Foi o embaixador do México em Portugal, sabendo da minha viagem ao seu país, quem me alertou para um mural de Leonora Carrington no Museu Nacional de Antropologia. E, de facto, ali estava, entre as peças das civilizações méxica (ou azteca) e maia, a pintura ‘El mundo mágico de los mayas’, obra surrealista desta artista mexicana que nasceu aristocrata inglesa. Bruno Figueroa desafiou-me igualmente a descobrir um certo papel de Portugal nessa transformação de Carrington em filha do México, país onde viveu sete décadas, depois de lá ter chegado nos anos 1940. Morreu nonagenária, em 2011, na Cidade do México.
Ora, investiguei e foi isto que descobri: depois de uma experiência em Paris muito jovem, onde conheceu figuras como Pablo Picasso e se tornou companheira de Max Ernst, pintor alemão maldito para os nazis, Carrington viu o início da Segunda Guerra Mundial transformar-lhe a vida. Primeiro foi Ernst, cidadão de país inimigo, a ser preso pelos franceses. Depois foi ela própria, procurando refúgio em Espanha, a ser violada por um grupo de militares. Com a família a querer interná-la num hospital psiquiátrico, Carrington, com um historial de depressão e colapsos nervosos, fingiu aceitar, mas logo continuou a fuga, indo para Lisboa, então oásis de paz numa Europa em guerra, dada a neutralidade de Portugal.
Ernst, entretanto, fora segunda vez detido em França: pelos nazis. Fugitivo, o pintor conseguiu também chegar a Lisboa, de onde partiu para Nova Iorque, mas para uma vida já sem Carrington. Casaria depois com a americana Peggy Guggenheim, grande filantropa das artes.
Carrington, pressionada pelas autoridades portuguesas a legalizar-se, foi apoiada pelo escritor e diplomata mexicano Renato Leduc, que lhe propôs em Lisboa um casamento de conveniência para ela poder ter um passaporte diplomático para viajar para o outro lado do Atlântico, primeiro Nova Iorque e depois a Cidade do México.
Divorciaram-se não tardou muito, e Carrington acabaria por casar com Chiqui Weisz, refugiado judeu húngaro, fotógrafo que trabalhou ao lado de Robert Capa na Guerra Civil de Espanha. Foi, aliás, Capa que conseguiu obter do México o asilo para o compatriota.
Num país de famosos artistas, como Diego Rivera, José Clemente Orozco, David Alfaro Siqueiros ou Frida Kahlo, Leonora Carrington tornar-se-ia um deles. Lisboa, por boas e más razões, ajudou a decidir que o México seria uma nova pátria, país onde foi mãe e que sentia ser o seu.
* Jornalista do DN. É doutorado em História e autor do livro ‘Encontros e Encontrões de Portugal no mundo’.




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