No Rio de Janeiro, em que Antero de Quental tem uma praça com o seu nome e Vitorino Nemésio fundou a Casa dos Açores, são da ilha Terceira os imigrantes açorianos, especialmente da freguesia da Ribeirinha, que dinamizam desde há 100 anos seis Irmandades do Divino Espírito Santo. Como se não bastasse, há ainda a Igreja do Senhor Santo Cristo dos Milagres, construída por açorianos do século XIX no Bairro do Santo Cristo da antiga zona piscatória do Rio de Janeiro.
Santo Cristo
A primeira marca patrimonial da presença açoriana no Rio de Janeiro parece remontar a 1850, quando imigrantes oriundos da ilha Terceira transportam para o Brasil uma imagem do Ecce Homo. Surge, então, uma capelinha à beira-mar, na zona piscatória da cidade, é constituída a Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres e inicia-se a construção de um novo templo elevado a igreja matriz em 1901.
Na Praça do Santo Cristo, na Rua do Santo Cristo, no Bairro do Santo Cristo, a igreja reativou em 2014 a festa popular do Senhor Santo Cristo dos Milagres, com missa, procissão e quermesse.
Espírito Santo
Centenária é também a celebração do Divino Espírito Santo nas Irmandades do Outeiro e da Praça Sete, fundadas e mantidas por açorianos e descendentes. Olinda, Encantado e Catumbi são outras Irmandades do Divino na “cidade maravilhosa”, que convivem ainda com uma sexta festa, da Irmandade de Engenhoca, já na cidade vizinha de Niteroi.
Todas elas com o ritual anual das “sete domingas” para a reza do terço, a missa da coroação na igreja do bairro, o cortejo da Coroa e da Bandeira e, nalguns casos, até com a partilha popular das Sopas do Espírito Santo. Estas irmandades participam, inclusivamente, na coroação organizada pela Casa dos Açores na igreja de S. Francisco Xavier, desde 1957.
A “Irmandade de Devoção Particular do Divino Espírito Santo de Catumbi”, por exemplo, foi fundada em 1937 na zona centro do Rio de Janeiro. É seu presidente, há mais de 30 anos, o primeiro vice-presidente da Casa dos Açores, Álvaro Neves da Silva Mendonça, que nasceu na ilha Terceira e emigrou para o Brasil com 17 anos de idade para evitar a guerra colonial, tal como os irmãos. E, tal como quase todos os demais, começou a trabalhar nos açougues açorianos que dominavam a cidade “até virarem lanchonete quando foram substituídos pelos supermercados”.
A fachada da sua sede, localizada na zona do Sambódromo, foi inspirada no Império da Ladeira Grande, da freguesia terceirense da Ribeirinha, de onde são provenientes muitos dos açorianos aqui residentes. A sua festa do Pentecostes começa com o peditório público, distribui pão e carne pelos pobres, promove uma missa na sua capela e oferece uma alcatra no seu salão.
Antero de Quental
A Igreja do Santo Cristo e as Irmandades do Divino testemunham a presença passada ou presente da imigração açoriana no Rio de Janeiro, para além da conhecida e movimentada Casa dos Açores.
Não é aqui popularmente associado aos Açores, porventura nem sequer a Portugal, mas também o nosso poeta maior tem uma grande praça com o seu nome no bairro chique do Neblon. A “Praça Antero de Quental” foi reconhecida como área pública e assim denominada em 1942, no centenário do seu nascimento “em Ponta Delgada, Açores”, como refere uma placa biográfica de localização discreta.
Vitorino Nemésio
“Aos dezassete dias do mês de julho do ano de mil novecentos e cinquenta e dois, nesta cidade do Rio de Janeiro e sede do “Centro Transmontano”, reuniram-se os açorianos que foram convocados expressamente para assistirem a esta reunião, a fim de estudar as bases para a criação de um Centro Regional Açoreano, propondo que presidisse à sessão o excelentíssimo senhor Professor Doutor Vitorino Nemésio, pessoa que estando acidentalmente nesta capital federal e sendo açoriano dos mais distintos e ainda intelectual e escritor de projeção mundial, seria o mais competente para fazer a análise completa e detalhada da ideia de que aliás tinha sido um dos animadores. Formada a mesa, o excelentíssimo Professor proferiu uma brilhante palestra na qual demonstrou a imperiosa necessidade que os açorianos residentes no Rio de Janeiro têm de se agruparem num Grémio ou Centro, que à semelhança daquele em que nos encontramos, desenvolva os sentimentos de solidariedade entre eles, adentro do espírito que anima todos os portugueses residentes no Brasil, entre si e os seus compatriotas distantes.”
Assim se inicia a ata fundacional da Casa dos Açores do Rio de Janeiro, a primeira instalada no estrangeiro, que abria caminho à expansão de uma rede mundial para mais quatro países: Estados Unidos (1977), Canadá (1978), Uruguai (2013) e Bermuda (2015).





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