Há livros de homenagem que se esgotam no gesto celebratório: acumulam testemunhos, elogios e memórias, mas pouco acrescentam à leitura da obra que pretendem celebrar. Levanta os olhos para as montanhas, coordenado por Paulo Matos e publicado pela Cultura Editora em 2026, evita em boa medida esse risco. Concebido para assinalar vinte e cinco anos do percurso literário de Joel Neto, o volume reúne vozes diversas – críticos literários, escritores, jornalistas, professores e amigos – e acaba por funcionar como uma cartografia crítica de uma obra que, sendo já reconhecida, ainda não ocupa talvez o lugar que merece na literatura portuguesa contemporânea.
A organização do livro é esclarecedora. Em vez de seguir uma simples cronologia, Paulo Matos distribui os textos por três grandes zonas da produção de Joel Neto: romances, novelas e contos; diários, memórias, crónicas e reportagens; biografias, ensaios e outros textos (p. 14). A opção permite perceber uma das características mais evidentes do autor: a mobilidade entre géneros, acompanhada por uma notável continuidade de olhar. O jornalista, o cronista, o ficcionista e o memorialista não constituem figuras separadas. Em todos, regressam a atenção ao quotidiano, a capacidade de escuta, a curiosidade pelas vidas comuns, a consciência do lugar e uma interrogação ética sobre as relações humanas.
É essa unidade profunda que emerge da diversidade dos contributos. Urbano Bettencourt, lendo «Os cozinheiros não vão à guerra», primeiro conto de O Citroën que escrevia novelas mexicanas, sublinha a importância de contar e ouvir histórias (p. 28); Carlos Mesquita Severino encontra nos contos uma preocupação persistente com esquecidos e marginalizados, e com a leitura enquanto forma de consciência e mudança (pp. 102-103); João Marcelino insiste na aprendizagem jornalística da clareza e da observação, e define a escrita de Joel Neto como uma forma de escuta (p. 107). Estas perspetivas convergem num ponto decisivo: a literatura de Joel Neto parte frequentemente do pequeno, mas não é uma literatura pequena. O gesto, a conversa, o vizinho, a memória familiar, o jardim, o cão, o futebol ou uma notícia tornam-se meios de aceder a questões mais vastas: a pertença, a culpa, a perda, o envelhecimento, a desigualdade, o amor, a morte, a memória.
É também por isso que a presença dos Açores deve ser entendida com cuidado. Joel Neto é um escritor profundamente açoriano, e a Terceira tornou-se um dos centros simbólicos da sua obra. Mas seria empobrecedor encerrá-lo numa categoria regionalista. Vamberto Freitas vê em Arquipélago um romance capaz de transformar a geografia humana da ilha numa experiência de alcance universal (p. 47); João de Melo, a propósito de Meridiano 28, mostra como a Horta, durante a Segunda Guerra Mundial, se converte literariamente num «lugar de todo o mundo» (p. 70). O volume confirma essa leitura: em Joel Neto, a ilha não é periferia de onde se contempla, com ressentimento, um centro ausente; é um centro possível, um lugar a partir do qual o mundo pode ser interrogado.
O regresso aos Açores é, nesse sentido, mais do que um dado biográfico. Torna-se princípio poético e modo de conhecimento. A vida no campo e A vida no campo: Os anos da maturidade são talvez os exemplos mais evidentes. Victor Rui Dores destaca aí o apego à transitoriedade dos dias, o amor à terra e a atenção sensorial à paisagem, mas lembra justamente que a vida rural não significa apenas recolhimento e harmonia: nela cabem inquietação, morte, memória, dúvida e reflexão sobre o que acontece dentro e fora das ilhas (pp. 147-148). Não estamos perante uma fantasia regressiva de pureza campestre. A casa, o jardim, a Terra Chã e as estações do ano são dispositivos de atenção. Ao afastar-se da pressa do centro, o escritor não se afasta do mundo; procura vê-lo melhor.
