A comissária europeia Maria Luísa Albuquerque veio aos Açores na semana passada alertar os políticos para uma coisa óbvia: “os fundos europeus têm de servir para tornar os Açores menos dependentes”.
O Presidente do Governo Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, já tinha defendido, anteriormente, a alocação prioritária de fundos para a reabilitação e manutenção das infraestruturas públicas já existentes, em vez de investir sistematicamente em novas construções.
No dia seguinte fomos surpreendidos com a notícia de que o Governo Regional tinha inscrito no PTRR uma verba para construir… uma via rápida entre S. Roque e a Madalena!
Tudo ao contrário dos avisos contra a política de betão armado sem critério.
A mobilidade terrestre é sempre um dos maiores factores de desenvolvimento de qualquer ilha, mas quando os investimentos não olham a critérios rigorosos de prioridades, assumem um ridículo do tamanho de uma via rápida.
Neste caso concreto, não duvido que uma via rápida entre S. Roque e Madalena seja um investimento importante para os dois concelhos e para a ilha, mas quando olhamos à volta e constatamos outras necessidades prioritárias, incluindo nas vias terrestres, dá vontade de aconselhar a quem inventou esta proposta a percorrer, por exemplo, durante uma semana a fio, como penitência, de manhã até à noite, o trajecto estonteante entre as Lajes e a Piedade.
Há governantes que não têm a mínima noção da realidade das nossas ilhas e não fazem um mínimo de esforço para perceber, nem que seja reunindo e ouvindo as populações locais ou os seus representantes.
Investir 70 milhões de euros numa via rápida, depois de, há poucos dias, ter investido 8,5 milhões na variante à Madalena, esquecendo o sul da ilha, não cabe na cabeça de ninguém.
Das Lajes ao aeroporto são quase 37 quilómetros e mais dois se as populações da ponta da ilha quiserem apanhar o barco. Não faz sentido concentrar o investimento num mesmo trajecto, quando, por exemplo, o eixo Piedade-Lajes necessita de forte intervenção, onde os taludes são perigosos e já ocorreram derrocadas.
Mas se quisermos ir a outras prioridades de investimento, temos a famigerada ampliação da pista do Pico, sempre envolvida em estudos atrás de estudos, o atrasado porto comercial e os prometidos novos barcos que nunca mais foram a concurso.
No sector da saúde, temos a demorada obra do Centro de Saúde das Lajes, que tarda a arrancar, para não referir o tão desejado Centro Hospitalar Faial-Pico, que reuniria numa só unidade as sinergias de um sector disperso por várias capelinhas.
A melhoria de equipamentos médicos e fixação de profissionais nos centros de saúde locais, a pressão crítica no acesso à habitação para os residentes, o reforço da proteção costeira e a melhoria operacional dos próprios portos, que enfrentam desafios climáticos severos, exigindo investimentos elevados, como a recente reabilitação do Porto das Lajes do Pico, são outras prioridades em que o Governo de Bolieiro se devia focar, para além de um bom planeamento dos transportes marítimos no Triângulo.
Levaram um ano a perceber que os cabeços de amarração no Terminal Marítimo da Madalena estão degradados e, agora, num ápice, colocam num plano de investimentos mais betão sem fundamento.
Quem inventou a via rápida merecia a mesma via de despedimento.
É o que faz brincar com o dinheiro dos contribuintes.



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