A imprensa açoriana no século XIX (parte III)

by | Aug 13, 2025 | Décima Ilha

No final do século XIX, a imprensa açoriana reflete a crescente tendência autonomista, sobretudo a partir de 1893, com a fundação, em Ponta Delgada, pelo Dr. Gil Mont’Alverne de Sequeira, do jornal “Autonomia dos Açores”, cujo lema era já ‘A Livre Administração dos Açores pelos Açoreanos’.

Isto, porventura, na sequência do jornal “A Descentralização”, publicado em Angra do Heroísmo e Ponta Delgada, no final da década de oitenta.

Seguem-se-lhe, em 1894, “O Clamor Popular”, na vila da Povoação, assumido como ‘folha progressista-autonomista’, e, em 1898, “O Autonómico”, em Vila Franca do Campo.

Entretanto, em Ponta Delgada, o jornal “A Persuasão” manifesta-se, desde 1896, como ‘defensor da idea descentralizadora que produzio o regímen administrativo denominado Autonomico’.

Curiosamente, em 1872, o jornal “O Atlântico”, publicado na cidade da Horta, chegou a advogar a separação dos Açores.

Outros jornais apresentam objetivos diversos, como, em Angra do Heroísmo, a “Chrónica dos Açores”, destinado a noticiar as operações do Exército Libertador, e, em Ponta Delgada, a “Gazeta do Povo”, publicado ‘a favor dos Asylos de mendicidade e Infância Desvalida’.

Também em São Miguel são publicados números únicos dos jornais “Alhambra”, ‘em favor das victimas dos terramotos da Andaluzia’, e “S. Miguel (Ilha) ao Porto”, ‘cujo producto da venda reverteo a favor das victimas sobreviventes do Theatro Baquet’.

Algumas publicações oferecem ainda curiosas histórias.

Em Ponta Delgada surge “O Oculo”, que se anuncia como sendo ‘impresso pelos filhos menores do redactor do Ecco Michaelense’. ‘Suspendeo-se a publicação por falta de habilitação’, como refere a imprensa, e logo acrescenta: ‘Foi esta espécie mera brincadeira de creanças quasi analfabetas. Teve tiragem restricta. São raros os exemplares existentes’.

Na Ribeira Grande, o lançamento do jornal “O Norte” é precedido de uma folha promocional de ‘Consagração a Nosso Senhor Jesus Christo, à Imaculada Mãe de Deus, a Leão XIII e ao Illustre Principe da Egreja Açoriana’.

Prova de criatividade é também o “Diário de Notícias Ilustrado”, fundado em Ponta Delgada, em 1880. Apresentava-se como ‘o primeiro jornal lythografado em machina movida a vapor’ e ‘o primeiro jornal michaelense que se faz apregoar e vender na rua, o que, aliás, lhe não deu resultado’.

Terminam outros jornais pelos mais variados motivos.

Em Santa Cruz da Graciosa, “O Futuro” termina ‘porque o proprietário mudou de residência para o Fayal’.

Em Ponta Delgada, terminam o “Ecco Michaelense” ‘porque a typographia foi vendida para Angra’, “O Patriota” ‘por o redactor, cirurgião, ter de sahir de S. Miguel’ e “A Opinião Pública” ‘devido à transferência de alguns redactores para outros corpos, em consequência da violência de seus escriptos’.

Em Angra do Heroísmo, “O Observador”, do Partido Cartista, termina ‘porque foi vedada a permissão de continuar a imprimir-se, na Imprensa do Governo, qualquer jornal particular’.

Também na imprensa açoriana se faz sentir a força da censura e alguns jornais são encerrados por mais graves razões:

“O Cosmopolita”, de Ponta Delgada, termina em 1875 ‘em consequência da querela que lhe moveu o ministério público, por abuso de liberdade d’imprensa’.

“O Mariense”, de Vila do proto, suspende publicação em 1885 ‘em consequência da sentença judicial por abuso da liberdade de imprensa e do editor (Jacintho Monteiro de Bettencourt) se recusar a publicar a mesma’.

A par da imprensa de caraterísticas políticas, culturais e religiosas, surgem nos Açores do século XIX numerosas publicações de vocação humorística.

São disso exemplo, pelas suas próprias palavras:

“O Apepinador”, um ‘jornal humorístico e burlesco escripto com pennas de pato’; “O Chicote”, que ‘não tem redactores certos, nem sequer política alguma – escreve-se no inferno’; o “Lusbel”, uma ‘folha diabólica, infernal, crítica, trágica, cómica, burlesca, microscópica e inexhorável’; ou o “Balão”, ‘jornal crítico, burlesco, dedicado aos mystérios da sciência para regeneração dos ignorantes e metediços’.

Há ainda na imprensa açoriana do século XIX títulos tão curiosos como “O Arco da Velha”, “A Aurora d’Além Túmulo”, “Calva à Mostra”, “O Cri-Cri”, “O Espirro”, “A Faísca”, “O Ódio”, “Pist!”, “O?”, “Sal e Pimenta”, “Sua Excelência”, “O Tio Braz”, “Zangão”, “Zé-Braz” ou “Zé Careca”.

A imprensa açoriana de então caracteriza-se, sobretudo, pela existência de inúmeras publicações efémeras e de reduzida tiragem, com exceção do semanário “O Imparcial”, publicado em Angra do Heroísmo em 1883, com média de três mil exemplares por edição.

 

(continua na próxima edição)

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Jose M.M. Andrade, Diretor Regional das Comunidades do Governo da Região Autónoma dos Açores

Baseado na conferência “Para uma História da Imprensa Açoriana”, proferida na Biblioteca Pública de Angra do Heroísmo, a 3 de julho de 2025

 

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