Uma das virtudes maiores de Levanta os olhos para as montanhas é mostrar que essa atenção tem consequências éticas. O texto de Paulo Matos sobre Jénifer, ou a princesa da França chama a atenção para a denúncia da pobreza e das desigualdades nos Açores e desmonta a imagem turística de um arquipélago reduzido à beleza natural (pp. 76-77). Raquel Varela, no posfácio, retoma essa dimensão: apresenta Joel Neto como alguém que escreveu sobre a pobreza material e subjetiva num tempo pouco propenso a encará-la de frente (p. 186). A literatura, aqui, não surge como programa ideológico nem como tribuna. Surge antes como recusa da indiferença. O humanismo reiteradamente assinalado pelos autores nasce da atenção concreta ao outro.
Recuperar zonas menos lembradas do percurso do escritor constitui um outro mérito da coletânea. Ao lado de Arquipélago, Meridiano 28 ou A vida no campo, aparecem O terceiro servo, os contos de O Citroën que escrevia novelas mexicanas, Os sítios sem resposta, Al-Jazeera, meu amor, os textos sobre futebol, José Mourinho, o golfe, a diáspora e a Base das Lajes. Francisco José Viegas recorda a liberdade de um autor capaz de escrever sobre futebol sem se submeter às hierarquias do sistema literário (p. 164); Diniz Borges mostra como Uma história de amor transforma a história da Base das Lajes em memória social e afetiva (p. 174); Onésimo Teotónio de Almeida lê Muito mais do que saudade a partir da experiência do regresso e da pertença transatlântica (pp. 149-155). O resultado é a imagem de um escritor de interesses invulgarmente amplos, para quem a cultura dita «alta» e as experiências populares não pertencem a universos incompatíveis.
Decerto, um volume de homenagem desta natureza não é inteiramente homogéneo. Há textos de recorte ensaístico e forte capacidade analítica e há depoimentos mais pessoais, memorialísticos ou afetivos. A amizade assumida por vários participantes aproxima por vezes o livro do testemunho, mais do que da crítica estritamente académica. Mas seria injusto exigir-lhe uma uniformidade que o projeto não procura. O interesse está na sobreposição de olhares: o escritor visto por quem o estudou, por quem o editou, por quem trabalhou com ele, por quem partilhou redações, conversas, ilhas ou livros. Dessa pluralidade resulta uma história possível da receção de Joel Neto e, simultaneamente, um retrato intelectual.
O título, retirado da metáfora das montanhas aprofundada por Paulo Matos a partir da leitura de Terceira, condensa bem o sentido do volume. Levantar os olhos não significa desejar um trono no cume, mas ganhar perspetiva sem perder as raízes no sopé (pp. 13, 15). É uma imagem adequada para uma escrita que procura a distância necessária para compreender melhor aquilo a que pertence. E é igualmente uma boa imagem para o próprio livro: celebra um autor, mas a melhor homenagem que lhe presta não é colocá-lo num pedestal; é oferecer razões para o ler.
Depois de mais de duzentas páginas, uma conclusão parece impor-se. Joel Neto construiu, ao longo de um quarto de século, uma obra coerente precisamente porque nunca receou a diversidade. Mudou de género, de objeto e de escala, passou do jornalismo à ficção e da reportagem ao diário, escreveu sobre guerra, futebol, pobreza, emigração, memória, paisagem, família e amor; mas manteve uma fidelidade essencial às pessoas e às histórias que as ligam aos lugares. Levanta os olhos para as montanhas é, por isso, mais do que um livro comemorativo. É uma porta de entrada para uma obra que merece ser lida com maior atenção dentro e fora dos Açores; é uma obra em que o local não limita o universal: dá-lhe chão, húmus, matéria viva.
Carlos Nogueira Professor universitário, Cátedra José Saramago Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Foto: P.M.





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