Não estive fisicamente em Angra do Heroísmo no dia 10 de junho.
Acompanhei tudo à distância, a partir de Tulare, Califórnia, essa cidade que há sessenta anos mantém com Angra do Heroísmo a mais antiga geminação açoriana com uma cidade americana. Graças à magia das novas tecnologias, às transmissões em direto, às fotografias e às notícias que atravessam oceanos em segundos, foi possível viver um pouco da celebração como se estivéssemos presentes nas ruas da cidade património, ouvindo as vozes, observando os rostos e acompanhando os momentos que marcaram este Dia de Portugal. E talvez a distância tenha tornado algumas emoções ainda mais intensas.
Foi bom ver um Presidente da República entre as pessoas. Num tempo em que a política tantas vezes parece distante dos cidadãos, foi reconfortante observar António José Seguro a caminhar pelas ruas de Angra, recebendo a hospitalidade terceirense, cumprimentando quem se aproximava e vivendo a cidade para além do protocolo. Os cargos têm a sua dignidade. As cerimónias têm a sua função. Mas há algo profundamente democrático quando um chefe de Estado deixa, por momentos, o palco oficial para se misturar com aqueles que representa.
Acompanhar essas imagens a partir de Tulare também teve um significado especial. Afinal, esta é uma cidade que mantém, há décadas, uma relação afetiva, histórica e cultural com Angra do Heroísmo. Uma ligação construída por milhares de famílias, por gerações de emigrantes e descendentes que nunca deixaram de olhar para a Terceira como um lugar de pertença. E foi precisamente nesse contexto que um momento do discurso presidencial me tocou de forma inesperada.
Naturalmente, Vitorino Nemésio tinha de estar presente. Estávamos na Terceira. Estávamos na ilha que o viu nascer e cuja paisagem humana e atlântica percorre toda a sua obra. Os versos escolhidos lembraram-nos de que o mar não é apenas horizonte, mas também uma forma de memória e de identidade.
Mas foi a referência a Emanuel Félix que me emocionou verdadeiramente. «Somos herdeiros de uma lembrança / de tesouros afundados / e arpoamos a esperança.» Quando ouvi aquelas palavras, as lágrimas correram-me. E correram-me por Emanuel Félix. Pelo poeta. Pelo amigo. Pelas saudades. Pela memória de tantas conversas e encontros.
E também pela justiça daquele momento. Porque ouvir um Presidente da República citar Emanuel Félix na sua cidade natal não foi apenas uma referência literária. Foi um gesto de reconhecimento. Foi um momento de reparação simbólica para um dos mais importantes escritores açorianos da segunda metade do século XX. Emanuel merecia a menção.
Merecia-o pela qualidade extraordinária da sua obra. Merecia-o pela originalidade da sua voz. Merecia-o por ser um dos grandes construtores da modernidade literária açoriana. E merecia-o especialmente em Angra do Heroísmo, a cidade que tanto amou e que tantas vezes atravessou a sua escrita. Uma cidade que o inspirou profundamente. Uma cidade que nem sempre soube compreender plenamente a dimensão do poeta que tinha entre si.
Ao ouvir aqueles versos, recordei também outro lado de Emanuel Félix que muitos talvez desconheçam: a sua relação com a diáspora portuguesa na Califórnia. Emanuel visitou várias vezes Tulare. Participou nos Simpósios Filamentos da Herança Atlântica. Encontrou-se com leitores, estudantes e membros da comunidade portuguesa. Lançou livros. Conversou sobre literatura, identidade e memória. E era visível o prazer com que regressava a esta comunidade construída entre os vales agrícolas da Califórnia e as ilhas dos Açores.
Gostava de Tulare. Gostava das pessoas. Gostava de encontrar aqui um prolongamento cultural dos Açores no outro lado do Atlântico. Por isso, ao ouvi-lo citado em Angra, senti também que uma pequena parte de Tulare estava presente naquele momento. Como se a ponte construída ao longo de décadas entre as duas cidades se tivesse tornado, por instantes, uma ponte literária.
O discurso de António José Seguro continha outras dimensões importantes. A valorização da autonomia açoriana cinquenta anos depois da sua criação. O reconhecimento das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. A defesa do diálogo num tempo de polarizações. A confiança no futuro e na capacidade dos portugueses de enfrentar novos desafios.
Mas, para mim, tudo regressou àqueles versos. Porque neles há uma definição extraordinária dos Açores e de Portugal. Somos herdeiros de uma memória longa. De perdas e de conquistas. De partidas e regressos. De tesouros afundados. Mas continuamos a arpoar a esperança.
Talvez esse tenha sido o momento mais belo deste 10 de junho. Não por causa da política. Não por causa do protocolo. Mas porque, por alguns instantes, a literatura entrou na praça pública. E porque a voz de Emanuel Félix voltou a ouvir-se em Angra do Heroísmo, atravessando o Atlântico até chegar também a Tulare, cidade onde continua a ser lembrado com amizade, admiração e saudade.



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