animando vários bairros (Graça, Marvila, Intendente, Penha de França e outros).

Os desfiles carnavalescos, regra geral, são financiados pelo município, mas os membros das escolas de samba (brasileiros e locais) geralmente participam voluntariamente.


 

Mardi Gras em New Orleans

O dia do Mardi Gras este ano foi a 17 de fevereiro. O que significa Mardi Gras? Em francês, Mardi significa terça-feira e gras significa gordo. É por isso que o dia é também conhecido como Terça-feira Gorda. A palavra tem origem em França e era utilizada para descrever o dia anterior à Quarta-feira de Cinzas, quando as pessoas se fartavam de alimentos ricos como carne, ovos, leite e queijo antes do início da Quaresma.

O Mardi Gras chegou à América do Norte como uma tranquila tradição católica francesa com os irmãos Le Moyne, Pierre Le Moyne d’Iberville e Jean-Baptiste Le Moyne de Bienville, no final do século XVII, quando o rei Luís XIV enviou a dupla para defender a reivindicação da França sobre o território da Louisiana, que incluía o que são hoje os estados americanos do Alabama, Mississippi e Louisiana.

A expedição, liderada por Iberville, entrou na foz do rio Mississippi na noite de 2 de março de 1699, segunda-feira de Carnaval, subiu um afluente do rio e acampou a cerca de 97 quilómetros do local onde se ergue hoje New Orleans. Isto ocorreu a 3 de março de 1699, dia de Carnaval, pelo que, em homenagem a este feriado, Iberville batizou o local de Point du Mardi Gras (em francês: Ponta do Carnaval) e chamou ao pequeno afluente Bayou Mardi Gras.

Bienville fundou Mobile, no Alabama, em 1702, como a primeira capital da Louisiana francesa e, em 1703, os colonos franceses daquela cidade começaram a celebrar o Mardi Gras. Em 1720, Biloxi tornou-se capital da Louisiana e celebrava com pompa o Mardi Gras. Em 1723, a capital da Louisiana francesa foi transferida para New Orleans, fundada em 1718 e o Mardi Gras tornou-se o evento mais fortemente associado à cidade, mas o primeiro desfile só teve lugar em 1837.

As celebrações do Mardi Gras em New Orleans costumam atrair milhão e meio de turistas e a cidade é capital do Mardi Gras, mas não foi pioneira.

As primeiras celebrações organizadas do Mardi Gras tiveram lugar em Mobile, conhecida ao tempo como Fort Louis de la Mobile, onde em 1704 foi formada a primeira sociedade de Carnaval conhecida como Masque de la Mobile.

Antigas colónias francesas e espanholas, como Pensacola, Biloxi e povoações ao longo da Costa do Golfo, seguiram o exemplo, incorporando o Carnaval nas suas celebrações anuais muito antes de New Orleans.

Hoje, o Mardi Gras nos Estados Unidos é celebrado em vários estados, particularmente nas regiões que tiveram influências coloniais francesas e espanholas.

Na Louisiana, as celebrações do Mardi Gras mais famosas são em New Orleans, mas estão longe de ser as únicas e Lafayette tem a segunda maior celebração que inclui oito desfiles de carros alegóricos e bandas e Baton Rouge realiza oito desfiles, um dos quais, o Krewe of Mutts, um desfile de cães.

Galveston acolhe o maior festival de Mardi Gras do Texas, que atrai até 200.000 foliões e Dallas tem uma celebração a que dá o nome de Mystiqal, enquanto La Crosse, no Wisconsin, celebra com um baile de máscaras.

No Oregon, o Mardi Gras é celebrado em Portland e, na Flórida, Hollywood acolhe o Mardi Gras na Terça-feira Gorda com um desfile de carros alegóricos na praia a que dá o nome de Festa Nações e em Orlando o parque da Universal Studios celebra o Mardi Gras de fevereiro a abril com desfiles e exibição de artistas e este ano a celebração intitula-se “International Flavors of Carnaval”.

Quebec, no Canadá, também celebra o Mardi Gras e chama-lhe “o maior Carnaval de inverno do mundo” porque a celebração tem lugar entre meados de janeiro e fevereiro, período em que a cidade está sempre com temperaturas abaixo de zero.

Onde quer que seja, o Mardi Gras é celebrado com desfiles temáticos, distribuição de beads (coloridos colares), shows ao vivo e um festival gastronómico de pratos típicos como jambalaya, po’ boys e as beignets, apreciadíssimo frito a que os portugueses dão o nome de malassadas.

 

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