Há uma dezena de Angolas nos EUA
Angola é nome de uma dezena de localidades nos Estados Unidos e a mais antiga remonta a 1607, quando foi criada Jamestown, na Virgínia, o primeiro colonato inglês em território americano e que, em 1619, recebeu os primeiros escravos africanos que eram angolanos. Assim, através da cruel escravatura, os angolanos entraram na história dos Estados Unidos.
A mais famosa Angola norte-americana é no estado da Louisiana, a 80 quilómetros de Baton Rouge. É uma de quatro propriedades que, em 1880, foram convertidas na Penitenciária Estadual da Louisiana, a maior prisão de segurança máxima dos Estados Unidos e presentemente com cerca de 6.300 reclusos.
A plantação Angola pertencia à família James Lease e ganhou o nome de Angola pelo facto de ali terem trabalhado escravos vindos do país africano do mesmo nome.
No sul do Delaware, junto à fronteira com Maryland, há cinco locais com o nome de Angola e o mais célebre é Angola by the Lake (Angola à Beira do Lago), nas margens do Lago Erie, a cerca de 35 quilómetros da cidade de Buffalo e com praias magníficas (e lotes de terreno a $500.000).
Angola no estado de Indiana, tem 8.612 habitantes e recebeu o nome de Angola em 1857 em homenagem aos missionários Quakers que se tinham estabelecido em Angola.
No estado da Virgínia, o primeiro local onde chegaram escravos angolanos, mais precisamente em Fort Monroe, existe a localidade de Angola no condado de Cumberland e na localidade de Farmville no mesmo condado, a estrada principal dá pelo nome de Angola Lane.
Uma curiosidade etimológica: nos estados da Carolina (Norte e Sul), o nome dado ao amendoím é goober (pronunciando-se guba). Segundo os estudiosos, trata-se da adulteração de jinbuga, amendoím em kikongo, uma das línguas tradicionais angolanas.
A chegada dos primeiros angolanos à América
Em agosto de 1619, o navio esclavagista português São João Baptista que tinha deixado Luanda com 350 escravos angolanos vendidos a traficantes espanhóis, chegou a Vera Cruz, no México, com apenas 147 angolanos. O navio tinha sido atacado por dois navios de corsários (um holandês e outro inglês) no Golfo do México, que levaram mais de uma centena de escravos.
O São João Baptista atracou no que era então Point Comfort (hoje Fort Monroe), na colónia britânica da Virgínia e trazia apenas 20 escravos, que foram os primeiros dos muitos angolanos trazidos para a América.
Historiadores concordam que, dos cerca de 350.000 escravos que vieram para os Estados Unidos durante o esclavagismo, o maior número era proveniente do que é hoje Angola. Por outro lado, calcula-se que, entre 1501 e 1866, tenham saído de Angola 5,7 milhões de escravos, a maioria com destino ao Brasil.
Daquele grupo inicial de vinte angolanos fazia parte António, que mais tarde viria a ser conhecido como Anthony Johnson e foi vendido a Edward Bennett, um inglês plantador de tabaco, para trabalhar na sua propriedade.
Para além de António, faziam parte do mesmo grupo uma mulher chamada Ângela e um homem, John Pedro, de 30 anos, o que indica que também poderão ter a mesma origem.
Antes de 1654, os africanos dos territórios da Virgínia e Maryland tinham um estatuto mais próximo de trabalhadores contratados do que de escravos; estavam ligados por um contrato com um período máximo de 12 anos, no final do qual recebiam terras e utensílios agrícolas para se estabelecerem por sua conta onde e como quisessem.
António revelou-se excelente trabalhador na plantação de Edward Bennett e, como prova da sua estima, permitiu-lhe trabalhar um pequeno terreno junto das suas terras, onde António começou a cultivar tabaco, milho e a criar algumas cabeças de gado.
Em março de 1622, a plantação de Bennett foi atacada pelos índios e 52 pessoas foram massacradas. Apenas António e mais quatro pessoas foram os únicos sobreviventes.
Nesse mesmo ano, uma nova leva de africanos chegou à Virgínia no navio Margaret e António apaixonou-se por Mary, a única escrava dessa leva trazida para trabalhar na plantação. António e Mary casaram e tiveram quatro filhos, dois rapazes e duas raparigas.
Documentos da época dizem que António não terá chegado a cumprir o contrato até ao fim, tendo ganho a liberdade muito antes dos 12 anos estipulados e comprado a liberdade da sua mulher. A primeira coisa que fez foi mudar o nome para Anthony Johnson.
A família mudou-se depois para o interior da Virgínia, para uma pequena quinta onde começou a criar gado e adquiriu 125 hectares de terras. Cada vez mais próspero, Anthony decidiu contratar cinco trabalhadores e um escravo africano. Anthony Johnson tornou-se o primeiro negro proprietário de escravos da América.
Em 1653, um incêndio de enormes proporções destruiu a maior parte da plantação da família de Johnson. Dois anos mais tarde, talvez fugindo aos vizinhos brancos hostis que lhe cobiçavam as terras, Anthony e Mary, juntamente com os filhos, mudaram-se para Somerset County, em Maryland, a norte, onde arrendaram uma fazenda com 120 hectares para cultivar tabaco e onde Anthony viveria até à sua morte, em 1670. A viúva Mary viveria ainda por mais dois anos.
