Carlucci, o embaixador americano que acreditou num Portugal democrático

by | Jun 17, 2026 | A Descoberta

 

Estive há dias na residência oficial do embaixador americano em Lisboa. A mansão chama-se Casa Carlucci. É uma homenagem a Frank Carlucci, que chegou a Lisboa em janeiro de 1975 decidido a não deixar que Portugal trocasse a ditadura fascista por uma comunista. E trabalhando em conjunto com Mário Soares e outras figuras políticas, e com os setores moderados do MFA, foi possível ajudar a cumprir a promessa de democracia feita pelos militares a 25 de abril de 1974, o dia da Revolução dos Cravos.

Um dia conheci Marcia Carlucci. Foi ali mesmo na rua do Sacramento à Lapa, na casa onde ela própria viveu há meio século. A viúva de Frank Carlucci relembrou então como as reuniões mais sensíveis eram numa parte mais alta da mansão, uma varanda com vista para o Tejo, muitas vezes chamada de “ninho do corvo”. E disse que o marido tudo fez para convencer em Washington o secretário de Estado, Henry Kissinger, que Portugal não estava perdido, apesar de quem visitasse Lisboa ficar provavelmente com a ideia de que o PCP mandava nas ruas, no MFA e no governo, sobretudo quando Vasco Gonçalves era primeiro-ministro. Ela, contou, percorria o país num Fiat e tentava perceber se os portugueses estavam alinhados com os comunistas. Não estavam. E foi dizendo ao marido.

Nas eleições de 25 de abril de 1975, as primeiras totalmente livres da história de Portugal, nove em cada dez portugueses votaram. E o PCP só teve 12%. O partido mais votado foi o PS de Soares, depois o PSD de Francisco Sá Carneiro. Um ano depois, já aprovada uma Constituição democrática, o PS venceria as legislativas e Soares seria o primeiro-ministro. Em 1976, também o general António Ramalho Eanes se tornou o primeiro presidente eleito depois do 25 de Abril.

Carlucci tinha razão. O comunismo não cativava a maioria dos portugueses. E Portugal, que em 1949 estivera na fundação da NATO, manteve-se firme no Bloco Ocidental. Eanes tinha já dado o golpe de misericórdia aos elementos radicais do MFA no 25 de Novembro de 1975.

“Frank acreditava que foi totalmente o povo português que construiu a democracia”, disse-me Marcia numa entrevista, quando regressou a Lisboa em 2024, para assinalar meio século da Revolução Portuguesa. Debateu a época com João Soares, o filho de Mário Soares.

Foi o embaixador George Glass, nomeado pelo presidente Donald Trump no seu primeiro mandato, que batizou a residência com o nome do antecessor. Atualmente, Glass lidera a embaixada dos Estados Unidos no Japão. Em Lisboa, desde o ano passado, o embaixador americano é John J. Arrigo. Uma bonita placa azul e branca assinala que vive na histórica Casa Carlucci.

* Jornalista do DN. É doutorado em História e autor do livro ‘Encontros e Encontrões de Portugal no mundo’.

 

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