Mas apesar de ser um homem inteligente, trabalhador e dinâmico, aos olhos dos outros Anthony nunca deixou de ser um homem negro e, logo após a sua morte, a maior parte das suas terras foram anexadas por um agricultor branco, aproveitando uma decisão de um tribunal local que dizia que “por ser negro, Anthony Johnson não era considerado um cidadão da Colónia da Virgínia”.
Em 1677, John Johnson Jr., neto de Anthony e Mary, herdou os últimos 22 hectares do que restava das terras de Anthony e batizou a fazenda com o nome de Angola, em homenagem à terra ancestral do avô.
Angolano chefiou revolta de escravos em 1739
Em 1739, um escravo angolano chamado Jemmy chefiou uma revolta de escravos cuja história está incluída no livro “Africans in America”, de Charles Johnson e Patricia Smith.
Era uma época de grande agitação devido à iminência da guerra entre os ingleses e os espanhóis, que controlavam a Flórida e prometiam a liberdade aos escravos que fugissem dos ingleses.
Essa promessa terá influenciado Jemmy (que também era conhecido por Cato) e, assim que ingleses e espanhóis entraram em guerra, em setembro de 1739, os escravos angolanos lançaram o seu ataque.
Na madrugada de 9 de setembro de 1739, Jemmy e outros vinte escravos avançaram sobre Stono Bridge, localidade nos arredores de Charleston, Carolina do Sul, e assaltaram duas lojas para roubar armas e pólvora. Os dois donos dessas lojas foram os primeiros brancos a serem mortos pelos amotinados, foi um ataque brutal, os dois lojistas foram decepados e as cabeças deixadas à porta da loja.
Ao fim do dia, os homens de Jemmy tinham morto mais de vinte colonos brancos, mas os rebeldes foram esmagados por milícias da Carolina e foram também decapitados e as cabeças deixadas ao longo da estrada como aviso a outros escravos.
Angolanos na construção de New York
No século XVII, a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais utilizou mão de obra escravizada de Angola para consolidar a colónia holandesa de New Amsterdam, mais tarde New York. Os escravos eram distribuídos pela ilha de Manhattan de acordo com as necessidades do colonato e dos colonos.
Os primeiros africanos chegaram a Manhattan logo após a fundação da colónia em 1624 e foram usados na limpeza das matas e na abertura de caminhos na ilha. A célebre avenida Broadway foi aberta por esses trabalhadores, bem como a Wall Street.
Celebridades americanas de origem angolana
Durante muitos anos, Hollywood foi vista como uma indústria distante da realidade africana. No entanto, à medida que a cultura do continente ganha visibilidade internacional, cada vez mais artistas revelam ligações profundas com países africanos, incluindo Angola, Nigéria, Gana, Serra Leoa e África do Sul.
O mais curioso é que algumas dessas descobertas surpreenderam até os próprios artistas.
Entre testes de DNA, histórias familiares e entrevistas emocionantes, várias celebridades internacionais passaram a falar abertamente sobre as suas origens africanas, despertando orgulho entre milhões de africanos espalhados pelo mundo.
E algumas dessas ligações envolvem diretamente Angola.
Chris Tucker, ator e comediante norte-americano, famoso pela série Rush Hour (A Hora da Ponta) descobriu em um teste de DNA que a sua ancestralidade paterna remonta ao povo Mbundu, na região de Malanje, em Angola.
Isaiah Washington, ator conhecido pelo seu papel na série Grey’s Anatomy, também realizou testes genealógicos que apontaram forte ligação genética com o povo Mbundu.
Entre os atores que mais demonstram orgulho pelas suas origens africanas está Idris Elba. O ator, conhecido por produções como Luther e diversos filmes de ação internacionais, possui ligações familiares à Serra Leoa e ao Gana.
Nem todas as estrelas africanas de Hollywood descobriram as suas origens através de testes genéticos. Algumas nasceram efetivamente no continente.
É o caso de Charlize Theron, nascida na África do Sul. A atriz tornou-se uma das maiores estrelas femininas de Hollywood e ficou ainda mais conhecida por interpretar a vilã Cipher no filme The Fate of the Furious.
Outro nome que ajudou a fortalecer a presença africana no entretenimento mundial é Trevor Noah. Nascido na África do Sul, o antigo apresentador do programa The Daily Show tornou-se conhecido mundialmente pelo humor inteligente e pelas análises sociais e políticas.
No universo musical, Tyler, The Creator também possui raízes africanas.
O artista é filho de pai nigeriano da etnia Igbo, uma das maiores e mais influentes da Nigéria.
A presença nigeriana na indústria musical internacional tem crescido significativamente nos últimos anos, especialmente através da expansão global do Afrobeats.
Entre os nomes mais associados à valorização da identidade africana no cinema moderno está Danai Gurira. Conhecida pelo papel de General Okoye no filme Black Panther, a atriz possui origens ligadas ao Zimbabwe.
Como se vê, de Angola à Nigéria, passando por Gana, Serra Leoa, Zimbabwe e África do Sul, as raízes africanas estão cada vez mais visíveis em Hollywood.




0 Comments